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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Segunda-feira, Julho 31, 2006

Volta a Cuiabá!


Viajar é para mim uma maravilha e ao subir as escadas do avião me sinto como se estivesse em casa. Nenhum receio vai comigo, mas tenho a ansiedade de chegar, principalmente quando volto a terra onde tenho meu umbigo enterrado. Aliás, são dois: o meu e o do mano Hélio Mário. É bom ficar em casa e ficar a imaginar como é que ficou a terra de nosso nascimento. A Zilda (colega de faculdade) que me pega pelos pés e me diz que sou imatura e cheia de insatisfação. Seja lá o que ela pensar, não vou discutir com gente metida a saber de tudo. Sou assim e acho tarde para me corrigirem ou me refazerem. O que seria problema de meus pais, no entanto, eles suportaram meu jeito de ser. Nunca me mudaria!

Gosto que até me babo sem querer ao falar sobre Cuiabá, cidade que sofreu por ser distante dos grandes centros. Basta dizer que a notícia da Proclamação da República levou dois meses para chegar ao governador da então Província. Engraçado, dançavam dando vivas ao Imperador e, na manhã seguinte, veio a grande notícia de que a República se instalara em todo o País. O presidente da Província ficou sem jeito, pois dançara a noite toda dando vivas a Dom Pedro II.

Bem, quero dizer da sensação que tenho ao chegar ao Aeroporto Rondon e, ao chegar me sobe pelas pernas até chegar às partes íntimas um calorão de lascar. Isso me alegra. Desço e sempre tenho um de meus irmãos ou sobrinhos a me aguardar. Pode ser o Edmundo (1º filho de mamãe) ou Nilo, que agora se mudou para a Chapada dos Guimarães. A cidade fica na serra e o clima de ventos frescos levou muitos cuiabanos a se instalarem lá. É perto de Cuiabá e quando precisam comprar algumas coisas, o carro oferece a facilidade de que precisam. Vão e vem. Tinha uma colega de Gê, que diariamente trabalha na Universidade Federal de Mato Grosso, e morava na Chapada. Várias vezes dei carona a ela até à Rodoviária. Gosto imensamente desta senhora pelo seu exemplo de mulher corajosa e trabalhadeira, pois faz os pães mais saborosos que já comi e sua clientela cresce a cada dia que passa. Salve Gê Villá, filha do Paulo Villá.

Vou com uma sobrinha de nome Wânia, que fica quieta enquanto observo o progresso da cidade. Passo pela Casa Bulhões e me vem à cabeça o dono – Joel Bulhões – amigo sincero que me cumprimenta me levantando ao alto porque sou baixa, 1 m e 50 cm. Sei lá, com a Melhor Idade, desconfio que já passei para 1 m e 40 cm, devido à osteoporose que ataca a quase todas as mulheres depois do fim do climatério. Como está o Joel? Com certeza vai muito bem e bem acompanhado. Fiquei sabendo de uma história sobre ele, mas é melhor virar essa página porque sou fã incondicional da Dely. Cala-te, Marta!

Roda o carro e, num determinado momento, é a vez de ver a casa da tia Nenê, Maria da Glória de Almeida Serra, que recebia uma pensão polpuda por ser descendente do nosso penta-avô Ricardo de Almeida Serra. Branca na pele e nos cabelos, seus olhos cintilavam mais que o sol ao falar sobre seu único namorado. “Eu ouvia o barulho do ônibus que vinha e corria para a janela pra ver meu amor passar. Era cobrador. Olhávamos e acenávamos um para o outro. Um dia ele tomou coragem e me mandou um bilhete em que falava de amor. Enfiei no soutien, porque se Mimi (sua mãe) soubesse ia me bater com corda. Entrava no banheiro e, a sós, lia e relia o bilhete lindo daquele moço a quem nunca dei sequer um aperto de mão. O amor é lindo! Ele me falava que um dia seríamos marido e mulher. O quá! Mimi achou o bilhete, porque ao tomar banho e trocar de roupa, o papel de folha almaço caiu no chão e ela me pegou. Ralhou comigo, alertou se encontrasse outro bilhete ia me mandar para o asilo (hoje colégio) das freiras, sem vir em casa nenhum dia. Nunca fui bobó, porque ficava na janela para vê-lo passar. Usava gumex no cabelo e uma camisa branca bem alvinha, como as garças do Pantanal. Pois foi ele só o meu amor. Sou solteira e virgem. Vou ser enterrada de branco e com a medalha de Filha de Maria no peito.” Tia Nenê faleceu aos 98 anos e no caixão sua expressão foi a mais bela que vi. Parecia sorrir.

Perto era a casa de dona Olga Cuiabano Malheiros, lugar onde gozei as melhores festas juninas: tinha quadrilha e grupo de som, e os bolos e doces de primeiríssima eram-nos servidos à vontade. Que festança boa, hein, Marilu Malheiros? Sua mãe era muito querida do povo de Cuiabá. Como as festas juninas da sua casa me dão saudades e também fico com água na boca. Saudades infinitas.

A seguir vem o prédio do Diário de Cuiabá, jornal em que mais gostei de trabalhar no Caderno Ilustrado (Cultura), mas fui trocada pela Myriam. Gustavo tinha razão, já estava ficando idosa e ele quis trazer seus colegas de faculdade para o seu jornal, porque o tio Adelino Praeiro passou a direção do Diário para ele. Não titubeou e me chamou em seu gabinete para falar que era o m eu último dia naquele jornal. Fiz-me de dura e voltei à redação para pegar meus livros e cadernos. Os colegas já sabiam e permaneceram de rosto baixo para não me humilhar mais. Peguei meu carro e saí a 120 por hora. Corria como uma doida, até chegar à Rua Estevão de Mendonça, onda morava e meu carro deu três voltas no meio da rua. Graças a Deus era hora do almoço e nenhum outro passou naquela hora por mim. Saí chorando e em casa nem quis almoçar, apesar da insistência de Marcíola, filha /neta ou neta/filha, mas a intuição me fala que ela já foi minha filha em vidas passadas. Creio.

Passo pela Praça da República onde avisto alguns amigos do peito, mas ninguém chegou a perceber que estava na terra, a não ser o Adelino que atravessa a rua. Não se trata do Adelino do jornal, mas um colunista chamado Adelino Tavares. Deu-me tchau e sorriu com todos os dentes a me ver chegar. É meu amigão, como também sua mulher, Leosa, presbiteriana como eu, só que ela freqüenta a igreja em todas as reuniões e eu vou um domingo ou outro.

Subimos a Avenida Getúlio Vargas. Passo pelo Grande Hotel, construído por obra e graça de Getúlio que quis que todas as capitais brasileiras tivessem um Grande Hotel, e coube ao interventor Júlio Strübing Müller cumprir o que Getúlio ordenou, evidentemente com verbas federais. Acho bonito o velho Grande Hotel de Cuiabá, há um tempo passado. Onde hoje é o Banco do Estado de Mato Grosso. Vem-me à cabeça a figura do grande Rubens de Mendonça, Rubens de Castro, seu filho Ronaldo (poeta de primeira linha), Wlademir Dias Pino (que inventou o poema-processo), Bendedito Santana da Silva Freire (conheci com o nosso Silva Freire e José (Barnabé) de Mesquita (impecável em seu terno branco de linho, que discutiam com os mais jovens sobre política e literatura). José de Mesquita nunca gostou do apelido Barnabé, que significa funcionário público. Seus filhos e netos nos corrigem se nos referirmos a ele como Barnabé.poHotem Ho

Vem então o Cine e Teatro Cuiabá, obra do velho caudilho gaúcho, que nos deu inúmeras obras nos anos 30 e 40. Vi aqui muitos filmes de Tarzan, Jane e a macaca Chita, Mazaropi, Carlitos, filme da Atlântida, com Grande Otelo,

Olha lá o Banco Real, onde mantive minha conta-corrente por algum tempo, mas a fonte pagadora decidiu depositar nosso salário, a escolher, na Caixa Econômica ou no Banco do Brasil, escolhi este. Nada a reclamar, pois o BB aqui da Barão de Ipanema tem uma programação destinada aos seus idosos: concertos, tarde de poesia ou de uma palestrante especial, conjunto de carentes (coral), pianista e outros. Lea é uma beleza e, como já era aposentada e muito amada por todos, o BB a chamou para implantar esse programa.

Vem depois o hotel do João Balão (apelido), filho do João Celestino, que me disse um dia: “Quando estiver com preguiça de comer em casa, venha pra cá, porque seu prato está na mesa!” Quanta delicadeza! Disse-me ter sido amicíssimo de Ibsen, meu irmão já falecido. Chegou a sonhar com ele.

Passo ao lado do Colégio Estadual de Mato Grosso, nome que tinha na época que fiz o ginásio, hoje Colégio Maria de Arruda Muller, minha tia amada, segunda filha do casal Adelina e João Pedro de Arruda, coronel do Rio Abaixo, dono da Usina das Flechas. Mamãe nos contava muitas histórias acontecidas na usina.Vovô foi deputado estadual, mas acredito que não gostou da política e nunca mais quis se candidatar.

Praça Santos Dumont, em que eu caminhava, ao lado da professora Gracildes. Andava depressa e dava dez voltas, depois retornava para minha casa e dormia até a hora do almoço. Eita, vida boa! Certo dia me encontrei com o marido da Liliam, o qual fez elogios às crônicas que publicava no jornal do Jucá – “Estado de Mato Grosso”, diariamente. Até uma alemã, amiga do Jucá, teceu elogios aos meus escritos. Que bom! Mas tudo passa, não é?

Olhei para a Gabriela, casa de calçados, a melhor de Cuiabá naquela época, e o servente lavava a calçada com água da praça. Que coisa! Será que não tem fiscal da CEDAE para ver tais abusos? Parei o carro e o alertei que estava errado, porque deveria usar a água da própria Gabriela. Ele deu de ombros e continuou no seu trabalho, sem me dar a menor importância. Que fazer?Já aconselhava Pascal, bem mais sábio seria ficar em casa, ou então explorar, denodado, o mundo e não reclamar de dormir na calçada, se esse fosse o preço de Adis Adeba. Àquele tempo, o sujeito aí mandava àbeça no seu país.Na dúvida, mo melhor é ver e dizer que nada viu, como acontece hoje.

Finalmente o carro virou para a minha rua Estevão de Mendonça e, não me deixou carregar as malas, colocando-as na sala de jantar. Por sua gentileza, ao invés de R$15,00 lhe dei R$ 20,00, o qual lhe satisfez, pelo belo sorriso de belos dentes da segunda dentição que me deu.

Pois é, ir e vir, sempre surgem coisas novas, umas boas e outras ruins, porém Cuiabá é hoje terra de elementos de outras regiões, os quais estranharam o calor da terra, mas como o circular da moeda era é prometedor, ficaram e hoje são proprietários das mais belas casas e fazendas em locais privilegiados.

A princípio estranharam o sotaque do verdadeiro cuiabano de “chapa e cruz” ou os que já pertenciam à quarta geração de nascidos na terra de Dom Aquino. Segundo Maria Luiza Canavarros Palma que escreveu sua tese de Mestrado na Puc sobre “A Variação Fonológica na fala de Mato Grosso”, um de seus entrevistados, dono de um dos bons restaurantes de Cuiabá, o “Getúlio”: “Nossa Senhora! Fiquei assustado com esse jeito de vocês...” Mas mora e ganha seus bererés há mais de 30 anos na Capital de Mato Grosso, onde se casou com uma cuiabana e teve filhas lindas..

Voltar sempre traz boas surpresa e coisas desagradáveis. Cito Panlo Neruda: “E vi quantos éramos, quantos eram filhos da terra. Eram muitas famílias e não tinham rostos, eram povo, eram metal, eram caminhos. E caminhei com os mesmos passos da vida por este mundo novo!”

Mais que tudo, porém, era-me agradável estar novamente em Cuiabá, após um vôo de Boeing, encontro o mesmo clima quente e abafado no qual me criei, chupando picolé do Seror e também do Bar do Seu Pinheiro e do Bugre, este, pai de uma das famílias mais bonitas de Cuiabá. Bonita e grande, em que todos são doutores e Gabriel Novis Neves foi reitor da Universidade Federal de Nato Grosso. Hoje é de outra universidade particular, a UNIC. Que gente mais bonita é o povo Novis Neves, louvai-me Deus! Tanto os homens como as mulheres, não é Ilcléa?

Tudo quase igual nas lojas, nos bares, minha respiração fica difícil porque sofro de asma, e começa a época das queimadas.

Tudo o mais é agradável. Que louvem outras cidades, porém tenho a impressão que a alegria de viver mora entre os cuiabanos e os filhos adotivos, porque de segunda a segunda há festas aqui, ali e acolá. Carlinhos é um diplomata, chefe do Cerimonial da Prefeitura, que adora receber e como são deliciosos os seus pratos! Fico me lambendo de vontade de comer as suas comidas com gosto de AMOR.

Tenho p’ra mim que a alegria de viver repousa no trabalho e no lazer das cidades pequenas, como a adorável Cuiabá, minha terra natal!

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