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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Quarta-feira, Agosto 02, 2006

Venha ver a minha pedra secreta



Ao mudar-me novamente de Cuiabá para o Rio de Janeiro, entreguei aos auxiliares do caminhão uma pedra que trouxe da Chapada e, assustado, o rapaz me disse:

- Vai levar essa pedra para o Rio.

- Sim, não é uma pedra qualquer, mas uma pedra que emite forças aos meus pés, chego mesmo a ouvir o latejar de seu coração de pedra.

- A senhora ouve mesmo? Acho difícil... Mas como Cuiabá é terra de índios e seus descendentes, a senhora tem direito de ouvir o que nunca poderei escutar. Vou ter cuidado com ela. Ai me arrepiou o corpo, e tive medo dessa pedra. Deus que me perdoe, mas ela tem alguma coisa diferente das outras pedras. A senhora pode conversar com ela?

- Sim, mas em momentos apropriados e ao sentir a voz do silêncio. Deixa p’ra lá que desejo ver tudo no caminhão ainda hoje. Não vamos atrasar a mudança, pois ao chegar ao Rio nem cama terei para dormir. A mudança segue na frente e vou de avião com a minha neta daqui a cinco dias. Vê lá se não vão atrasar!

- Não, dona, ainda mais com essa pedra encantada, quero que o motorista pise no acelerador e só pare ao chegar ao seu endereço. Sei lá! Também sou místico e tenho minhas crenças, que se tiver tempo outro dia vou-lhe contar.

- Está bem, mas que tal levar as caixas para o caminhão? Talvez no Rio, o senhor me contará suas crenças....

Umas duas semanas antes de me mudar fui com o pessoal da Universidade Federal de Mato Grosso visitar umas rochas onde tinha uma abertura pequena, mas ao entrar nela tornava-se grande e havia um rio de cor azul e as estalactites que o professor Roberto nos alertava para não tocar nas estalactites e estalagmites que pendiam sobre nossas cabeças. Explicava-nos que elas são lentas para se formar, ou seja, a cada cem anos ganham mais um centímetro. Gota a gota, pinga a água com seus minerais, que vão sedimentando ao longo de uma vida inteira ou mais até eu uma vida.

Jovem ainda, no Centro Cultural de Cuiabá. Folheava um livro sobre a história da humanidade e, na página inicial trazia um texto inquietante. Este dizia que numa terra distante de nome Svithjod, existe uma enorme montanha de pedra, de mil milhas de altura e mil milhas de largura. A cada ano surge um pássaro que vai até essa montanha fiar o bico na superfície dessa pedra. “Quando a montanha desaparecer inteiramente e sumir, um único dia da eternidade se terá passado”.

Meu estômago chega a doer e meus olhos faiscavam, talvez de medo do desconhecido e, professor Roberto, achou a pedra secreta e me ofereceu. Gostei do presente e, às vezes sozinha conversava com ela e me parecia que seu coração de pedra entendia tudo que lhe dizia. Tornou-se minha pedra, amiga e companheira das horas de solidão. Ai de quem implicasse com ela. Virava bicho e xingava o mano João Pedro que dizia que a cada dia que passava eu ficava mais doida.

- Doido é você que está pintando quadros que dão até medo na gente. Será que você não pode voltar a pintar como na época em que voltou de Paris? Aqueles quadros, sim, eram belos e agradavam o olhar. Tia Hélia tem uns cinco quadros dessa época, que me dá vontade de roubá-los, pois sei que ela os amam e jamais me dará. Hoje o João Mário estão com ele, após a morte da nossa tia querida.

Internautas amigos, aquela pedra está debaixo dos meus pés neste momento e parece me dar forças, já que me sinto melhor do que nunca. Foi o professor Roberto que me achou merecedora da pedra secreta.

Como sempre fui danada para encontrar o secreto, que faz parte do desconhecido e onipresente, que passa pela maioria dos terráqueos, mas eles não tem a lucidez para sentir, a pedra secreta tem sido minha amiga das horas silenciosas e secretas. Aos outros soa estranheza ao me pés sobre esta pedra, mas não sabem que par mim ela tem um significado enorme.

Passa o tempo e quase morri a alguns dias passados, mas estou aqui forte e maravilhosa com os pés sobre a minha pedra. Os bancos de pedra não mudam, são perene, assim dia eu irei para um novo patamar e a minha pedra vai ficar. Por favor, não vão jogar fora esta pedra secreta porque ela tem poderes que vocês não sabem. Vou deixar para a Raísa, porque ela gosta do sobrenatural e há de entender os meus porquês. Tenho esperança na filha do Nilo, já que me parece que puxou a mim. Estuda os fenômenos e as magias de tudo. É gente para chuchu. Gosto dela e ela gosta de mim.

O tempo é estranho demais para defini-lo, porém sei que as coisas sobrenaturais não chegam aos olhos de quaisquer pessoas, como quando vi o meu sobrinho André ir até a mim e me avisar, contente, que estava de partida. Ele disse-me: - Já vou, tia! E, realmente, na manhã seguinte recebi pelo DDD a triste notícia de que havia partido. Vejam só a aparência dele era de felicidade, mas nós – ocidentais – não aceitamos a morte. É duro aceitar separar de nossos queridos.

Li o livro de Memórias de Adriano. Livro que tirei da Biblioteca de Copacabana, onde a autora Marguerite Yourcenar, em seu posfácio explica como se transportou para a mente de um homem que vivera há vinte séculos. A analisar o quão distante estamos do Império Romano, a escritora conclui de que necessitaríamos de vinte e cinco velhos de mãos descarnadas, para chegar à proeza de Adriano.

Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, só de imaginar os vinte e cinco velhos de 80 anos, unidos numa sala que formam 2.000 anos, me dá um faniquito!

E vocês, acreditam na minha pedra secreta, pois numa crise de asma, fiquei sentada sobre ela e, em questão de uma hora, sem bombinha ou nebulização, não senti mais nada. Foi embora a minha falta de ar.

Todavia, como sou relapsa no uso dos remédios prescritos pelo Dr. Luiz Otávio, meu pneumologista, ela se recusou a me ajudar da última vez e, pude ouvir seu toc... toc...toc... e uma voz fina que me ordenou:

- Vá para o Hospital! Depressa, antes que seja tarde! E quase fui embora...

A minha pedra secreta é estranha, mas eu a compreendo bem.


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