O passado não morre
Cliente contumaz do setor de penhores da Caixa Econômica me chamou atenção uma senhora idosa, tanto quanto eu ou na Melhor Idade, vestida de roupas escuras, quase sempre de gola alta, até porque seu pescoço é longo, sapatos finos, mas baixos, bolsa combinando com os sapatos, cabelos grisalhos, mas pintados de lilás claro, presos num coque. Silenciosa, não dá conversa às demais que falam como gralhas e comentam abertamente seus problemas do dia-a-dia. Ao entrar, percebi que pisa o chão com passos incertos, como se ac abasse de tomar uns dois compôs de vinho. Seu corpo é magro, meio encurvado como se carregasse nas costas um fardo invisível, ou talvez um segredo. A vi ali umas seis vezes para pagar os juros (a vi retirar dinheiro da bolsa e pagar), portanto, não é mera introspecção feminina. Olho disfarçadamente para ela a figura que me lembra uma personagem de um filme, perdoe-me, mas me esqueci o nome.
É outono e as árvores estão com as folhas amarelas e as calçadas cheias delas.Aprecio esta estação e para festejá-la quis provar o tempero de um novo restaurante e, até me assustou reencontrá-la ali. Sua fisionomia ganhou mais força e seus olhos brilhavam como nunca.Os passos mais rápidos. Ora, não sou indiferente às mudanças e notei que ela estava se transformara para melhor. O vestido era cinza estampado de preto. Observei-a duas mesas da sua. Caminhou lentamente e com maior segurança. De onde me sentara podia ver seu perfil, sem ver nitidamente seu rosto, mas suas mãos estavam trêmulas. No aguardo do garçom, abriu a bolsa chiquérrima, de puro couro, de onde retirou algo que seus dedos nervosamente levantaram para perto dos olhos castanhos. De certo era míope, pois lia quase perto do rosto. Dei uma olhada mais acurada e vi que era uma carta.
O envelope ficou na mão esquerda, a carta na direita, e nesse instante olhou através do vidro o dia lá fora. Seus olhos faiscaram de meia alegria, porque era uma sofredora e, seu jeito atiçou minha imaginação.
Certamente as palavras que lia a modificava até no modo de olhar, pouco a pouco e, sinceramente, deduzi que era parte do segredo que carregava, seja lá o que fosse. Os olhos são reveladores e, nas mulheres idosas são eles que revelam as marcas das paixões antigas. Por traz do cabelo lilás claro, das rugas, da pele ressecada, seus olhos ressaltam novos brilhos, brilhos que traem a sua figura e em determinada hora chega a sorrir. Olha para mim como se notasse que estou estudando seu comportamento, porém nem chega a afetá-la. Prossegue na leitura da carta. Aí chega o garçom e faz o pedido.
Meses depois, novamente na Caixa Econômica a vi, mas desta feita retirou as jóias. Pegou o pequeno volume e ajeitou carinhosamente no fundo da bolsa. Olhou a derredor para avaliar se alguém (bandido) estivesse no recinto de Penhor. Dois seguranças presentes a fizeram sentir-se mais segura. Então com o andar de passos curtos e as costas encurvadas por um peso, que não adivinho qual era seguiu o seu caminho.
No mesmo dia e no mesmo restaurante reencontro a senhora que está de calça comprida preta e blusa de mangas curtas, cinza, de malha de algodão. Onde está o brilho que estampava em seus olhos na vez passada? Turvaram-lhe os olhos e, de repente dirigiu-se ao banheiro, de passos mais lentos, mas sem o tremor nas mãos.
Vou chamá-la de dona Valéria, porque conhecera em Cuiabá, Mato Grosso, uma senhora semelhante a ela, cujo nome era Valéria. Curiosamente, a cuiabana carrega consigo um terrível segredo já conhecido de alguns moradores da pequena cidade. Em cidade pequena dá para esconder nossas mazelas? É difícil. Todo mundo, pelo menos as de igual patamar, sabe e passa adiante, com o seguinte pedido: “Por favor, não conte a ninguém! Se disser que fui que lhe contei, nego de pés juntos e até juro por Deus, mesmo ciente de ser pecado. O padre depois me dá absolvição no confessionário, nem que tenha que rezar cinqüenta Padres Nossos e cinqüenta Aves Marias!”
Desta feita não lê nenhuma carta, mas se refresca vagamente o rosto com um leque espanhol, por sinal muito bonito, fundo preto e borboletas coloridas em vôo. Sentou-se ao meu lado e até me cumprimentou porque tantas vezes me encontrara na Caixa e recentemente no restaurante. Recolheu-se em seu mutismo para não dá margem a nenhuma conversa íntima. Notei e também fiquei na minha, mas deixar de observá-la, sei lá, não conseguia. Seus olhos misteriosos me intuíam saber seu segredo. Sob o facho de luz que recaía sobre sua mesa, pegou o cardápio e, vagarosamente, escolhia a comida. O garçom veio atendê-la. Baixinho, fez o pedido. Não deu para eu ouvir o que ia saborear naquele almoço. Ao erguer os braços deixou-me ver a cicatriz no braço esquerdo, talvez um corte de gilete, de tamanho regular. Desvendado estava seu segredo cruel. Devia ter-se cortado em nome do amor.
Sorriu-me, nem sei como. Será que ela quis me mostrar que quisera morrer? Não sei, mas para mim chegara ao fim minha curiosidade mórbida.
É. Dona Valéria provou do favo de fel e como só pelo amor vale a vida, resolveu dar fim a ela. Salvaram-na. O peso com o passar dos anos foi encurvando-lhe a coluna. Viva, porém. Ensejei-lhe que tirasse esse peso da consciência e, espiritualmente, se tornasse um ser alegre e em paz consigo mesma.Assim, ao sair, disse-lhe até outra vista e ela me respondeu: Vá em paz! Ou seria, deixe-me em paz, por amor de Deus?!...
É outono e as árvores estão com as folhas amarelas e as calçadas cheias delas.Aprecio esta estação e para festejá-la quis provar o tempero de um novo restaurante e, até me assustou reencontrá-la ali. Sua fisionomia ganhou mais força e seus olhos brilhavam como nunca.Os passos mais rápidos. Ora, não sou indiferente às mudanças e notei que ela estava se transformara para melhor. O vestido era cinza estampado de preto. Observei-a duas mesas da sua. Caminhou lentamente e com maior segurança. De onde me sentara podia ver seu perfil, sem ver nitidamente seu rosto, mas suas mãos estavam trêmulas. No aguardo do garçom, abriu a bolsa chiquérrima, de puro couro, de onde retirou algo que seus dedos nervosamente levantaram para perto dos olhos castanhos. De certo era míope, pois lia quase perto do rosto. Dei uma olhada mais acurada e vi que era uma carta.
O envelope ficou na mão esquerda, a carta na direita, e nesse instante olhou através do vidro o dia lá fora. Seus olhos faiscaram de meia alegria, porque era uma sofredora e, seu jeito atiçou minha imaginação.
Certamente as palavras que lia a modificava até no modo de olhar, pouco a pouco e, sinceramente, deduzi que era parte do segredo que carregava, seja lá o que fosse. Os olhos são reveladores e, nas mulheres idosas são eles que revelam as marcas das paixões antigas. Por traz do cabelo lilás claro, das rugas, da pele ressecada, seus olhos ressaltam novos brilhos, brilhos que traem a sua figura e em determinada hora chega a sorrir. Olha para mim como se notasse que estou estudando seu comportamento, porém nem chega a afetá-la. Prossegue na leitura da carta. Aí chega o garçom e faz o pedido.
Meses depois, novamente na Caixa Econômica a vi, mas desta feita retirou as jóias. Pegou o pequeno volume e ajeitou carinhosamente no fundo da bolsa. Olhou a derredor para avaliar se alguém (bandido) estivesse no recinto de Penhor. Dois seguranças presentes a fizeram sentir-se mais segura. Então com o andar de passos curtos e as costas encurvadas por um peso, que não adivinho qual era seguiu o seu caminho.
No mesmo dia e no mesmo restaurante reencontro a senhora que está de calça comprida preta e blusa de mangas curtas, cinza, de malha de algodão. Onde está o brilho que estampava em seus olhos na vez passada? Turvaram-lhe os olhos e, de repente dirigiu-se ao banheiro, de passos mais lentos, mas sem o tremor nas mãos.
Vou chamá-la de dona Valéria, porque conhecera em Cuiabá, Mato Grosso, uma senhora semelhante a ela, cujo nome era Valéria. Curiosamente, a cuiabana carrega consigo um terrível segredo já conhecido de alguns moradores da pequena cidade. Em cidade pequena dá para esconder nossas mazelas? É difícil. Todo mundo, pelo menos as de igual patamar, sabe e passa adiante, com o seguinte pedido: “Por favor, não conte a ninguém! Se disser que fui que lhe contei, nego de pés juntos e até juro por Deus, mesmo ciente de ser pecado. O padre depois me dá absolvição no confessionário, nem que tenha que rezar cinqüenta Padres Nossos e cinqüenta Aves Marias!”
Desta feita não lê nenhuma carta, mas se refresca vagamente o rosto com um leque espanhol, por sinal muito bonito, fundo preto e borboletas coloridas em vôo. Sentou-se ao meu lado e até me cumprimentou porque tantas vezes me encontrara na Caixa e recentemente no restaurante. Recolheu-se em seu mutismo para não dá margem a nenhuma conversa íntima. Notei e também fiquei na minha, mas deixar de observá-la, sei lá, não conseguia. Seus olhos misteriosos me intuíam saber seu segredo. Sob o facho de luz que recaía sobre sua mesa, pegou o cardápio e, vagarosamente, escolhia a comida. O garçom veio atendê-la. Baixinho, fez o pedido. Não deu para eu ouvir o que ia saborear naquele almoço. Ao erguer os braços deixou-me ver a cicatriz no braço esquerdo, talvez um corte de gilete, de tamanho regular. Desvendado estava seu segredo cruel. Devia ter-se cortado em nome do amor.
Sorriu-me, nem sei como. Será que ela quis me mostrar que quisera morrer? Não sei, mas para mim chegara ao fim minha curiosidade mórbida.
É. Dona Valéria provou do favo de fel e como só pelo amor vale a vida, resolveu dar fim a ela. Salvaram-na. O peso com o passar dos anos foi encurvando-lhe a coluna. Viva, porém. Ensejei-lhe que tirasse esse peso da consciência e, espiritualmente, se tornasse um ser alegre e em paz consigo mesma.Assim, ao sair, disse-lhe até outra vista e ela me respondeu: Vá em paz! Ou seria, deixe-me em paz, por amor de Deus?!...

