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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sábado, Julho 22, 2006

Amor no casebre


A nhaca do Marrom espanta até gambá. Nem somando com isso, o rapaz que não vale um cinquinho furado, foi as grimpas quando Xanda correspondeu a sua piscada. Pois é, a morena tampouco cheirou o suvaco de Marrom, mas aos beijos e abraços entraram no casebre que foi da falecida Vidinha. De olho empapuçado de dormir o dia todo, ele subiu no gueto, enquanto ela carreava alguma preocupação. Como será a coisa?!...
- Se é catinguento, quem sabe o chaento tenha outras qualidades.– pensou.Chaquaiano as cadeiras, na frente, Marrom tava ficano verde de esperança. E caiu uma chuvarada oportuna. Que belo dia, hein, Xanda? Vou te fazer feliz! Chuva na telha!...Fazendo micagem o rapaz foi-se desnudando e, ao olhar para o mastro , Xanda quase desmaia. - Vôte! No lusquefusque julgou estar marombada. Figa! Como um pão de guaraná?... Que matungo!
No colchão abandonado, o casal não fez caso de nada e sobre o monturo trocaram palavras de amor. Ocê vai me deixar moída... Três chega! (Nisso, um morcego voou sobre a cabeça deles).
- Inté que sua fuça é bonita, Marrom! Tô festano dois anos sozinha. Ocê me acha muchibenta?- Malemá tenteando, mas ainda dá bom caldo. Foi mulher-dama?
- Seu ganjento! Me deu uma gafeira... Poxa, a sua nhaca tá demais! Ocê me emburrou... Pode ficar com seu pão de guaraná – empombou. Entocha! Eu, Xanda da Silva, entalei com você. É dado, não tem valor! Fiquei touceira! Tô que nem capa de gaita...Espia só! Esgualepada, disparou dali.

Mais um dia na mata


Chulé é um vira-lata nambi, aúfa de bravo que faz Baiacu ficar até as orêias de alterado, porque ele morde se o dono mandar. Mal abre os olhos, que ninguém palestre co’ele, para não levar um sentão. Sozinho, fala de assombrações que insistem em acompanhá-lo. Súbito, dana de latir para o horizonte, junto com o cachorro. Naqueia o fuminho e cospe marrom.
Duwige, a mulher, cheia de quizila, põe a roupa p’ra quarar na quentura da manhã de setembro. Remancha co’as galinhas, ressabiada.Quá! Esse não tem jeito, que qué esse? A gente não pode trocar palavra co’ele. É mesmo seboso!
- Na hora de servir pr’ele, ai, ai, ai, o supitado sabe comer! – reclama pr’o vento, porque no sítio só vive o casal e o cão, numa sem graceira sortida.
- Se avie, mulher! Vá já relá um guaraná p’ra seu véio!
Ela bugia p’ro rio e faz Baiacu baixar a crista, porque naquela manhã já não suporta mais introchá guela abaixo o cachaço do marido.
Baiacu rezinga, ressabiado e rela seu guaraná.
Depois, com Chulé, sai atrás de Duwige na quiçaça. Demora, mas lá no remanso do rio encontra a mulher que nada como um peixe. Renteando diz: que beleza! Quá! Não quer descansar, patroa?
- Sossega o pito, Baiacu, que hoje estou surtida de felicidade e quero ouvir a voz do vento!
Sentido, o marido saluçou e,sem ação, engabelada, voltou de mãos dadas p’ro casebre com seu amor, que saliente lambe seu cangote.

Lagartixa Terezinha de Copacabana.


Xamê...Xamô... Revi Terezinha, minha amiga, lagartixa cuiabana, nascida no Baú, vizinha do Carlinhos, que batia papo comigo nos dias de solidão. Passeia em Copacabana, ou como me disse: "Vim te revigorar! - e soltou uma gaitada. O riso dela é diferente de nós, mortais. Espia só: “Xame...Xamô...Xame...Xamô...” E o rabinho tremilica como se tivesse recebendo dom Peridon, seu criador. Olha-me com ternura e me acalenta: “Você é um ET em forma de mulher, fique ciente e não faça nada igual aos normais, sim?” Cheia de horror fitei seu olhos saltados, castanhos e cheio de luz.- Até parece que você não se lembra de mim, da época de Nabucodonozor. Concordei e ela repetiu o “xame...xamô...”- Ioseilá, Tetê, ando com a moringa meio rachada. Tô sem palpite pro bicho de hoje e sequer para a loteca e a mega-sena. Um ventinho me cochichou que vai dar avestruz com a milhar 0101.- Ora, se eu a levasse para a Bulgária você se uniria aos velhos amigos búlgaros, que em um dia qualquer esquecem dessa sua risada e de algumas palavras como drembaruk amorok zambar. Badenorok 0101!!!Terezinha é simpática, só não gosto quando me deixa só e vai engolir seus mosquitinhos. Degusta um a um com doçura e diz que é pela glória de Peridon, o espanhol da Cova Azul Celeste. O coveiro Tereré foi preso porque andou perseguindo as lagartixas da tribo Lilorne Amèe Zimba. Acusado de lagartalismo, ou, comedor de lagartixas, foi condenado à forca. Tinha três metros de língua amarela.- Gosto não se discute, né, Marta fiô ou fiado (lembra do seu tio Hélio?) Ele te chamava assim: “Olá, Marta fio ou fiado!”- Que memória, Tetê de Peridon!!! Também nunca vou esquecer. Era o melhor dos meus tios da linha paterna. Que tio especial! Já a esposa sempre gostava de mim pelas costas e sem roupa...- Vamos à ficção. Você – ET – não pode dar pala para essas miudezas. Aquela lá só entende de doce de abóbora com coco, caju seco, furundu. Esquece. Na verdade o interesse desse povo é a propriedade e você é noventa por cento intuição. O caso do tarado da Caixa d’Água foi desvendado por suas antenas de abacateiro. Orgulhe-se de sua cabeça formada de madeira nobre. Peroba pura e nem é cara de pau. Aroeira que enverga mas não cai diante do pior temporal. Hoje inventaram o tal do tsumani. Larga de besteira. É Peridon desconstruindo a maldade da Terra. Eita planetinha podre! - Tetê, você ainda coleciona as cabeças da corrupção? - Ora, de que será! Toda coisa tem quatro lados e eu me coloquei de lado, nem tanto ao céu, nem tanto a terra, nem aos mares, nem às energias cósmicas. Os vermes falam alto para essa corja pelancuda e seus caixões são tão leves que basta apenas um para carregar. Reparou como é a cara do vice-presidente? Xamê...Xamô... Ele vai se apresentar a Peridon, brevemente.- Tem devolvido as unhas dos mortos à família chorosa?- Ô quá! Xame...xamô... O mais grave é que o humano pensa só em si e tá lá ligando para as unhas do falecido? Pensa só: o morto encolhe e as unhas crescem. Terá a unha mais consciência que o cérebro? - Ioseilá!- Pois saiba. A cabeça nem sempre é o órgão principal do homem. Tome. Esta é a unha do André, seu sobrinho e protetor. Saiba, ele ajudou a te salvar. Você ganhou a ressurreição. Xame...xamô...xame...xamô... Mas não invente de engolir o fígado do presidente dos States, que daí você vai vagar pelo espaço por 500 anos. Ele é veneno puro.- Zembitoreski... Até outra dia, Tetê.

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