Meu vizinho, Dr. Glaxo
Dr. Glaxo, médico dermatologista aposentado, casado com Nancy, é meu vizinho do 904. Moro no 804. Desde que cheguei de Cuiabá, via o casal descer e subir no elevador. Disse-me, uma vez, já ter comemorado as Bodas de Diamante e que, ao casar com ela, inflou o peito para destacar: “Ela tinha apenas 14 anos, era uma boneca e, sobretudo, virgem.” Riu, observando que hoje são poucas as moças que se casam com o selo de segurança. Calo-me, quem sou eu para debater virgindade com o médico de noventa e poucos anos?
Simpática a dupla, um até se parece com o outro. Ora, envelheceram juntos e dizem que se amaram e amam-se muito. Compartilharam da vida por mais de 75 anos. É mole, caro leitor? Um sempre está ao lado do outro, sem rancores e sem maiores alegrias. São dois velhos, simplesmente.
Têm apenas um casal de filhos: Tina casou-se com um David Johnson e vive no Texas, com quatro filhos norte-americanos; Daniel é médico, casado com Jéssica, goiana, pai de três filhos, e igual especialidade do pai, de quem herdou o consultório na Avenida N. Sra. De Copacabana. Conta-me a vizinha do 802, uma paraibana muito simpática, de nome Terezinha.
Dr. Glaxo é carioca, mas prefere ler os jornais de São Paulo, pois na sua opinião “são mais sérios que os jornais do Rio”. O casal senta-se na rua Dias da Rocha, ao lado de outros velhinhos, para ler e passa lá a manhã inteira. Nancy, sem sempre atenta às notícias, fixa-se em cenas engraçadas que a megalópole oferece a todo instante. Se a cena for muito excêntrica, cutuca o marido, que olha e ri. Certo dia, segundo me contou, viu uma mulher magrinha como palito, de cabelos vermelhos e com um cachorro de pelo azul (claro, mandou pintar o pelo do totó) e, particularmente, deleitava-se com os olhares dirigidos ao cão.
Bem, na semana passada, Nancy, quase na hora de sair para ver a peça “Orlando Silva – O Cantor das Multidões”, no Teatro Baden Powell, avisou ao marido que daria o último retoque na maquilagem. Após cinco minutos Dr. Glaxo foi verificar a causa da demora e quase teve um enfarte ao dar com a mulher estendida no chão. Que horror! Gritava, chorava e não queria crer que a mulher acabara de morrer.
O filho foi acionado pela vizinhança e, súbito, tratou dos mínimos detalhes da morte de sua mãe. A ambulância chegou e levou o corpo para o Instituto Médico Legal. O pai, desesperado, tomou um Lexotan, depois se deitou no sofá da sala e dormiu.
Dia seguinte, os moradores em peso foram ao enterro no Cemitério São João Batista. Os bate-papos, como é comum em tais ocasiões, giravam sobre a vida do casal.
Antenor, do 401, revelou que admirava o desinteresse que ambos demonstravam pela vida alheia. Casal sábio! – ressaltou. Acho que eram católicos e iam sempre à igreja São Paulo Apóstolo. Zico, do 202, discordou, a firmando que certa vez foi ao templo budista e os viu por lá. Talvez fossem católicos e budistas, emendou Marly, do 603.
- O importante mesmo era a serenidade de ambos, sem demonstrar grandes alegrias ou pequenas tristezas. – afirmei.
- Curioso, eu que sou da Assembléia de Deus – disse Abel -, do 501, e quis lhes falar sobre o mistério da morte, mas Dr. Glaxo impediu que eu continuasse, afirmando ser assunto proibido entre eles.
- Sabe de uma coisa, opinou Tonica, do 103, acho até que a vida deles era muito vazia e, se bem me expresso, comparo-os a dois peixinhos que viviam num aquário. Nem o casal percebia...
Afinal chega o momento do último adeus. O caixão é fechado e o séqüito segue
silencioso até a sepultura da família, um mausoléu de mármore de Carrara, com um anjo de feição gentil com mãos grandes como que abençoando a morte.
Um pé-de-vento, nervoso, súbito, começa a soprar e as folhas secas, poeira e papéis entravam pelos olhos dos presentes que, assombrados, murmuram baixinho entre si:
“O que é isto? Será que dona Nancy é santa? Figa! Que ventania mais esquisita! Valha-me, São Nicolau” – murmura dona Petruska, do 303.
Circunspeto, o viúvo, de braço dado com a nora, espalma as mãos e pede calma a todos. Depois, com a voz trêmula, diz: “Com certeza, minha mulher foi uma Santa! Que Deus a tenha!” E jogou rosas brancas sobre o caixão, antes que fechassem o túmulo.
Nem um mês se passou. De repente, reencontro Dr. Glaxo, no elevador e, espantada, percebo sua expressão de extrema alegria.
Dias após... O quêsse!!! Ora, ora, ora! Meu vizinho sobe para seu apartamento, abraçado com uma jovem mulata de seus vinte e poucos anos. Sorri, quase baba e, sem nenhum constrangimento me pergunta: “Acha que tenho bom gosto?”
-
Gigi mora no Leblon há mais de quarenta anos. Vive só, aliás, tem um cachorro chamado Lincoln. Outro dia, o porteiro me ligou para avisar que ela subia. A goiana não é disso: quando vem me visitar, telefona antes. Ela mesma repete que seu avô lhe dizia: “Sem aviso, minha neta, só doença, que vem repentinamente.” Estranho!
Tocou a campainha. Também não é seu jeito de tocar... Normalmente, aperta a campainha com suavidade, mas hoje o toque foi de pessoa nervosa. Na verdade, Gigi deve estar com qualquer problema, pensei, ao abrir-lhe a porta.
- Marta, pelo amor de Deus, você nem sabe o que me aconteceu ontem! – chorava convulsivamente.
- Calma! Quer um copo d’água? Um calmante? Um chá de artemísia?
- Água... água...água... Por favor!
De uma só golada, bebeu tudo. E ah! Gigi estava mesmo transtornada, pois em
geral, engole os líquidos como se mastigasse, lentamente. É vegetariana e aprendeu a saborear os líquidos.
- Bem, agora me conte o que a tornou apavorada desse jeito.
- Invadiram meu apartamento, amiga. Roubaram todos os aparelhos sonoros e, como guardava no meio das calcinhas um pacote de plástico com minhas economias, os ladrões, sei lá com que intuição, foram direto nessa gaveta. Ô, vida ingrata! Vive-se hoje entre o Iraque e a Rocinha. São ladrões do morro... E eu guardava setenta mil reais, que era para minha viagem às Ilhas Gregas.
- Por que não aplicou num dos bancos?
- Eu sou lá de acreditar em bancos? Ah! Que saudade me dá do colchão de vovó Nhanhá. Era de crina de cavalo, mas nos oferecia garantia e confiabilidade. Dinheiro escondido ali o governo não raspava com o tal do CPMF e outros tributos. Nem roubava e nem confiscava. Ladrão? Ora, sou de Rio Verde, interior de Goiás. Naquele tempo só aparecia, vez por outra, o tal do ladrão de galinha. Juro! Estou com saudades do tempo antigo, porque a era global confundiu tudo. Acabaram-se os colchões-cofres e surgiram os cofres de aço embutidos nas paredes, que só os pedreiros sabiam onde tinham colocado. À frente, para disfarçar, punha-se um quadro de Portinari ou Di Cavalcanti. Lá, vovó guardava as jóias e vovô Gerardo empilhava as notas de cruzeiros e outro tanto de dólares, após cada venda de gado. Nunca foi roubado. Lembro-me que, assim que resolvemos mudar para o Rio, vovô vendeu o cofre a um de seus compadres e, ironicamente, esqueceu nele aproximadamente quarenta mil contos. Era outro tempo, minha amiga. Vou te contar: seu Vicente chegou lá em casa com o coração na boca, apressado, nervoso, e devolveu o dinheiro todo a vovô. Dá para acreditar?
- Na verdade, soa como inverdade, nos dias atuais.
- Só para que você avalie, aquela quantia dava para comprar um apartamento na Vieira Souto. Atabalhoado, meu avô esqueceu de pegar o dinheiro no cofre.
- Puxa vida! Como seu avô era distraído!
- Como era! Vivia esquecendo tudo e principalmente os óculos, que uma vez colocou na geladeira. Quem acabou encontrando foi Lilá, nossa empregada, na hora de pegar a carne.
- Voltando aos bancos, Deus que me perdoe, mas como nos roubam. Oh! Desgraça! Sei de uma comadre que perdeu o marido subitamente, que deixara milhões depositados num banco. Da noite pro dia, minha amiga, sumiu tudo. Ela entrou na justiça, porque a poucos dias antes de morrer, ele havia tirado um extrato. Apesar da lentidão da justiça, graças a Deus, o dinheiro reapareceu. Não acredito nos bancos, apesar de viver no 3o milênio. Sinto vontade de ter um cofre de colchão de crina de cavalo.
Gigi, mais calma, explicou-me sobre o arrombamento, quando os ladrões safados
a trancafiaram no banheiro de empregada, um cubículo. Que sufoco! Que vontade de ter vivido no passado! Finalmente, abriu um sorriso e disse: “É, mas não sou tão besta assim, pois escondi quarenta mil reais no forno da cozinha. Semana que vem vou embora pra Portugal. Vou morar em Lisboa. Cansei-me do Brasil. Quer ir comigo?!...”
- Ora, de que!!! Sou uma simples aposentada.
Simpática a dupla, um até se parece com o outro. Ora, envelheceram juntos e dizem que se amaram e amam-se muito. Compartilharam da vida por mais de 75 anos. É mole, caro leitor? Um sempre está ao lado do outro, sem rancores e sem maiores alegrias. São dois velhos, simplesmente.
Têm apenas um casal de filhos: Tina casou-se com um David Johnson e vive no Texas, com quatro filhos norte-americanos; Daniel é médico, casado com Jéssica, goiana, pai de três filhos, e igual especialidade do pai, de quem herdou o consultório na Avenida N. Sra. De Copacabana. Conta-me a vizinha do 802, uma paraibana muito simpática, de nome Terezinha.
Dr. Glaxo é carioca, mas prefere ler os jornais de São Paulo, pois na sua opinião “são mais sérios que os jornais do Rio”. O casal senta-se na rua Dias da Rocha, ao lado de outros velhinhos, para ler e passa lá a manhã inteira. Nancy, sem sempre atenta às notícias, fixa-se em cenas engraçadas que a megalópole oferece a todo instante. Se a cena for muito excêntrica, cutuca o marido, que olha e ri. Certo dia, segundo me contou, viu uma mulher magrinha como palito, de cabelos vermelhos e com um cachorro de pelo azul (claro, mandou pintar o pelo do totó) e, particularmente, deleitava-se com os olhares dirigidos ao cão.
Bem, na semana passada, Nancy, quase na hora de sair para ver a peça “Orlando Silva – O Cantor das Multidões”, no Teatro Baden Powell, avisou ao marido que daria o último retoque na maquilagem. Após cinco minutos Dr. Glaxo foi verificar a causa da demora e quase teve um enfarte ao dar com a mulher estendida no chão. Que horror! Gritava, chorava e não queria crer que a mulher acabara de morrer.
O filho foi acionado pela vizinhança e, súbito, tratou dos mínimos detalhes da morte de sua mãe. A ambulância chegou e levou o corpo para o Instituto Médico Legal. O pai, desesperado, tomou um Lexotan, depois se deitou no sofá da sala e dormiu.
Dia seguinte, os moradores em peso foram ao enterro no Cemitério São João Batista. Os bate-papos, como é comum em tais ocasiões, giravam sobre a vida do casal.
Antenor, do 401, revelou que admirava o desinteresse que ambos demonstravam pela vida alheia. Casal sábio! – ressaltou. Acho que eram católicos e iam sempre à igreja São Paulo Apóstolo. Zico, do 202, discordou, a firmando que certa vez foi ao templo budista e os viu por lá. Talvez fossem católicos e budistas, emendou Marly, do 603.
- O importante mesmo era a serenidade de ambos, sem demonstrar grandes alegrias ou pequenas tristezas. – afirmei.
- Curioso, eu que sou da Assembléia de Deus – disse Abel -, do 501, e quis lhes falar sobre o mistério da morte, mas Dr. Glaxo impediu que eu continuasse, afirmando ser assunto proibido entre eles.
- Sabe de uma coisa, opinou Tonica, do 103, acho até que a vida deles era muito vazia e, se bem me expresso, comparo-os a dois peixinhos que viviam num aquário. Nem o casal percebia...
Afinal chega o momento do último adeus. O caixão é fechado e o séqüito segue
silencioso até a sepultura da família, um mausoléu de mármore de Carrara, com um anjo de feição gentil com mãos grandes como que abençoando a morte.
Um pé-de-vento, nervoso, súbito, começa a soprar e as folhas secas, poeira e papéis entravam pelos olhos dos presentes que, assombrados, murmuram baixinho entre si:
“O que é isto? Será que dona Nancy é santa? Figa! Que ventania mais esquisita! Valha-me, São Nicolau” – murmura dona Petruska, do 303.
Circunspeto, o viúvo, de braço dado com a nora, espalma as mãos e pede calma a todos. Depois, com a voz trêmula, diz: “Com certeza, minha mulher foi uma Santa! Que Deus a tenha!” E jogou rosas brancas sobre o caixão, antes que fechassem o túmulo.
Nem um mês se passou. De repente, reencontro Dr. Glaxo, no elevador e, espantada, percebo sua expressão de extrema alegria.
Dias após... O quêsse!!! Ora, ora, ora! Meu vizinho sobe para seu apartamento, abraçado com uma jovem mulata de seus vinte e poucos anos. Sorri, quase baba e, sem nenhum constrangimento me pergunta: “Acha que tenho bom gosto?”
-
Gigi mora no Leblon há mais de quarenta anos. Vive só, aliás, tem um cachorro chamado Lincoln. Outro dia, o porteiro me ligou para avisar que ela subia. A goiana não é disso: quando vem me visitar, telefona antes. Ela mesma repete que seu avô lhe dizia: “Sem aviso, minha neta, só doença, que vem repentinamente.” Estranho!
Tocou a campainha. Também não é seu jeito de tocar... Normalmente, aperta a campainha com suavidade, mas hoje o toque foi de pessoa nervosa. Na verdade, Gigi deve estar com qualquer problema, pensei, ao abrir-lhe a porta.
- Marta, pelo amor de Deus, você nem sabe o que me aconteceu ontem! – chorava convulsivamente.
- Calma! Quer um copo d’água? Um calmante? Um chá de artemísia?
- Água... água...água... Por favor!
De uma só golada, bebeu tudo. E ah! Gigi estava mesmo transtornada, pois em
geral, engole os líquidos como se mastigasse, lentamente. É vegetariana e aprendeu a saborear os líquidos.
- Bem, agora me conte o que a tornou apavorada desse jeito.
- Invadiram meu apartamento, amiga. Roubaram todos os aparelhos sonoros e, como guardava no meio das calcinhas um pacote de plástico com minhas economias, os ladrões, sei lá com que intuição, foram direto nessa gaveta. Ô, vida ingrata! Vive-se hoje entre o Iraque e a Rocinha. São ladrões do morro... E eu guardava setenta mil reais, que era para minha viagem às Ilhas Gregas.
- Por que não aplicou num dos bancos?
- Eu sou lá de acreditar em bancos? Ah! Que saudade me dá do colchão de vovó Nhanhá. Era de crina de cavalo, mas nos oferecia garantia e confiabilidade. Dinheiro escondido ali o governo não raspava com o tal do CPMF e outros tributos. Nem roubava e nem confiscava. Ladrão? Ora, sou de Rio Verde, interior de Goiás. Naquele tempo só aparecia, vez por outra, o tal do ladrão de galinha. Juro! Estou com saudades do tempo antigo, porque a era global confundiu tudo. Acabaram-se os colchões-cofres e surgiram os cofres de aço embutidos nas paredes, que só os pedreiros sabiam onde tinham colocado. À frente, para disfarçar, punha-se um quadro de Portinari ou Di Cavalcanti. Lá, vovó guardava as jóias e vovô Gerardo empilhava as notas de cruzeiros e outro tanto de dólares, após cada venda de gado. Nunca foi roubado. Lembro-me que, assim que resolvemos mudar para o Rio, vovô vendeu o cofre a um de seus compadres e, ironicamente, esqueceu nele aproximadamente quarenta mil contos. Era outro tempo, minha amiga. Vou te contar: seu Vicente chegou lá em casa com o coração na boca, apressado, nervoso, e devolveu o dinheiro todo a vovô. Dá para acreditar?
- Na verdade, soa como inverdade, nos dias atuais.
- Só para que você avalie, aquela quantia dava para comprar um apartamento na Vieira Souto. Atabalhoado, meu avô esqueceu de pegar o dinheiro no cofre.
- Puxa vida! Como seu avô era distraído!
- Como era! Vivia esquecendo tudo e principalmente os óculos, que uma vez colocou na geladeira. Quem acabou encontrando foi Lilá, nossa empregada, na hora de pegar a carne.
- Voltando aos bancos, Deus que me perdoe, mas como nos roubam. Oh! Desgraça! Sei de uma comadre que perdeu o marido subitamente, que deixara milhões depositados num banco. Da noite pro dia, minha amiga, sumiu tudo. Ela entrou na justiça, porque a poucos dias antes de morrer, ele havia tirado um extrato. Apesar da lentidão da justiça, graças a Deus, o dinheiro reapareceu. Não acredito nos bancos, apesar de viver no 3o milênio. Sinto vontade de ter um cofre de colchão de crina de cavalo.
Gigi, mais calma, explicou-me sobre o arrombamento, quando os ladrões safados
a trancafiaram no banheiro de empregada, um cubículo. Que sufoco! Que vontade de ter vivido no passado! Finalmente, abriu um sorriso e disse: “É, mas não sou tão besta assim, pois escondi quarenta mil reais no forno da cozinha. Semana que vem vou embora pra Portugal. Vou morar em Lisboa. Cansei-me do Brasil. Quer ir comigo?!...”
- Ora, de que!!! Sou uma simples aposentada.

