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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Quarta-feira, Julho 26, 2006

São coisas miúdas...


Meu anjo de guarda merece uma vela votiva e eu tratei de homenageá-lo com todo respeito, gratidão e amor. Mas essas coisas miúdas atormentam a nossa vida em horas que sequer pensávamos em nos agastar. É que acendo a vela, dou uma volta na casa, e ao voltar a vela apagou. Que coisa! A vida, nem posso dizer, mas os dias nem sempre são tão agradáveis como desejaríamos. Ora, internauta amigo, ficar acendendo uma vela a todo momento? Gastei todos os palitos de fósforo e agora me parece que o pavio ficou aceso. Não é minha, mas do meu anjo de guarda.

Vocês me acham fútil por tal coisa miúda? Para me refugiar dessas pequeninas coisas só se me abrigar no convento, mas com certeza haverá de surgir os incômodos do dia-a-dia.

São desgraças do tamanho de uma semente de maçã e chateiam como se fosse um abacaxi. São físicas, como ao bater num prego acertei meu dedo. Ai que dor detestável! Pronto! Larguei o prego e não quis mais mexer com o quadro que ia colocar na parede.

Tem coisa mais desagradável do que você acabar de entrar no chuveiro e o telefone começar insistentemente a tocar? É, nem tudo é como agente quer, porém a coisinha poderia ser mais alegre. Ah! O mundo tem um lado alegre e outro triste. A balança pesa de lá pra cá. A felicidade pesa? A tristeza pesa mais ou menos? Sei lá! Tem hora que tudo é destruído por um pequeno incidente.

No hospital, até foi engraçado, meu irmão Hélio e a esposa e comadre Angélica vieram de Vitória ao Rio para o enterro do tio dela e também para me visitar. Tudo bem. Chegaram normalmente e nos contaram que foi um enterro de evangélico onde não houve muito choro e sim orações e cantos. Súbito chegou a bandeja de alimentos e, Dely fez um gesto com as mãos e tudo veio ao chão: leite, biscoitos, manteiga, geléia e coisitas mais. Hélio viu um curativo já desgastado pelos dias no meu braço e me disse: tira isso! Pa...pa...pa... Tirei, e o sangue começou a esguinchar como uma torneirinha. Botei o curativo com a mão, mas o chão do quarto virou um festival de sujeiras misturada com o vermelho do sangue. O enfermeiro veio refazer a entrada para as injeções. Doeu, mas eu fingi que nem era comigo. Todo mundo se descontrolou e passamos a rir como se acabássemos de ver uma comédia. Veio o auxiliar da limpeza e num minuto o quarto ficou mais limpo e cheiroso que antes. Era o dia 14 de julho – Queda da Bastilha - e a lua cheia brilhava na imensidão do céu. Necessitava acontecer tantas coisitas em questão de hora? Ri? Mas são essas coisas que nos enchem a alma e seguidamente nos ocupam de relembrar e rir.

Pior foi o dia que inventei de arrumar meus livros. Nossa, parece que serpentes do pantanal tentaram me picar, porque quis arrumá-los por autores. Gabriel Garcia Márquez junto do Estatuto da Criança e do Adolescente e depois Ricardo Guilherme Dick. Não combina, não acha?. Parece que havia um rato que escondeu a chave do lugar adequado a cada um. Ou soprou um vento que veio das Tordesilhas e a ventania mexeu com todos os livros que derrubei ao chão.

Lembrei-me de certo autor, perdão me deu um branco e esqueci o nome, mas ele se referia a um sinólogo, frio e sinistro, que mora em sua biblioteca, como se vivesse no Paraíso. É de dar inveja a quaisquer colecionadores de livros. Tudo vive na mais perfeita ordem. Tudo é limpo com álcool. E não há cupins, como aqueles que comeram o trabalho de alguns anos do Dick. A sujeira não atrapalha a brancura dos antigos pergaminhos.

Minha biblioteca chega a amargar meu fígado e, conseqüentemente, a minha boca. Acumula-se poeira, mofo, bichos sem nenhuma genealogia, que nem deu-se o luxo de ser estudado pelos cientistas.

Procurei a manhã toda um livro escrito pelo primo Heliophar Serra, residente na cidade de Aquidauana, por querer ler um conto em que ele comenta a felicidade de um japonês que preferia consertar seus carros a pleno sol de 40º a ser importunado pelos curiosos que queriam saber o porquê das peças usadas. Por causa do calor, ele sempre ficava a sós com seu macacão sujo de graxa. Sozinho, quieto e contente.

Junte-se a isso a preguiça que me deu essa procura e, de repente, decidi tomar um banho morno e longo, cheirar a Phebo e depois untar meu corpo com cremes cheirosos. Vesti um pijama de flores e ouvi algumas músicas de Elis, Clara Nunes, Jair Rodrigues, Chico Buarque de Holanda, Dolores Duran, Edu Lobo, Caetano, Milton Nascimento. Não é que o aparelho de som enguiçou? Me esqueçam, viu?. Desliguei tudo, inclusive a minha cabeça.

São coisinhas miúdas, eu sei. Detalhes. Igual aos pares de sapato que coleciono e sumiu um par, justamente o que mais me encantava. Quem foi? Também ele já estava lascando o bico, perdendo o brilho de sapatinho de princesa, lascando um pedacinho. Meu sapatinho, acho, a faxineira achou que estava muito feio e pa...pa...pa... jogou ligeiro no lixo. Isso não era para ser motivo de melancolia, mas eu gostaria de ver o meu sapatinho de cristal.

Bobagem? Na verdade são bobices as perdas mínimas que se repetem a todo dia, para nos dar um castigo. É a colega que me tomou R$30,00 reais e nunca mais falou em pagar. Alguém que insiste em te fazer visita e na hora agá nem tem o que conversar e ficam duas múmias em frente da outra. A velhinha da esquina, não é pobre e sim mão de vaca, e ao te ver passar pede para que lhe pague um almoço no boteco. Ora, vá plantar batata! Ou me procure na esquina da Bolívar. Vá caçar sapo!

Hoje fui a praia e uma cearense falante me contou, com a cara mais limpa do mundo, que seu marido de noventa quilos foi fazer amor depois do almoço e teve um infarto em cima dela. Foi uma luta para tirá-lo de lá. Ela gritava pela Rita, sua empregada, mas a moça teve medo de incomodar a intimidade dos patrões. Ela berrou com tamanha força que Rita abriu a porta e ajudou a tirar o marido de cima dela. Conforme me disse: “Foi um horror, minha senhora passar por tamanho vexame, cujo caso correu de boca em boca. Vim para o Rio para esquecer esse estresse. Quanto ao Rui, ele andava doente há algum tempo e nunca quis se tratar. Comia uma galinha assada numa sentada ou uma pizza em questão de hora. Tinha que acontecer isso. Já está lá em cima junto aos Santos, pois o pobrezinho quase não tinha defeito, só o de comer e trepar. Nossa! Que Deus o tenha em sua Santa Luz e Misericórdia!”

Eu, internauta amigo, fiquei muda, pois é tão desagradável saber os segredos dos outros, ainda mais em plena praia onde fui para ver o sol, o mar, as pequenas embarcações de pesca e, sobretudo, para tomar o solzinho da manhã.

Já as coisas miúdas, quem haverá de controlá-las? Nem eu, nem você!

Caminhada com chuva

Estava no calçadão de Ipanema e não era uma manhã comum. O céu acizentou-se e como sou asmática senti medo de cair um toró e pobre dos meus pulmões que tem oxigênio a menos como o Paciente Inglês. Estava de bermuda branca e blusa amarela, calçava um tênis quase novo e minhas pernas já não sabem correr, mas segundo o mano Helio Mario caminho rapidamente. Pelo menos! Alguém me deu uma chibatada? Que é isso? Ora, foi o vento furioso que passou sobre mim. A areia me fustigou violentamente e se não usasse óculos teria invadido meus olhos. Que ventania danada! O vento quis me jogar na areia e me segurei nas pernas. Andei com maior prudência e um gaiato me disse: "Cuidado, feche a boca para não comer areia!" Sequer o olhei. Detesto piadinhas maldosas e fúteis. Garotos em algazarra gritavam, enquanto outros como eu tentavam se abrigar em algum local menos perigoso debaixo de uma grande marquise.
Breve se deu isso e, repentinamente olhei para o céu imenso que era de um negror medonho, como se fosse filme de terror. Que raiva! Um raio e os relâmpagos, juntos, obrigaram-me a baixar a cabeça e olhar para o chão. Apertei o passo.
Voltei para Copacabana e ao passar no Forte a danada da chuva caia como se fossem agulhas. Doía meu corpo. Tive medo. Que água mais bandida que me pegou numa hora em que procurava a paz, o sol, o rosto feliz dos caminhanates das manhãs. Para onde correram eles?
Atravessei a avenida e tampouco os carros amontoavam-se, tanto que passei correndo mas sem nenhum perigo de ser atropelada. Ninguém acredita, mas a avenida Atlântica tornar-se um vasio, sem nenhuma viva alma? Não minto. As marquises, estas sim, achavam-se superlotadas e as conversas eram as mais variadas. Gaiato pelos cantos com suas frases negativas. Um deles gritou: "Pessoal, está acabando o mundo, quem tiver pecados que se prepare. Rezem!"
Consegui me enfiar entre as marquises e fui indo até chegar na Xavier da Silveira, onde moro. O porteiro deu um sorriso maroto e me chamou a atenção: "Ora, dona Marta, logo hoje a senhora foi caminhar? Não ouviu a previsão do tempo na televisão. Dava céu coberto de cinza e uma chuva danada! Cuidado, a senhora é asmática!" Como se eu não o soubesse, agradeci e subi ao oitavo andar.
Entrei e fui direto para o banheiro para tomar um banho morno, enxugar-me bem e vestir uma roupa agradável. Que susto!
Foram muitos segundos, minutos e talvez horas com aquela tormenta sobre mim e, de repente as narinas grandes sentiram um cheiro gostoso de mate queimado que minha mãe fazia para a família comer com bolo-de-queijo. Ó narina porque você é tão maquiavélica? Não me importei e na cozinha preparei uma xícara de chá de camomila com mel. Após, tomei um cálice de vinho do Porto. Este me valeu pelo sofrimento da revolta da mãe-natureza. Adoro vinhos de todos os países e, em especial, os do Chile.
Que nada! O cheiro do mate feito na hora, fortemente invadiu minha alma. Que aroma! A culpa é, sem dúvida, da chuva que continua lá fora. Ficou ainda mais forte e me pareceu ver o rosto de mamãe a sorrir para mim e dizer: "Cuide-se, porque sua amiga é você mesma! Tinha que caminhar logo hoje?" O rosto foi sumindo pouco a pouco.
Pois é, a gente tem sessenta e alguns e, na verdade o que se passou na infância está lá entranhado para surgir nesses momentos perigosos.
Vou me cuidar mais e prestar atenção na metereologia. Saudades de minha mãe foi o que ficou dentro de mim.Foi uma mulher linda, guerreira, amorosa, espiritual (aluna de Huberto Rohden), que um dia conversou com ET's na travessia Rio-Niterói. Legal. Se chegar à conversar com os ET's, juro, vou contar para meus amigos internautas. Talvez me contem quem será o próximo presidente do nosso Brasil. Lula não, pelo amor de Deus! Aí sim. vai dar um tsunami por aqui e quero estar bem longe.
Rabatacha! - é uma palavra que aprendi com Marley, filha de árabes, mas nem sei se é nome feio. Rabatacha!

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