
Agnaldo era lourinho e seus pais eram morenos escuros. Certa vez lhe perguntei: Mas que coisa é essa, dona Lourdes e seu Geraldo são morenos e você me sai assim tão loiro? Sem titubear, respondeu-me: Mas o vizinho é loiro como eu. Calei-me, porque melhor resposta não teria de outra pessoa.
Agnaldo, o Chuchu de Cuiabá, era um rapazinho tímido, mas tímido de verdade, e gostava de me dizer:
- Escuta aqui, que seja filho do vizinho e tudo bem, a mãe sabe por que me fez desse jeito, mas tenho sabença e desembaraço, porque quem me chamar de Chuchu, tenha certeza, o que tiver na mão jogo no seboso. Não sou sarado, mas na mira sou bom!
Ao me dizer tudo isso foi como um sopro ou um arfar e pulmões, pois as palavras saíam ventiladas de amarelo, como se tivesse almoçado arroz com pequi e não escovasse os dentes. Deu um suspiro profundo e me disse que nunca gostaria de me ter como sua inimiga, pois só a mim contou a verdade de sua cor. Conhecia seu pai, vizinho de longos anos e que até lhe pediu para tomar sua benção, mas não aceitou. O chamava de seu Schuartz.
Agnaldo era franzino de corpo e, desde que nasceu assim tão louro, a gurizada não o respeitava porque seus nove irmãos eram moreninhos escuros. Pequeno, ao ir comprar pão na padaria, sua fraqueza física recebia em troco a crueldade de outros guris. Era chamado de filho da puta, alemão batata come queijo com barata, chuchu de Cuiabá, cuspido, espancado, corrido de um lado para o outro como se fosse um tuberculoso. A garotada que jogava futebol com bola de pano – e a maioria jogava – faziam de Agnaldo seu alvo principal e levava bolada nas costas e até no rosto. Todos, sem exceção, gostavam de dar-lhe alguns crós ou cascudos. Até experimentaram fazer dele uma mulherzinha, mas nesse ponto ele virou um bicho e escafedeu-se para dentro de casa, onde dona Lourdes lavava roupas pra fora.
- Que foi meu filho: - indagou dona Lourdes.
- Nada, mãe, é que essa gurizada não se cansa de mexer comigo e até me xingam de Chuchu de Cuiabá. Um dia, a coisa vai reverter, porque não sou filho de ninguém, tenho pai e mãe. Não sou filho da puta, né, mãe?
- Deixe pra lá essa sapituca, meu filho. Melhor pegar um ônibus para a Guia e ir sapear a festa do Senhor Divino. Peça a Santa N. Sra. da Guia, mas peça com fé, que essa turma esqueça de lhe perseguir. Taqui o dinheiro para a passagem e mais R$15,00 reais para gastar com aquilo que mais lhe apeteça. Vá tomar um banho e vista aquela roupa azul e a camisa amarela que seu Schuartz lhe deu de presente de aniversário. Você fica parecendo um príncipe, meu filho. O que essa gurizada tem é inveja!
- Estou sentido, mãe, mas vou para a Guia. Será que o Jeremias quer ir comigo?
- Não, Agnaldo, vá sozinho e mostre para quem quiser que você é valente, corajoso e não tem medo de nada. Vá, meu menino!
Dona Lourdes bem que sabia o trauma que Agnaldo tinha de ser loirinho, enquanto seus irmãos eram quase negros. O temperamento dele não poderia ser igual o dos outros filhos, mas se dizia: “Foi uma única vez e não é que o alemão foi forte que me engravidei”? E o menino tinha que nascer igualzinho a ele. Seu Schuartz pediu até para criá-lo junto dos três filhos, uma moça e dois rapazes, mas eu que ia dar o meu filho? Jamais. Tem outra coisa, ele é mais inteligente que os outros sete: Jeremias, Nehemias, Josué, Iracema, Paloma, Rosa Malena (que tirei da novela “Só pelo amor vale a vida”) e Suely (nome da vizinha, mulher de seu Nilo Ponce. Acho-a tão bonita e boa!) Com a chegada do Agnaldo, claro que foi por causa do Agnaldo Rayol, que tem uma voz linda e é bonito pra burro.
- Mãe, a benção! Vou indo, ainda quero ver se pego o ônibus das cinco.
- Vai com Deus, filho meu! Que os bons ventos te levem! Se alguém aparecer com saliência, salte de banda, ouviu? Mande lá quem for sossegar o pito. Sempre aparecem nas festas aqueles sungas-mungas para quem é preciso dar uma banana bem dada. Você sabe!!!!
Dona Lourdes era mulata, nem gorda e nem magra, mas seus braços eram fortes e protegia o seu guri o quanto podia, até saiu nos tapas em certa ocasião que lhe disseram na lata:
- E o Agnaldo é seu filho com o seu Schuartz?
Deu a maior quizumba, pois ele pegou o bacurau pela camisa e deu tantos socos e pontapés que o guri desmaiou no meio da rua. Foi perto de um bamburro, mas juntou mais de dez, entre homens, mulheres e crianças para ver. Eles gritavam:
- Bate mais, dona Lourdes, que esse bagaceiro merece. Vive mexendo com o Agnaldo.
Ela virou as costas e voltou para casa, naqueando um fumo do armazém do seu Dutra que vendia o melhor fumo de Cuiabá. Entrou em casa e foi preparar a sopa de verduras para o jantar. Cantava:
-“Perdão Emília se manchei seu nome devido os anos que contigo passei...”
Súbito entrou a Rosa Malena, 19 anos, que deu a notícia que conseguiu passar no concurso do Banco do Estado de Mato Grosso e até já estava publicado no Diário Oficial.
- Que bela notícia, filha minha. Agora sim, você vai me ajudar um pouco mais e, aos poucos quero deixar a lavagem de roupa, porque com 64 anos já estou cansada, se bem que o Nehemias me deu uma máquina de lavar roupas, no Dia das Mães. É Bendix, a melhor entre todas, conforme me contou a Donata, mulher de seu Almeida.
- Acho que vou-lhe dar um máquina de fazer bolo, porque não suporto mais ver a senhora a bater tudo com as mãos. Que tal?
- Legal, Rosa Malena, e quem sabe o Jeremias não coloca na sua venda para vender meus sonhos e pedaços do céu? Que beleza!
Agnaldo chegou à Guia e a festa já tinha começado. Já na porta, um nhô o chamou de alemão, mas só que desta vez a sua reação foi outra. Armou os braços e falou com o sujeitinho:
- Quer sair no braço comigo. Vem que não tenho medo de velhaco. Não tô nem aí para a sua paçoca, ouviu bem?
O outro mesquinho e medroso, não quis sair na chincha e, devagar foi mudando de lugar, sem nada responder.
Ótimo, pensou Agnaldo, porque daqui pela frente vai ser no gôto do sujeito a quem mexer comigo. Esse aí nem é boa bisca e julgou que aquele Agnaldo está de alma nova e vai dar o troco seja a quem for.
Entrou no salão da festa nas grimpas, e tirou uma nhá de cabelos compridos para dançar. A mocinha saiu a bailar e em questão de minutos já conversavam. Ele disse morar em Cuiabá e que dormia com os irmãos no oitão da casa. Somos unidos e pousamos sem fazer nenhum barulho, pois a mãe acorda cedo.
- Meu nome é Jerusa e moro aqui mesmo. Meu pai é sapateiro e minha mãe costura pra fora. Eu faço a barra das roupas, chuleio e faço uma vista geral no vestido ou nos conjuntos de saia e paletó para sair de lá perfeito. Somos cinco, três moços e duas gurias; Daiane e eu, Johnson, Nixon e Dick Farnei. Foi minha mãe que escolheu os nomes. Gosto do meu, mas Daiane diz que preferia ser Maria do Carmo, porque tem vontade de ser freira.
- Quando vai a Cuiabá? Vou dar o meu endereço, tá? Vá conhecer minha família. Lá todo mundo é batalhador e queremos tirar a mãe do serviço de lavadeira, pois ela já está com a cabecinha começando a branquear.
Jerusa foi, em menos de um mês, mas ficou bispando a cor de seu namorado e a de seus irmãos. Ele logo percebeu e com voz firme lhe disse:
- Meu pai é outro, mas nada de mais porque somos irmãos e unidos. Se não gostou da novidade, tá bem. Não vá baquear! Nós podemos ser apenas amigos.
- Qu’isso, Agnaldo? Gosto de você como é, não tem nada de me jogar no limbo, tá ouvindo? Se avie no trabalho que quero ser sua mulher.
Tudo correu sem sobressaltos até que um gaiato gritou lá da rua:
- Agnaldo tá de namorada? Olha lá!
Sem pensar que ele havia mudado, levou um baita susto quando Agnaldo apareceu na porta da rua e o chamou para um ajuste de contas. Venha, moleque que vou te ensinar a saracotear no muque. Vem cá! Tá com medo? Eu não estou. Tô sapecado com vocês todos e vou-lhes dar a lição de casa. Pegou o rapaz pela camisa e o encheu de tapas nos lados do rosto e também levou uns pontapés bem dados.
- Que foi, Agnaldo, não posso mais brincar com você?
- Não, de agora por diante vai ser olho por olho a quem quiser experimentar minha força feita de muito tutano. O outro cambaleou na calçada e um grupinho ficou olhando o novo Agnaldo de cambito, mas com força no muque. Ele mesmo não tinha ciência do quanto era forte como um Cafu (touro forte, grande e sadio). Daqui em frente não quero brincadeiras comigo, ouviu?
A turma de guris que ficaram na platéia também ouviram o recado e ficaram cabreiros com a fortidão do filho de dona Lourdes. Ninguém caçoou, que não era besta. A turma capivariou para outras bandas, sem graça e sem vontade de fazer novas brincadeiras com o moço de cara nova. De que será!!! Ora, bolas, carambolas! O moço cevou, passou a pesar uns 70 quilos e ai de quem chuchasse qualquer um de sua casa. Ai, ai, ai...
A mãe, quando Agnaldo entrou para tomar a sopa de legumes, olhou para ele, boquiaberta. Nunca ou jamais imaginara que o filho ia falar alto daquele jeito e bater no outro que o provocara com tanta força nos braços. A palavra saia de sua boca como a de um barítono dos bons, como aqueles italianos ou espanhóis dos melhores do mundo. Mas a surpresa maior foi que Jerusa não voltou para a Guia naquela noite e, sem graça, dona Lourdes ofereceu sua cama para a primeira noite do casalzinho. Foi dormir no oitão.
Serelepe, na manhã seguinte, Agnaldo levantou cantando La Violetera e Jerusa fazia para com ele, como se fosses dois pombinhos saindo do pombal de amor.
- Minha vingança, mãe, é que essa gente saroba aprendeu quem é o novo Agnaldo e, vou-lhe contar mais uma surpresa, passei no concurso do DETRAN e saí em 9º lugar, portanto os dez primeiros vão ser empossados no começo do próximo mês. Mãe, cê não zanga comigo, mas vou casar com a Jerusa, que é a outra parte da minha laranja.
- Se avie, filho meu, senão a Daiane vai se casar primeiro que ocê.
- Não faz mal, nada de pressa, primeiro quero construir uma casinha, a senhora vai me dar o terreno aqui do lado?
- É seu há muito tempo! Na batida, foi o seu Schuartz que lhe presenteou quando você terminou o ginásio. Nada a ver, é só comprar os tijolos que nós mesmos vamos de tijolo a tijolo, como na música de Chico Buarque, levantar seu teto para que eu tenha uma porção de netos. Há...há...há...Nem vou por baliza entre nossas casas, mas quero fazer um belo jardim de violetas e acácias. Você tem alguma escolha, Jerusa? Vamos fazer o jardim juntas, está bem?
Agnaldo sorriu e, safo, gabou a beleza dos olhos de sua futura mulher. Eram verdes.