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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sábado, Julho 08, 2006

Meu vizinho, Dr. Glaxo

Dr. Glaxo, médico dermatologista aposentado, casado com Nancy, é meu vizinho do 904. Moro no 804. Desde que cheguei de Cuiabá, via o casal descer e subir no elevador. Disse-me, uma vez, já ter comemorado as Bodas de Diamante e que, ao casar com ela, inflou o peito para destacar: “Ela tinha apenas 14 anos, era uma boneca e, sobretudo, virgem.” Riu, observando que hoje são poucas as moças que se casam com o selo de segurança. Calo-me, quem sou eu para debater virgindade com o médico de noventa e poucos anos?
Simpática a dupla, um até se parece com o outro. Ora, envelheceram juntos e dizem que se amaram e amam-se muito. Compartilharam da vida por mais de 75 anos. É mole, caro leitor? Um sempre está ao lado do outro, sem rancores e sem maiores alegrias. São dois velhos, simplesmente.
Têm apenas um casal de filhos: Tina casou-se com um David Johnson e vive no Texas, com quatro filhos norte-americanos; Daniel é médico, casado com Jéssica, goiana, pai de três filhos, e igual especialidade do pai, de quem herdou o consultório na Avenida N. Sra. De Copacabana. Conta-me a vizinha do 802, uma paraibana muito simpática, de nome Terezinha.
Dr. Glaxo é carioca, mas prefere ler os jornais de São Paulo, pois na sua opinião “são mais sérios que os jornais do Rio”. O casal senta-se na rua Dias da Rocha, ao lado de outros velhinhos, para ler e passa lá a manhã inteira. Nancy, sem sempre atenta às notícias, fixa-se em cenas engraçadas que a megalópole oferece a todo instante. Se a cena for muito excêntrica, cutuca o marido, que olha e ri. Certo dia, segundo me contou, viu uma mulher magrinha como palito, de cabelos vermelhos e com um cachorro de pelo azul (claro, mandou pintar o pelo do totó) e, particularmente, deleitava-se com os olhares dirigidos ao cão.
Bem, na semana passada, Nancy, quase na hora de sair para ver a peça “Orlando Silva – O Cantor das Multidões”, no Teatro Baden Powell, avisou ao marido que daria o último retoque na maquilagem. Após cinco minutos Dr. Glaxo foi verificar a causa da demora e quase teve um enfarte ao dar com a mulher estendida no chão. Que horror! Gritava, chorava e não queria crer que a mulher acabara de morrer.
O filho foi acionado pela vizinhança e, súbito, tratou dos mínimos detalhes da morte de sua mãe. A ambulância chegou e levou o corpo para o Instituto Médico Legal. O pai, desesperado, tomou um Lexotan, depois se deitou no sofá da sala e dormiu.
Dia seguinte, os moradores em peso foram ao enterro no Cemitério São João Batista. Os bate-papos, como é comum em tais ocasiões, giravam sobre a vida do casal.
Antenor, do 401, revelou que admirava o desinteresse que ambos demonstravam pela vida alheia. Casal sábio! – ressaltou. Acho que eram católicos e iam sempre à igreja São Paulo Apóstolo. Zico, do 202, discordou, a firmando que certa vez foi ao templo budista e os viu por lá. Talvez fossem católicos e budistas, emendou Marly, do 603.
- O importante mesmo era a serenidade de ambos, sem demonstrar grandes alegrias ou pequenas tristezas. – afirmei.
- Curioso, eu que sou da Assembléia de Deus – disse Abel -, do 501, e quis lhes falar sobre o mistério da morte, mas Dr. Glaxo impediu que eu continuasse, afirmando ser assunto proibido entre eles.
- Sabe de uma coisa, opinou Tonica, do 103, acho até que a vida deles era muito vazia e, se bem me expresso, comparo-os a dois peixinhos que viviam num aquário. Nem o casal percebia...
Afinal chega o momento do último adeus. O caixão é fechado e o séqüito segue
silencioso até a sepultura da família, um mausoléu de mármore de Carrara, com um anjo de feição gentil com mãos grandes como que abençoando a morte.
Um pé-de-vento, nervoso, súbito, começa a soprar e as folhas secas, poeira e papéis entravam pelos olhos dos presentes que, assombrados, murmuram baixinho entre si:
“O que é isto? Será que dona Nancy é santa? Figa! Que ventania mais esquisita! Valha-me, São Nicolau” – murmura dona Petruska, do 303.
Circunspeto, o viúvo, de braço dado com a nora, espalma as mãos e pede calma a todos. Depois, com a voz trêmula, diz: “Com certeza, minha mulher foi uma Santa! Que Deus a tenha!” E jogou rosas brancas sobre o caixão, antes que fechassem o túmulo.
Nem um mês se passou. De repente, reencontro Dr. Glaxo, no elevador e, espantada, percebo sua expressão de extrema alegria.
Dias após... O quêsse!!! Ora, ora, ora! Meu vizinho sobe para seu apartamento, abraçado com uma jovem mulata de seus vinte e poucos anos. Sorri, quase baba e, sem nenhum constrangimento me pergunta: “Acha que tenho bom gosto?”


-
Gigi mora no Leblon há mais de quarenta anos. Vive só, aliás, tem um cachorro chamado Lincoln. Outro dia, o porteiro me ligou para avisar que ela subia. A goiana não é disso: quando vem me visitar, telefona antes. Ela mesma repete que seu avô lhe dizia: “Sem aviso, minha neta, só doença, que vem repentinamente.” Estranho!
Tocou a campainha. Também não é seu jeito de tocar... Normalmente, aperta a campainha com suavidade, mas hoje o toque foi de pessoa nervosa. Na verdade, Gigi deve estar com qualquer problema, pensei, ao abrir-lhe a porta.
- Marta, pelo amor de Deus, você nem sabe o que me aconteceu ontem! – chorava convulsivamente.
- Calma! Quer um copo d’água? Um calmante? Um chá de artemísia?
- Água... água...água... Por favor!
De uma só golada, bebeu tudo. E ah! Gigi estava mesmo transtornada, pois em
geral, engole os líquidos como se mastigasse, lentamente. É vegetariana e aprendeu a saborear os líquidos.
- Bem, agora me conte o que a tornou apavorada desse jeito.
- Invadiram meu apartamento, amiga. Roubaram todos os aparelhos sonoros e, como guardava no meio das calcinhas um pacote de plástico com minhas economias, os ladrões, sei lá com que intuição, foram direto nessa gaveta. Ô, vida ingrata! Vive-se hoje entre o Iraque e a Rocinha. São ladrões do morro... E eu guardava setenta mil reais, que era para minha viagem às Ilhas Gregas.
- Por que não aplicou num dos bancos?
- Eu sou lá de acreditar em bancos? Ah! Que saudade me dá do colchão de vovó Nhanhá. Era de crina de cavalo, mas nos oferecia garantia e confiabilidade. Dinheiro escondido ali o governo não raspava com o tal do CPMF e outros tributos. Nem roubava e nem confiscava. Ladrão? Ora, sou de Rio Verde, interior de Goiás. Naquele tempo só aparecia, vez por outra, o tal do ladrão de galinha. Juro! Estou com saudades do tempo antigo, porque a era global confundiu tudo. Acabaram-se os colchões-cofres e surgiram os cofres de aço embutidos nas paredes, que só os pedreiros sabiam onde tinham colocado. À frente, para disfarçar, punha-se um quadro de Portinari ou Di Cavalcanti. Lá, vovó guardava as jóias e vovô Gerardo empilhava as notas de cruzeiros e outro tanto de dólares, após cada venda de gado. Nunca foi roubado. Lembro-me que, assim que resolvemos mudar para o Rio, vovô vendeu o cofre a um de seus compadres e, ironicamente, esqueceu nele aproximadamente quarenta mil contos. Era outro tempo, minha amiga. Vou te contar: seu Vicente chegou lá em casa com o coração na boca, apressado, nervoso, e devolveu o dinheiro todo a vovô. Dá para acreditar?
- Na verdade, soa como inverdade, nos dias atuais.
- Só para que você avalie, aquela quantia dava para comprar um apartamento na Vieira Souto. Atabalhoado, meu avô esqueceu de pegar o dinheiro no cofre.
- Puxa vida! Como seu avô era distraído!
- Como era! Vivia esquecendo tudo e principalmente os óculos, que uma vez colocou na geladeira. Quem acabou encontrando foi Lilá, nossa empregada, na hora de pegar a carne.
- Voltando aos bancos, Deus que me perdoe, mas como nos roubam. Oh! Desgraça! Sei de uma comadre que perdeu o marido subitamente, que deixara milhões depositados num banco. Da noite pro dia, minha amiga, sumiu tudo. Ela entrou na justiça, porque a poucos dias antes de morrer, ele havia tirado um extrato. Apesar da lentidão da justiça, graças a Deus, o dinheiro reapareceu. Não acredito nos bancos, apesar de viver no 3o milênio. Sinto vontade de ter um cofre de colchão de crina de cavalo.
Gigi, mais calma, explicou-me sobre o arrombamento, quando os ladrões safados
a trancafiaram no banheiro de empregada, um cubículo. Que sufoco! Que vontade de ter vivido no passado! Finalmente, abriu um sorriso e disse: “É, mas não sou tão besta assim, pois escondi quarenta mil reais no forno da cozinha. Semana que vem vou embora pra Portugal. Vou morar em Lisboa. Cansei-me do Brasil. Quer ir comigo?!...”
- Ora, de que!!! Sou uma simples aposentada.

O passado de sangue

Ele entrou na livraria, num sábado. Era um homem moreno alto, bem apessoado, óculos escuros, voz de barítono e bom de papo. Comprou o livro “Falta Alguém em Nuremberg”, de David Nasser. Encetou, depois, longa conversa com mamãe e, ao falar da Bahia, sua cidade natal, tirou os óculos e as lágrimas caíam como se chovesse fino. Nem percebeu que eu, nos meus nove anos, observava a conversa, sentada numa banqueta. Pediu então a mamãe se podia fazer-lhe uma confidência que o estava matando. Sequer ouviu a resposta e continuou: “Dona Iza, a senhora tem sido tão boa e amiga, mas sabe por acaso o porquê de eu ter largado minha terra e vir para Mato Grosso? Na verdade, saí de lá por ter matei um colega. Foi um fato que aconteceu na faculdade de engenharia, onde estudava o 4o ano. Discutíamos por causa de uma mulher, que ambos disputávamos na zona de meretrício. Que mulher linda! Morena clara, curvilínea, lábios carnudos, cintura fina de pilão, voz macia e carinhosíssima. Ela sempre ficava com um ou com outro. Éramos colega de turma e amigos. Naquele dia fatídico, confesso-lhe ter bebido algumas doses de cachaça pura e, armado de um 44, num ímpeto vindo não sei de onde, naquela discussão de “ela é minha” de ambas as partes, atirei nele, que morreu lá mesmo.
- Por favor, não precisa me contar mais nada. Guarde seu segredo com o senhor.
- Não, preciso desabafar, porque passo horas insone, andando de um lado para outro, pensando naquele grande amigo que matei por burrice minha. Em seguida, meus pais me deram dinheiro e mandaram que eu cortasse trechos ou sumisse dali. Nossa família tinha tradição e aquilo emporcalhou a vida de meus pais e irmãos. Que fazer, se o colega já estava morto? Não encontrei outra saída e rumei para o garimpo de Gatinho. Garimpei com outros conterrâneos que viviam lá. Cheguei a pegar algumas pedras preciosas, mas não era o que eu queria. Meu sonho era ser engenheiro e construir grandes obras. Não queria ser preso. Apavorava-me a idéia de ficar entre as grades. Enfim, nunca eles pensariam que houvera me infiltrado nas matas de Mato Grosso. Ninguém me encontrou, portanto, fui ficando por aqui. Depois vim para Cuiabá e decidi casar-me. Escolhi a dedo, dona Iza, e a mulher que tomou conta de meu coração era a criatura mais doce do mundo, religiosa, bondosa, caridosa. Casamos e tivemos oito filhos, todos perfeitos e de bom caráter.
- Olha, é melhor o senhor não me contar mais nada...
- Ora, o que tinha de dizer já disse, e sinto-me mais aliviado. Sei, no entanto, que aquele tiro me acompanhará até a hora da morte.
Fiquei estatelada a olhar para aquele homem que ninguém imaginaria ter
matado ninguém. Devagar, saí de fininho e fui lá para a sala. Que tinha eu de ficar ouvindo conversa de gente grande? Ora, ouvi e estava ouvido. Da minha boca não sairia aquela confissão feita nos anos 50.
Mais tarde me tornei grande amiga de um de seus filhos e, às vezes, olhava bem para ele e aquela história me vinha à cabeça. O que, contar-lhe o que ouvi? Nunca!
Leio agora nova história escrita pelo colega Adilson, do setor de Polícia, do senhor Francisco Vacanni que, no registro de nascimento, recebeu o nome de Paulo Roberto Gomes dos Santos. Deixou o Rio, por ter matado um delegado de polícia e, amedrontado refugiou-se em Lucas do Rio Verde. A descoberta do assassino, no entanto, foi feita pela DHPP de Cuiabá.
Em Cuiabá, Paulo Roberto matou sua amante, Rosimeire, decapitando-a e atirando seu corpo nas águas do rio São Lourenço. Também se suspeita de que tenha assassinado Suzana, uma garota de programa, e ainda uma criança em Lucas do Rio Verde. Nossa, este é bandido mesmo, hein? Que horror!
O verdadeiro nome do empresário, dono de uma auto-peças e Lucas do Rio Verde, foi descoberto por policiais que, desconfiados, apreenderem sua pasta de documentos escondidos numa escrivaninha nos fundos de sua empresa. Destaca Adilson: "Em cima no nome Paulo, ele riscava e colocava Francisco. Outros documentos também foram apreendidos.”
O antigo caso, ouvido nos meus nove anos, assalta-me hoje já na Melhor Idade e, recolhendo cacos, sabe-se que Mato Grosso tornou-se uma terra perigosa porque inúmeros meliantes a escolheram para se esconder, morar e vencer. Que coisa!
Meu amigo e colega, o Vila, contou-me certa vez que gostava de passar horas na Praça Alencastro e , de seu banco, observava dedos que, sem querer, movimentavam-se como se estivessem com o dedo no gatilho. Uns eram destros e outros canhotos. Todos bandidos perigos que vivem de olhos no chão, não encaram ninguém.

Sinfonia para nossa mãe

O aniversário de oitenta e quatro anos de mamãe foi diferente e nunca vou esquecê-lo. Cercada por seis filhos, com exceção de Dely, que mora em Curitiba e desculpou-se de não poder vir, se bem que a razão era outra: não aceitava o segundo casamento de seu irmão, pois era amiga e comadre da primeira. Mandou pelo Sedex um pacote lindo: um vestido salmão que, ao abrir, mamãe implicou com ele, dizendo: “Ora, ela sabe que não gosto deste decote!”
Lúcida, mas um tanto desanimada aquele 18 de julho de 1991 a encontrou com os olhos perdidos, ar de cansaço, mas sem se queixar de nada, apenas repetia:
- Por que a Dely não veio? Por que?
- Sabe, mamãe, o marido dela não gosta que esteja viajando sem a companhia dele, e como tem compromisso de operar um cliente não poderia vir. Daí que ela optou por uma próxima viagem, não só com Eduardo, mas com a filha, o genro e os netos.
- Hum... Talvez seja tarde!
- Que bobagem, mãe, a senhora tem tutano para noventa. Larga de besteira!
Sentada em sua cadeira de balanço, com as mãos repousadas sobre o colo, o
olhar ia se distanciando de tudo, sem se fixar tampouco nos presentes: irmãos do primeiro e do segundo casamento de seu pai; amigas dos tempos da Usina das Flechas; um ex-aluno a quem ensinou o be-a-bá e que veio de Porto Brandão especialmente para cumprimentá-la; cunhados; sobrinhos e sobrinhas. Nada, quase sem interesse pela comemoração, ouvia as conversas e às vezes sorria. Um sorriso triste, talvez por delicadeza por aqueles que a festejavam e davam vivas aos seus 84 anos.
Bem arrumada, os cabelos alvos, mas com leve toque lilás, o rosto bem maquilado, mas o que me encasquetou o tempo todo foi seu olhar perdido no horizonte como se procurasse algo maior. Espiritualista, aluna do mestre Huberto Rohden, dias antes, me falara sobre a sinfonia do silêncio.
- Sabe, Marta, que um grande silêncio envolve as alturas? O Himalaia, por exemplo, é um lugar de solidão imensa, assim como as profundezas dos oceanos têm quietude íntegra. Visualizo, minha filha, que perto esteja minha partida, quando estarei a sós com o Pai. Morrer é como trocar de roupa e deixarei aqui meu corpo velho e cansado para receber novas vestimentas. Peço-lhe, filha querida, que não se escandalize ao me ver partir, porque todos temos que morrer. Nem filho, nem pai, nem irmão, nem amigo nos podem acompanhar nessa última viagem. Por favor, prepare-se, porque vocês, meus filhos, terão que ficar de longe, apenas a olhar, como no Gólgota também olharam os discípulos de Jesus. Naturalmente, não posso me comparar ao Mestre, mas hei de subir sozinha ao altar dos holocaustos, à solidão absoluta, onde nenhum eco ou gemidos dos terráqueos hão de me alcançar!
- Mãe, por que esta conversa triste? Seu aniversário se aproxima e já mandamos fazer o bolo para a senhora apagar as 84 velinhas.
- Vou falar, sim, porque você tem que estar preparada para a minha saída deste planeta. Estou tranqüila, porque a morte não faz aquilo que a vida não fez, mas nos colhe como somos. A morte, filha, não retoca a alma de ninguém, mas revela o que a vida fotografou. Tudo será revelado, às claras e eternamente serei o que em vida fui. A morte sempre diz o que foi a nossa vida. Fiz o que pude para ser sementeira do bem e, acredito, vou colher do que plantei... As algemas da vida na terra me serão arrancadas e poderei afinal ver a face de Deus. A vida eterna, o amor imortal!
Aquele diálogo foi o último que mantivemos, pois vinte e quatro dias após seu
aniversário, no dia 10 de agosto de 1991 mamãe ingressou num novo patamar, libertando-se das amarras que dizia prendê-la na terra. Foi vestida com o vestido salmão que Dely lhe mandou e estava linda, com uma expressão de serenidade.
Hoje, Dia das Mães, penso na grande mãe que tivemos e que, com sabedoria, nos aconselhava: “Deixa a cada flor o seu colorido! Deixa a cada essência o seu perfume! Deixa a cada homem o seu gênio! Deixa a cada alma seu caminho às alturas! Muitos são os caminhos que levam ao Pai!”
Minha mãe foi também nosso pai, pois tomou as rédeas da educação dos sete filhos e, com vontade férrea, não descansou enquanto não fez de cada um uma pessoa humana.
Noite passada sonhei com mamãe e pasmei ao notar as luzes que esparziam de seu rosto. Quanta fé acendia a alma daquela cuiabana filha de Cacylda Olympia de Almeida Serra Lima e João Bento Rodrigues de Lima! Foi uma cuiabana maravilhosa.Saudades!

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