Debaixo das figueiras moram monstros


Nessa manhã, enquanto siá Edwiges fazia nosso chá de mate, quis me meter a ajudá-la, e a chaleira com água fervente caiu na minha barriga. Eu tinha 8 anos e estava só de calcinha, naqueles dias em Cuiabá chega a fritar ovo no meio da rua. Chorei. Chorei. E a boa ajudante de mamãe bateu claras de ovos e colocou na queimadura. Que alívio senti! È um santo remédio, garanto.
Todavia, fiquei com receio que mamãe e titio brigassem comigo, porque o que tinha eu de mexer no fogão a lenha? Quando era hora deles chegarem daquela expedição em torno do baú de ouro, fiquei atrás da porta para não oferecer tristeza a minha mãe. Mas, ao contrário, foi a primeira coisa que ela viu. Virou para seu irmão, com certo arrependimento e disse: “Está vendo, é castigo! Por que você inventou de procurar o ouro? Nós temos mais que pensar no espírito que nas coisas materiais. Taí, Marta está com a barriga em carne viva. E agora, vá a Farmácia de seu Vieira e trate de me trazer remédio para ela!” Ele foi que nem um foguete e trouxe um pacote de remédios, até vitamina C (achou que eu estava muito amarela) e deu só para mim uma lata de marmelada Peixe. Colocaram-me na cama e a recomendação era que não saísse dali. Mamãe fez um curativo na barriga, nem sei se existia Hipoglós, era alguma coisa parecida, oleosa e com cheiro de peixe.
Porém volto às assombrações, nas quais acredito e certa vez entre 14 a 16 anos, na fazenda de uns amigos de dona Alina Tocantins, vi uma mulher bonita, uma diva, que saiu de dentro da lagoa e veio se chegando para perto de mim: “Marta, você nasceu com característica mediúnica e por isso vai ter que sofrer, pois os médiuns sofrem muito, para depois desenvolverem seus sete sentidos. Vai, Marta, aliviar as penas dos aflitos, fazer curativos nos doentes, dizer uma palavra amiga a quem estiver sofrendo....” Nessa hora. Ismênia, minha amiga e colega de classe na “Escola Modelo Barão de Melgaço" surgiu toda arrumadinha, de tranças e a sorrir perguntou-me: “Está conversando com quem? Só ser for com as assombrações que vivem debaixo dessa figueira!’ Disfarcei e contei-lhe que cantava algumas cantigas de roda.
- Então cante uma para mim.
- A Ismênia entrou na roda, a Ismênia entrou na roda....
- Chega, você conhece bem essa cantiga, porque brincamos lá no grupo. O que você pensa de mim, imagina que sou bruxa?
- Penso nada, tenho certeza porque você é uma menina estranha. Só tira dez em português, mas é ruim de matemática. Ao contrário, adoro os números e se puder vou ser professora de matemática.
- Pára com nisso, Ismênia. Não está na hora do café?
- Vim chamá-la para tomar café. Dona Alina e o general Rondon já estão à mesa. Nhá Ge fez ovos fritos, tem melancia bem vermelhinha, bife de fígado, café, leite tirado hoje na teta da vaca e também chá de mate com bolo de queijo. Vamos, Martinha, porque comer é bom! Depôs, a gente vai brincar e andar de canoa na lagoa.
Pensei na linda mulher saída da lagoa, mas aquietei-me. A verdade é que as assombrações, não os fantasmas agressivos nem vampiros que chupam sangue, explosões como os da Faixa de Gaza, não me interessam. Gosto de um medo sutil, daqueles que nos deixam na dúvida, sem saber se apareceu mesmo ou foi formado em nossa fantástica cabeça.
Ser criança é uma dádiva dos céus e, como sou mediúnica de verdade, coitado do mano Hélio Mário que ouvia histórias de assombração que inventava na hora dele dormir. Como a mamãe ia sempre às reuniões da Igreja Presbiteriana, usava e abusava daquilo que me vinha à idéia. Ele se apavorava e não conseguia dormir. Com pena do meu irmãozinho, passava a contar histórias de Branca de Neve, as de Hans Christian (Dinamarca) e outras que criava na hora. Aí sim, ele abria aquele sorriso bonito e me falava que era dessas histórias que gostava. Dali a pouco dormia como um anjo.
Depois que ele ressonava, ia para debaixo da mangueira e, a pensar o que seria quando fosse grande, imaginava-me médica. Mamãe, porém, havia prometido a Deus, ainda quando estava na barriga, que sua nona filha ia ser missionária para trabalhar entre os índios. Que horror, porque meus irmãos me falavam que eu era filha de índios, os quais me deixaram na porta da rua e mamãe, com pena, criou. Na dúvida, já que sempre fui a mais feia e moreninha cor de jabuticaba, apavorava-me meter-me com índios. Perdoe-me mamãe, mas missionária não era papo p’ra mim.
Que excitação deliciosa já deitada na cama, quando meus irmãos mais velhos começavam a contar histórias de assombração. Às vezes, sozinha no escuro, passavam por mim alguns rostos de gente que desconhecia e ficava em sobressalto. O que desejam de mim?
Tantos anos são passados e, numa noite de geada, em Curitiba, pois morei lá de 1952 a 1965, vi um homem que me sorria e me oferecia goiabas vermelhas. Curioso, pois amanheci com dor-de-barriga e, sem falar no que vira, pedi a Dalva (nossa empregada) que fosse apanhar no quintal duas ou três goiabas. Ela me trouxe, lavou-as e colocou num pratinho para eu comer. Mastiguei devagar e, horas depois, o intestino estava bom.
O Ronaldo de Arruda Castro, meu primo e jornalista (acho que era uma dos melhores da velha Cuiabá), optava por falar sobre mulheres e inventava cada história estrambótica que até me arrepiava. Cada um é cada um. Infelizmente ele faleceu, mas bebia como um louco, penso que era porque era revoltado contra a grande pobreza dos arredores de Cuiabá e nada podia fazer por aquela gente sofrida.
Recordo que, entre 30 e 32 anos, passava uns dias no apartamento de mamãe, na Júlio de Castilhos, o Palacete Ipanema de que tanto se orgulhava, e no domingo a noite insistia em falar com minha irmã Dely, que mora em Curitiba. Ligou diversas vezes, até que não agüente tamanha insistência:
- Mãe, pára de telefonar para Dely, porque ela está no velório do seu cunhado Odilon.
- Lá vem você com esses papos de adivinhação! Melhor ficar quieta a ler esse livro aí (estava com o “Cem anos de Solidão” e continuei a ler. Ligou novamente e não tinha ninguém em casa. Dia seguinte, Dely ligou e comunicou que o Odilon falecera e passara a noite toda no velório do irmão de seu marido.
- Sua bruxa, não é que disse a verdade? – jogou-me na cara, com raiva.
Minha cunhada Jacy, baiana ou soteropolitana, me dizia: Não quero que faça previsão nenhuma para mim, está combinado?
É natural que não diria algo a quem não me quer ouvir, mas antecipadamente sabia que o casamento dela com o Hélio seria de poucos anos. Tiveram três filhos lindos e inteligentes: Roberta casada com Max, que já deu duas netas ao ex-casal: Camila e Giuliana. Também nasceu o André, que morreu criança de 7 anos, e o Breno, assessor do prefeito César Maia e secretário de uma das pastas da Prefeitura. É um moço que fala pouco e pensa muito. Nas segundas núpcias do mano com a Angélica, minha cunhada e comadre, nasceu a linda e maravilhosa Bárbara. Sou fã dessa menina, que tem metade de cada um dos pais. O gênio é do pai e também o espírito brincalhão. Vive rindo a adorável Bárbara. É mesmo bárbara Escreve como ninguém e já ganhou um concurso de redação no seu colégio. Acho que nesse particular saiu à tia e madrinha.
E as assombrações? Sou amiga de Loló e do ex-governador Júlio Campos, e ia passar a semana santa na fazenda deles do Pantanal. Jejé e eu éramos fregueses dessa temporada gorda. Iam mais de vinte pessoas e cada um fazia o que queria. Loló gosta de pescar e lá ia ela com o anzol e a cesta para trazer os pacus, de preferência. Júlio subia no bi-motor e andava pelas suas fazendas o dia inteiro. Certa vez, na batelagem bateu num cupim enorme e quase ficou machucado. No entanto ele voltou para casa a sorrir e repetia: “Marta, você que é mediúnica nem para me avisar!” Fiquei muda, porque nenhuma assombração me avisou daquele quase desastre do então governador de Mato Grosso.
Debaixo da figueira copada, Jejé e eu inventamos de acender velas na noite de sexta-santa, mas era eu acender a minha e apagar a dele, não tinha jeito das velas ficarem acesas ao mesmo tempo. Foi aí que Jejé me disse:
- Vá para o outro lado da figueira, porque as assombrações minhas amigas não são as mesmas que as suas. Fui. E num instantinho as sete velas se acenderam, tanto as dele como as minhas. A seguir, um homem negro como carvão nos apareceu e avisou:
- Não voltem para Cuiabá no mesmo avião, porque pode haver um acidente com vocês. É muita mediunidade a de vocês.
Ora, na hora em que Isabel avisou que Jejé embarcaria na primeira viagem, deu-me um arrepio no corpo e uma satisfação n’alma. Tudo bem. Ele me aguardava para seguir para sua casa no meu carro.. Sempre fui e sou amiga do carismático Jejé.
Um dia, já aqui no Rio, em Copacabana, comecei a escrever um conto sobre assombrações, que se passa na praia na noite de 31 de dezembro. Nem estava preocupada com o assunto, mas ao ir para a praia com a minha neta, não fosse ela e pisaria num copo quebrado ao meio. Ia dar o passo sobre ele, quando minha neta gritou: - Não, vózinha! Não pise nesse caco. Se realmente pisasse, sei que seria um ferimento feio. Foi Marcíola que me salvou desta vez. Dei uma risadinha, a beijei seu rosto e agradeci por ter-me salvo do corte no pé esquerdo.
Internautas amigos, dizem que ‘no hay brujas, pero que hay hay...” Mas, nem na hora mais perigosa as chamo, são elas que me aparecem nos momentos perigosos. Quem não acreditar, paciência!

