O plantio é livre; a colheita obrigatória.

Lena mudou-se de Cuiabá aos 20 anos. Quase separa um casal de mais de 40 anos de felicidade. Cabulosa seu prazer era fuçar a vida alheia. Depois, rodou o Brasil, e terminou por fixar residência na Palhoça, bairro de Florianópolis, Santa Catarina.
Mas, aonde vai o pecador vai o pecado... Arrumou novas inimizades. De repente, a lonjura foi pesando e um dia moída de saudades, apesar dos 79 anos no lombo, pegou um avião e foi passear em Cuiabá, onde tem seu umbigo enterrado na Várzea Grande, município de Mato Grosso.
Instalou-se no Hotel do Abudi, vestiu-se com roupas chamativas, fora de sua idade e foi andar por aí e ver as coisas como estão hoje.
De repente, na Praça da República, olha daqui, olha dali e não vê ninguém do passado. Baldeia histórias do tempo que estudava na Escola Modelo Barão de Melgaço e boqueja consigo mesma: será que minha gente já foi p’ro Cemitério da Piedade? Cadê Aidinha Epaminondas, Elza Nigro, prof. Oló, Ecila de Arruda Pimenta, Maria Müller? Figa! Esta terra já não é minha!... Só vejo cangotes brancos... Nossos cangotes eram morenos.. E ah! Nunca me senti tão brocoió! Também bati atrás muito tarde... Já tô buxibenta nos meus quase oitenta anos e alguém irá se lembrar de mim? Fui danada e deixei causos sérios por aqui... Isto é um fervedouro! Desvalida, desguaritada, Lena sobe a Cândido Mariano, quando vê Zizi. Enfim, deslindaria alguma coisa... É gente do seu tempo. Colega de escola primária.
- Como vai Zizi?
- Perdão, não é desfeita, mas não estou me lembrando de você.
- Sou a Lena, que morava lá no Mundéu, vizinha de professor Oló.
- Ah! Você era aquela guria embonecada que dona Tina criava? Aliás, seu nome é Cibalena, não é?
- Papai me deu esse nome porque a mãe Tina tomava muita Cibalena. Mas só me conhecem como Lena. Sempre fui catita, mas chispei daqui escorraçada. Fui encosto... Enxarquerava demais.
- Você deixou demás de máquerência, pois era espeloteada e dona de arrumar freje. Fresca! Falava que nem matraca... Fuxiqueira... Vote! Por que voltou? Vai empombar outra vez?
- Que nada, tenho apanhado na vida e agora sou outra mulher. Sou espírita e no Rio de Janeiro freqüenta com a Carolina Lima e Silva, lembra-se dela? Fez curso de enfermeira na Escola “Ana Nery”. E não saía do Centro do Dr. Mariano, um médico e médio dos bons, que saiu de Cuiabá de lancha dos Miguéis e nunca mais pôs os pés na terra em que nasceu. Diz ele que magia feita em Cuiabá é maior do que da Bahia e, como determinada moça queria levá-lo ao altar, decidiu permanecer no Rio. Mora na rua Riachuelo e o centro fica cheio todas às quartas e sextas. O homem dá receitas que valem pelos melhores médicos do Brasil. Pois é, ao me ver, recomendou-me: - Ou você muda de gênio ou vai acabar no limbo.
- Deus me livre, acabar no limbo. Então entrei numa ONG de auxílio aos doentes e, diariamente vou visitá-los, dizer palavras que os encorajam a viver e ser e ser feliz.
- Não, esta não e a Lena que conheci nos tempos de moça. Diga-se que filho de peixe é peixinho, pois sua mãe, dona Cindola, foi fogo. Onde estivesse sempre armava o maior barraco, talvez para chamar atenção. De certa feita quis ficar com um anel de brilhante que a Zélia, filha de dona Jandira Pereira, ao ajudar a arrumar a igreja esqueceu ao lado da pia. Mas a moça que nada tinha de boba fez como a galinha, porque a que grita primeiro é a dona do ovo. Com a cara no chão, a Cindola pediu desculpas e falou estar apenas brincando, pois sabia que a jóia era da Zélia. Só que muita gente ficou ressabiada e, ao vê-la por perto, segurava a bolsa nas mãos. Cindola, logo depois de dois anos, mudou-se para Corumbá, e não que a danada teve sorte? Casou-se com um cartorário e hoje está entre as dez mais elegantes da cidade. A filha, Zélia, já não teve sorte igual e uniu-se com um bicheiro daqueles bem bagunceiros e teve oito filhos, todas mulheres. Uma delas, a mais velha, de nome Zoé (lembra-se, era o nome da mulher do Jânio Quadros) e já e formada em Medicina e se aprumou lá por São Paulo, e carregou a mãe e as irmãs para ter um futuro melhor na cidade grande. Soube por meio de uma parente dela, que a segunda, Zenilda, formou-se em Direito e fez concurso na OAB e passou em 1º lugar. Depois fez concurso para promotora e está trabalhando na Promotoria de S. Paulo. Sobre as outras, Zeila, Zilda, Zóia (nome da filha do Luiz Carlos Prestes), Zara, Zeide e Zinéia estão estudando com vontade, porque elas são danadas, ambiciosas e querem ser gente. Boa notícia, não acha?
- Mas que tanto nome com a letra Z?
- Ué, gosto de mãe e pai não pode ser criticado, como você que foi registrada como Cibalena e tem pavor que os outros saibam que tem esse nome.
- É você tem razão, quis até mudar de nome, mas como meus documentos levavam o nome Cibalena, achei melhor não ter trabalho e vou indo e muito bem. Sabe que estou vivendo com um garotão de 55 anos e ele gosta de mim como se eu fosse uma garota de 21 anos? Disse que não me troca nem pela Malu Mader. Já imaginou? Chama-se Miguel Linhares Fuentes. De origem espanhola.
- É, minha amiga, segure esse aí, que as mulheres são em maior número que os homens e, aos 79 anos ter um companheiro de 55 é ganhar na Sena ou na Loteria Federal. Reze bastante para N. Sra. das Graças, e amarre o nome dele a Santo Onofre, de cabeça pra baixo, e não tire da bolsa de forma alguma. Pode ter certeza que vai continuar gamadão por você, mesmo com a diferença da idade. O sujeito trabalha e ganha bem?
- Que nada, Zizi, me ajuda na banca. Mas fico grata pelo conselho, que logo vou providenciar. Se um dia, por acaso, você quiser fazer um passeio em Florianópolis, não se avexe, viu? Meu apartamento tem dois quartos e um está a sua disposição. A casa é pequena, porém é grande o coração da sua amiga de infância, a Lena Albuquerque.
- Não, Cibalena Albuquerque.
- Ora, esquece esse nome que quase ninguém sabe mulher!
- Está bem, prometo não bater mais na mesma tecla. Perdão!
- Pois é mamãe me falava “formiga quando quer deixar o ninho cria asa” e eu saí daqui aos vinte e poucos anos, zanzei, zanzei e até passei fome. Mas, pedi licença na Prefeitura de Florianópolis e abri uma banca de revistas e jornais. O ganho é remediado, entre dois a três mil por mês. Lá e tudo mais em conta que aqui, que já andei bispando os preços dos supermercados e fiquei estupefata com o filé, que está a R$38,00 o quilo. Onde já se viu? Aqui é terra da carne...
- Olha Lena, passei dez anos em Lisboa e os lusos não suportam reclamação de nada de sua terra e, certa vez estava na fila do pão, que era enorme. Reclamei a uma portuguesa danada mesmo que, ao ver que se tratava de brasileira, disse-me: ”Ora, todos nós entramos na bicha para pegar o cacete”. Quis lhe responder de pronto que não estava buscando nenhum cacete, mas rindo me explicou: cacete, em Portugal, é pãozinho.
Não me demorei mais tempo entre eles, porque cada luso é mais danado que o outro e, não foi à toa que Cabral descobriu o Brasil e depois veio D.João VI e dona Maria, a Louca. E a Carlota Joaquina, que calor tinha aquela mulher!
Numa noite de lua cheia (a lua mexe com a cabeça das mulheres, sabia?), pois não comprei a passagem para Cuiabá, direto, só fiz escala em S.Paulo. Diacho, terra melhor é a terra onde nascemos. Por que não deixa esse gajo pra lá e vai morar com uma de suas sobrinhas em São Paulo? Elas estão bem e vida.
- Nada disso, ainda tenho sabedoria, e sequer me ofende, mas lugar de velho ou gente da Melhor Idade, como dizem no Brasil, é no seu cantinho. Faço o quilo depois do almoço, vou aos bailes do Idosos, o Miguel tá me abastecendo bem, e na hora de não servir mais, mando o songamonga achar sua praia. Já tenho meu apartamento próprio e a banca, onde posso contratar, no papel e com firma reconhecia um bom gerente para cuidar. Problema? É a cabeça que faz! Volto no sábado para Floripa. O calor está demais!!!


