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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Quarta-feira, Julho 05, 2006

O dia que conheci Monteiro Lobato

Sempre fui risonha. Ria demais, sobretudo se o mano João Pedro estivesse por perto. Ria, ria, ria sem parar, até que um beliscão alcançasse minhas pernas ou meus braços. Claro, era o sinal dado pela mamãe de que aquele riso já havia ultrapassado os limites. Ai...ai...ai... Era um beliscão dado com força, que sempre arroxeava depois: o timbre do desagrado de minha mãe, por eu e Joãozinho rirmos demais.
Numa tarde, creio que foi em 1945, aos meus 7 anos, na nossa livraria, subitamente vi entrar um homem de terno branco de linho, camisa amarela clara, gravata azul clara, bigodudo, sobrancelhas grossas demais, olhos penetrantes, nariz e boca bonita, o qual já havia conhecido através da revista “O Cruzeiro”. Meu Deus, não é que estava diante de nada mais e nada menos que Monteiro Lobato?!... Nosso Senhor Benedito! Deu-me a crise de riso, um riso descomunal, interminável que me fez entrar em crise asmática.
Monteiro Lobato olhou-me penalizado. Observara que estava diante de uma criança muito nervosa e o riso fazia parte daquele estado de saúde precário. Aproximou-se de mim, passando a mão sobre meus cabelos negros como as asas da graúna e, bondoso e amigavelmente me falou:
- Parece muito com a Emília. Você já leu os meus livros e sabe quem é ela, não é?
- Sim, temos a coleção de seus livros e a mamãe os vende aqui na livraria.
- Então, você me conhece, filha?
- Naturalmente, o senhor é o grande escritor Monteiro Lobato que defende o nosso ferro e nosso petróleo, além de ser um bom advogado, não é mesmo?
- Isso. Gostei de saber que você, tão menina, gosta de ler, sabe dos meus ideais e até já lê meus livros. Como é seu nome?
- Marta (respondi, com a voz trêmula, pois era grande a emoção de estar tète-a-tète com aquele maravilhoso escritor). Encorajei-me e lhe disse que todo mundo de Cuiabá já ouvira falar da boneca Emília ou lera sobre suas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo.
- Tenho uma filha com o seu nome: Marta, que quer dizer ‘mulher trabalhadeira’.
- Ousei fazer-lhe uma pergunta: O senhor só escreve para crianças?
- Não, escrevo livros também para adultos.
- O senhor só faz isso?
- Bem, é o que mais gosto de fazer: escrever, mas sou advogado, fazendeiro, jornalista e pintor, além de proprietário de revista de cultura. Meu sonho é transformar o Brasil num país moderno e desenvolvido. O Brasil é muito rico, minha filha! Quando você crescer vai descobrir muitas coisas...
- Onde foi que o senhor nasceu?
- Em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Sabe lá o que isso? Estou com 63 anos. Vivi muito e você quanto anos têm?
- Tenho 7, e comecei a ler com 6 anos. Minha professora chama-se Hermínia Pereira Leite e é muito boa para mim.
- Como é seu primeiro nome?
- José Renato, mas todo mundo só me chama de Monteiro Lobato.
- Como foi que o senhor inventou aquele boneco de sabugo?
- Olha, minha filha, fui criado na fazenda e vivi entre sabugos de milho, chuchus, mamão, espinafre, cebola, quiabo... Um dia me deu a idéia de criar histórias para crianças misturando legumes com gente. Você gostou?
- Demais, Sr. José Renato. Seu nome é muito bonito. Seu pai ainda vive?
- Que nada, infelizmente fiquei órfão de pai aos 16 anos e, no ano seguinte minha mãe não suportou as saudades do marido e também foi embora. Fiquei sozinho muito cedo, mas lia muito. A solidão não existe para quem gosta de ler.
- O senhor é casado?
- Sim. O nome da minha mulher é Maria Pureza, a minha Purezinha, que me deu quatro filhos bonitos, inteligentes e perfeitos.
- Quero lhe dizer que ri muito ao ler a história do Jeca Tatu,as peraltices do Saci-Pererê, a geniosa da Narizinho...
- Gostaria que todas as crianças do meu Brasil fossem como você, Marta, que gosta de ler. Muitas crianças não têm condições de comprar livros, pois lhes falta o necessário para comer, minha filha. Parabéns! (Virando-se para minha mãe, que a tudo ouvia, assustada e perplexa, a cumprimentou por dar livros a seus filhos).
- Eles lêem, porque vendo sua coleção aqui na livraria, mas peço que tenham cuidado para não estragar, senão não poderei vendê-los para outras famílias.
Quando fiz dez anos, fiquei muito triste quando mamãe nos contou que ouvira na “Rádio Nacional”, do Rio de Janeiro, que Monteiro Lobato morreu, aos 66 anos. Ou seja, três anos após aquele nosso breve bate-papo na livraria da rua 13 de junho. A imagem dele está fotografada em minha memória visual. Que HOMEM!

Margô - a feiosa

Magra, tez pálida,cabelos brancos, nariz adunco e óculos fundo-de-garrafa, Margarida diz: - Foi o destino quem quis me fazer deste djeito e cumpro minha missão. O povão arremeda Margô e ela tem faniquitos de raiva onde quer que esteja. Noutro dia foi na Praça da República que uma soberba imitou a cara dela e, p’ra que?!.... Além de falar que não era de sua laia, acrescentou que a mulher lograva o marido. Lambida, Veroca respondeu: - Naquilo que é meu, mando eu, e o que tem a larida qu’isso?
No calor do freje, Margô ganhou fortidão e agatanhou o rosto de Veroca. Deu fuzarca e alguns desocupados fizeram roda p’ra ver o fogaréu crescer.
Berrano, Margô disse: - ocê é coloiada cô o Vinte e Um e não tem vergonha na fuça? Vivem só coxando! Ê ah, pensa que todo mundo não sabe e tão rino no chá cara?
Variada, Veroca tomou o caminho do Coxipó e saiu correndo como uma louca, mas antes ainda achou tempo para xingá-la de Vaca matula.
- Vá bugiar! Ou mamar na gata, que tô até no pescoço das micajes que fazem da minha cara. Sô feia e daí? Não como na casa de tchô ninguém e nem tomo marido das outras!
Ventando foi p’ra sua casinha de porta e janela, onde vive sozinha com o gato Ronaldo. A vertude dela é espiá futebol na televisão e viche!.... Tem paixão pelo Ronaldo, do Real Madri. No jogo dele, acende vela e reza p’ro time vencer. O quá! Num adianta explicar pr’essa oreiada que num tô nem aí pá paçoca de não ser bonita. Negatofi! Vivo feliz com o meu Ronaldo, este gato que não tem moage comigo. Cantarolou: “Não, eu não posso lembrar que te amei...” Ninguém jamais soube que Margô teve um grande amor, mas ele morreu de viver inté no chifre de bêbado. Quem não tem seus pecadinhos?!... Passou de leve as mãos no pêlo do gato e ficou arrepiada.

Os irmãos Jacinto e Ezequiel

A história de Jacinto Siqueira, irmão do inteligente Ezequiel, passa pelos meus olhos como se revisse uma fita de vídeo, dos anos 40. Ele bispava o ambiente das casas e ia na batida de que ali teria babujas, salgados e refrigerantes. Era dia de aniversário. Os antigos quase não serviam bebidas alcoólicas, era só capilé. Jacinto era pessoa batida e, nem que o terno fosse velho, pois era brefado, batia a cabeça em busca das festas e se enfatiotava usando uma gravata vermelha e uma rosa na lapela. Não dava pitaco na vida de txô nhonhô nem de txâ nhanhá. Nem...não...a sabença de Jacinto era safa, porque compartilhava da mesa da festança, sem qualquer saliência. Se alguém rejeitasse sua presença, ficava sentido pela desfeita, então dava no pé para seu casebre. Não tentava dobrar alguém. E ah!... Sem queixumes, sequer mostrava quizila com o rebingudo que o rechaçara.
O irmão Ezequiel dava-se à leitura e falava quatro idiomas: português, francês, inglês e alemão. De roupa surrada e cercado seis de cães, quem diria que fosse tão inteligente? Um dia, três alemães, num som de taquara rachada, palestravam no saguão do Grande Hotel, e desdenhavam de Cuiabá. O cabeça não fez por menos e, no mesmo idioma, disse que o trio era por demás casquento e paspalhão, metido a sebo. Se Cuiabá é pegagosa e cheia de quentura, porque não pegam o primeiro avião e vão embora?Ponham-se pra fora daqui, seus nazistas da terra de Hitler! Os estrangeiros quase prancharam com aquele pito sábio.
Gente nossa, seja onde for, é cuiabano mesmo! Onde for ninguém tira farinha co’ele. Ama a quem o ama e empomba com quem invocar com sua cultura. Aí sim, escurraça co’s paus-rodados que vivem numa terra da qual não gostam.Agora de que será???!!!

Cuiada

Insistentemente gritam lá fora: - Dona! Dona! Dona!
Desengonçada e desenxavida, dona Zizinha atende ao chamado, apesar de exibir a boca banguela e trazer o periquito sobre o ombro esquerdo. O bocudo verde repete: Tchá bobó...tchá bobó!... A visita fica bispando e dispenca numa poça. Descontrolada, a velhinha põe as gengivas p’ra fora numa gaitada. Mandou o periquito p’ra dentro.
- Quem é você? – indaga.
- Não lembra da minha conga roxa? Trabalhei um ano pr’a senhora. Sou da Várzea Grande, fia da congueira Xodó. Dei no pé porque seu fio quis fazer besteira comigo. Figa!
Dona Zizinha foi recuando espantada e repetindo: - Ah! Aquele desguaritado pôs fios nos buxos de oito moças e depois disparou p’ra Bolívia. Tem um gambira por lá.
- Um vizinho me deu chepa e vim ver se a senhora quer meu serviço de novo.
- De graça?! Tô um emprasto... Ioseilá! Pode ser a idade... Não vou te embromar, mas a gaita deixada pelo finado Bide é um chiriri. Mal dá para os remédios do meu fufu..
- Nada a ver. Preciso me arrumar e sem dinheiro não dá! Quero grana.
- Não estou canhando. É que nhonhô , onde já se viu, fez fiúza comigo. Ganho só dois mínimos. Não sou aquela fortidão de antes e tudo anda tão fuzarcado! Sem lubiar co’a fia de Xodó! Figa! Ocê levou uma cuiada... Mas a molher do outro lado, quem sabe precise de você. É naquele muro de taipa amarelo. Ela é um mondrongo, mas é boa! Vá lá!

Doruco

Doruco é um varapau, feio e seboso. Casou com Ninita, nascida às margens do rio Paraguai,Cáceres, que é uma prisquilinha. Ao passear na Praça da República, quase todo mundo comenta a desproporção do tamanho do casal. São felizes, é o que parece, pois sorriem e se abraçam ternamente.São 10 anos de casados e têm 3 filhinhos lindos, duas gurias e um guri. Todo ano festejam os aniversários do fios c’o tudo feito pela mãe de Doruco, tchá Dita, mestra na arte gastronômica. O marido dela, Altino, é variado. Fala sozinho e palestra com as pedras do quintal e as árvores. Guarda uma pedra debaixo do travesseiro, como amuleto. Ai de quem tirá-la dali! Se a mulher o contraria, xinga e manda: Vá caçar sapo com bodoque, viu? Depois zanza de lá p’ra cá dizendo palavras indecifráveis. Volta p’ra casa e dorme no sofá da sala, agarrado com a pedra trazida das margens do Coxipó, quando as águas do rio ainda eram límpidas.
Grocotchpó, Altino varia a noite toda e faz micaje, dormindo.
Na manhã seguinte Ninita traz o quebra-torto p’ro sogro, que todo refestelado elogia a beleza da nora. Aí Doruco arranjou um fervedouro e deixou o pai com cara de taxo, pois mudar dali nem pensar!
– Não seja cavoteiro e fica ciscando p’ra cima de minha molher!
- Figa, meu fio, não posso gavar sua molher? Larga de lambança! Tá quereno que eu leve os cornos e vá morar num buraco qualquer? Deixa de ser bacurau, que Ninita p’ra mim é uma fia.Se é por que não entro com um bererés p’ra ajudar no quibebe e arroz, eu sumo. Sou mesmo um refugo nesta casa!
- Que qué esse? Bonito p’ro cê, mandar esse pacová embora! É seu pai, mardito! Larga disso!

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