O dia que conheci Monteiro Lobato
Numa tarde, creio que foi em 1945, aos meus 7 anos, na nossa livraria, subitamente vi entrar um homem de terno branco de linho, camisa amarela clara, gravata azul clara, bigodudo, sobrancelhas grossas demais, olhos penetrantes, nariz e boca bonita, o qual já havia conhecido através da revista “O Cruzeiro”. Meu Deus, não é que estava diante de nada mais e nada menos que Monteiro Lobato?!... Nosso Senhor Benedito! Deu-me a crise de riso, um riso descomunal, interminável que me fez entrar em crise asmática.
Monteiro Lobato olhou-me penalizado. Observara que estava diante de uma criança muito nervosa e o riso fazia parte daquele estado de saúde precário. Aproximou-se de mim, passando a mão sobre meus cabelos negros como as asas da graúna e, bondoso e amigavelmente me falou:
- Parece muito com a Emília. Você já leu os meus livros e sabe quem é ela, não é?
- Sim, temos a coleção de seus livros e a mamãe os vende aqui na livraria.
- Então, você me conhece, filha?
- Naturalmente, o senhor é o grande escritor Monteiro Lobato que defende o nosso ferro e nosso petróleo, além de ser um bom advogado, não é mesmo?
- Isso. Gostei de saber que você, tão menina, gosta de ler, sabe dos meus ideais e até já lê meus livros. Como é seu nome?
- Marta (respondi, com a voz trêmula, pois era grande a emoção de estar tète-a-tète com aquele maravilhoso escritor). Encorajei-me e lhe disse que todo mundo de Cuiabá já ouvira falar da boneca Emília ou lera sobre suas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo.
- Tenho uma filha com o seu nome: Marta, que quer dizer ‘mulher trabalhadeira’.
- Ousei fazer-lhe uma pergunta: O senhor só escreve para crianças?
- Não, escrevo livros também para adultos.
- O senhor só faz isso?
- Bem, é o que mais gosto de fazer: escrever, mas sou advogado, fazendeiro, jornalista e pintor, além de proprietário de revista de cultura. Meu sonho é transformar o Brasil num país moderno e desenvolvido. O Brasil é muito rico, minha filha! Quando você crescer vai descobrir muitas coisas...
- Onde foi que o senhor nasceu?
- Em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Sabe lá o que isso? Estou com 63 anos. Vivi muito e você quanto anos têm?
- Tenho 7, e comecei a ler com 6 anos. Minha professora chama-se Hermínia Pereira Leite e é muito boa para mim.
- Como é seu primeiro nome?
- José Renato, mas todo mundo só me chama de Monteiro Lobato.
- Como foi que o senhor inventou aquele boneco de sabugo?
- Olha, minha filha, fui criado na fazenda e vivi entre sabugos de milho, chuchus, mamão, espinafre, cebola, quiabo... Um dia me deu a idéia de criar histórias para crianças misturando legumes com gente. Você gostou?
- Demais, Sr. José Renato. Seu nome é muito bonito. Seu pai ainda vive?
- Que nada, infelizmente fiquei órfão de pai aos 16 anos e, no ano seguinte minha mãe não suportou as saudades do marido e também foi embora. Fiquei sozinho muito cedo, mas lia muito. A solidão não existe para quem gosta de ler.
- O senhor é casado?
- Sim. O nome da minha mulher é Maria Pureza, a minha Purezinha, que me deu quatro filhos bonitos, inteligentes e perfeitos.
- Quero lhe dizer que ri muito ao ler a história do Jeca Tatu,as peraltices do Saci-Pererê, a geniosa da Narizinho...
- Gostaria que todas as crianças do meu Brasil fossem como você, Marta, que gosta de ler. Muitas crianças não têm condições de comprar livros, pois lhes falta o necessário para comer, minha filha. Parabéns! (Virando-se para minha mãe, que a tudo ouvia, assustada e perplexa, a cumprimentou por dar livros a seus filhos).
- Eles lêem, porque vendo sua coleção aqui na livraria, mas peço que tenham cuidado para não estragar, senão não poderei vendê-los para outras famílias.
Quando fiz dez anos, fiquei muito triste quando mamãe nos contou que ouvira na “Rádio Nacional”, do Rio de Janeiro, que Monteiro Lobato morreu, aos 66 anos. Ou seja, três anos após aquele nosso breve bate-papo na livraria da rua 13 de junho. A imagem dele está fotografada em minha memória visual. Que HOMEM!

