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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sábado, Agosto 05, 2006

O plantio é livre; a colheita obrigatória.


Lena mudou-se de Cuiabá aos 20 anos. Quase separa um casal de mais de 40 anos de felicidade. Cabulosa seu prazer era fuçar a vida alheia. Depois, rodou o Brasil, e terminou por fixar residência na Palhoça, bairro de Florianópolis, Santa Catarina.

Mas, aonde vai o pecador vai o pecado... Arrumou novas inimizades. De repente, a lonjura foi pesando e um dia moída de saudades, apesar dos 79 anos no lombo, pegou um avião e foi passear em Cuiabá, onde tem seu umbigo enterrado na Várzea Grande, município de Mato Grosso.

Instalou-se no Hotel do Abudi, vestiu-se com roupas chamativas, fora de sua idade e foi andar por aí e ver as coisas como estão hoje.

De repente, na Praça da República, olha daqui, olha dali e não vê ninguém do passado. Baldeia histórias do tempo que estudava na Escola Modelo Barão de Melgaço e boqueja consigo mesma: será que minha gente já foi p’ro Cemitério da Piedade? Cadê Aidinha Epaminondas, Elza Nigro, prof. Oló, Ecila de Arruda Pimenta, Maria Müller? Figa! Esta terra já não é minha!... Só vejo cangotes brancos... Nossos cangotes eram morenos.. E ah! Nunca me senti tão brocoió! Também bati atrás muito tarde... Já tô buxibenta nos meus quase oitenta anos e alguém irá se lembrar de mim? Fui danada e deixei causos sérios por aqui... Isto é um fervedouro! Desvalida, desguaritada, Lena sobe a Cândido Mariano, quando vê Zizi. Enfim, deslindaria alguma coisa... É gente do seu tempo. Colega de escola primária.

- Como vai Zizi?

- Perdão, não é desfeita, mas não estou me lembrando de você.

- Sou a Lena, que morava lá no Mundéu, vizinha de professor Oló.

- Ah! Você era aquela guria embonecada que dona Tina criava? Aliás, seu nome é Cibalena, não é?

- Papai me deu esse nome porque a mãe Tina tomava muita Cibalena. Mas só me conhecem como Lena. Sempre fui catita, mas chispei daqui escorraçada. Fui encosto... Enxarquerava demais.

- Você deixou demás de máquerência, pois era espeloteada e dona de arrumar freje. Fresca! Falava que nem matraca... Fuxiqueira... Vote! Por que voltou? Vai empombar outra vez?

- Que nada, tenho apanhado na vida e agora sou outra mulher. Sou espírita e no Rio de Janeiro freqüenta com a Carolina Lima e Silva, lembra-se dela? Fez curso de enfermeira na Escola “Ana Nery”. E não saía do Centro do Dr. Mariano, um médico e médio dos bons, que saiu de Cuiabá de lancha dos Miguéis e nunca mais pôs os pés na terra em que nasceu. Diz ele que magia feita em Cuiabá é maior do que da Bahia e, como determinada moça queria levá-lo ao altar, decidiu permanecer no Rio. Mora na rua Riachuelo e o centro fica cheio todas às quartas e sextas. O homem dá receitas que valem pelos melhores médicos do Brasil. Pois é, ao me ver, recomendou-me: - Ou você muda de gênio ou vai acabar no limbo.

- Deus me livre, acabar no limbo. Então entrei numa ONG de auxílio aos doentes e, diariamente vou visitá-los, dizer palavras que os encorajam a viver e ser e ser feliz.

- Não, esta não e a Lena que conheci nos tempos de moça. Diga-se que filho de peixe é peixinho, pois sua mãe, dona Cindola, foi fogo. Onde estivesse sempre armava o maior barraco, talvez para chamar atenção. De certa feita quis ficar com um anel de brilhante que a Zélia, filha de dona Jandira Pereira, ao ajudar a arrumar a igreja esqueceu ao lado da pia. Mas a moça que nada tinha de boba fez como a galinha, porque a que grita primeiro é a dona do ovo. Com a cara no chão, a Cindola pediu desculpas e falou estar apenas brincando, pois sabia que a jóia era da Zélia. Só que muita gente ficou ressabiada e, ao vê-la por perto, segurava a bolsa nas mãos. Cindola, logo depois de dois anos, mudou-se para Corumbá, e não que a danada teve sorte? Casou-se com um cartorário e hoje está entre as dez mais elegantes da cidade. A filha, Zélia, já não teve sorte igual e uniu-se com um bicheiro daqueles bem bagunceiros e teve oito filhos, todas mulheres. Uma delas, a mais velha, de nome Zoé (lembra-se, era o nome da mulher do Jânio Quadros) e já e formada em Medicina e se aprumou lá por São Paulo, e carregou a mãe e as irmãs para ter um futuro melhor na cidade grande. Soube por meio de uma parente dela, que a segunda, Zenilda, formou-se em Direito e fez concurso na OAB e passou em 1º lugar. Depois fez concurso para promotora e está trabalhando na Promotoria de S. Paulo. Sobre as outras, Zeila, Zilda, Zóia (nome da filha do Luiz Carlos Prestes), Zara, Zeide e Zinéia estão estudando com vontade, porque elas são danadas, ambiciosas e querem ser gente. Boa notícia, não acha?

- Mas que tanto nome com a letra Z?

- Ué, gosto de mãe e pai não pode ser criticado, como você que foi registrada como Cibalena e tem pavor que os outros saibam que tem esse nome.

- É você tem razão, quis até mudar de nome, mas como meus documentos levavam o nome Cibalena, achei melhor não ter trabalho e vou indo e muito bem. Sabe que estou vivendo com um garotão de 55 anos e ele gosta de mim como se eu fosse uma garota de 21 anos? Disse que não me troca nem pela Malu Mader. Já imaginou? Chama-se Miguel Linhares Fuentes. De origem espanhola.

- É, minha amiga, segure esse aí, que as mulheres são em maior número que os homens e, aos 79 anos ter um companheiro de 55 é ganhar na Sena ou na Loteria Federal. Reze bastante para N. Sra. das Graças, e amarre o nome dele a Santo Onofre, de cabeça pra baixo, e não tire da bolsa de forma alguma. Pode ter certeza que vai continuar gamadão por você, mesmo com a diferença da idade. O sujeito trabalha e ganha bem?

- Que nada, Zizi, me ajuda na banca. Mas fico grata pelo conselho, que logo vou providenciar. Se um dia, por acaso, você quiser fazer um passeio em Florianópolis, não se avexe, viu? Meu apartamento tem dois quartos e um está a sua disposição. A casa é pequena, porém é grande o coração da sua amiga de infância, a Lena Albuquerque.

- Não, Cibalena Albuquerque.

- Ora, esquece esse nome que quase ninguém sabe mulher!

- Está bem, prometo não bater mais na mesma tecla. Perdão!

- Pois é mamãe me falava “formiga quando quer deixar o ninho cria asa” e eu saí daqui aos vinte e poucos anos, zanzei, zanzei e até passei fome. Mas, pedi licença na Prefeitura de Florianópolis e abri uma banca de revistas e jornais. O ganho é remediado, entre dois a três mil por mês. Lá e tudo mais em conta que aqui, que já andei bispando os preços dos supermercados e fiquei estupefata com o filé, que está a R$38,00 o quilo. Onde já se viu? Aqui é terra da carne...

- Olha Lena, passei dez anos em Lisboa e os lusos não suportam reclamação de nada de sua terra e, certa vez estava na fila do pão, que era enorme. Reclamei a uma portuguesa danada mesmo que, ao ver que se tratava de brasileira, disse-me: ”Ora, todos nós entramos na bicha para pegar o cacete”. Quis lhe responder de pronto que não estava buscando nenhum cacete, mas rindo me explicou: cacete, em Portugal, é pãozinho.

Não me demorei mais tempo entre eles, porque cada luso é mais danado que o outro e, não foi à toa que Cabral descobriu o Brasil e depois veio D.João VI e dona Maria, a Louca. E a Carlota Joaquina, que calor tinha aquela mulher!

Numa noite de lua cheia (a lua mexe com a cabeça das mulheres, sabia?), pois não comprei a passagem para Cuiabá, direto, só fiz escala em S.Paulo. Diacho, terra melhor é a terra onde nascemos. Por que não deixa esse gajo pra lá e vai morar com uma de suas sobrinhas em São Paulo? Elas estão bem e vida.

- Nada disso, ainda tenho sabedoria, e sequer me ofende, mas lugar de velho ou gente da Melhor Idade, como dizem no Brasil, é no seu cantinho. Faço o quilo depois do almoço, vou aos bailes do Idosos, o Miguel tá me abastecendo bem, e na hora de não servir mais, mando o songamonga achar sua praia. Já tenho meu apartamento próprio e a banca, onde posso contratar, no papel e com firma reconhecia um bom gerente para cuidar. Problema? É a cabeça que faz! Volto no sábado para Floripa. O calor está demais!!!

À beira do riacho



Na Chapada dos Guimarães tive uma casinha de quatro peças: dois quartos, sala e copa/cozinha, onde me relaxava quando o estresse do jornal era maior do que os meus 1 metro e 51 cm. Às vezes a neta, Marcíola, 15 anos, recusava-se a ir comigo porque já programara suas festinhas entre amiguinhas de idades iguais. Natália – secretária doméstica – oferecia-se para me acompanhar, não por prazer, mas o filho Igor, 18 anos, a tratava com muita rispidez e também precisava de paz e amor.

Dirigia meu carrinho de quatro portas – Fiat - ar condicionado, que ligava quando o calor era demais. Nunca fui de dirigir apertando o acelerador, tanto que levava uma hora e vinte minutos de Cuiabá a Chapada, casa que comprei da Maria Helena Arruda, minha parente, por CR$15.000.00. Logo na entrada havia um jardim com vários tipos de roseiras: branca, vermelha, amarela, rosa e uma com enxerto que ficou entre o vermelho e o rosa. Saudava-as com boas palavras e dizia-lhes: Obrigada por enfeitar a minha casa de verão. O terreno era de doze por 30, mas bem distribuídos, e lá nos fundos havia uma edícula, com uma goiabeira carregada de goiabas vermelhas do lado. Que doçura! Comia de duas a três e ficava satisfeita.

Natália arrumava a casa, trocando a roupa de cama, varrendo e tirando o pó dos móveis. Com o banheiro ela era maníaca de limpeza e o cheirinho da casa pequenina que, meu amigo – Miguel Biancardini – chamava “casa de boneca” ficava pronta para receber as visitas do bairro. Vanessa, que cuidava da casa para mim, logo aparecia porque a pagava de quinze em quinze dias, prazo solicitado por ela. Sempre me trazia um pratinho de doce de goiaba ou de abóbora com coco feito por suas mãos de fada. Agradecia e pegava uma colher para provar. Aí ela abria um sorriso grande, porque geralmente os doces eram deliciosos.

- Obrigada, Vanessa, vou-lhe dar um pacote de açúcar, cravo e canela para que da próxima vez eu também a ajude.

- Vou aceitar dona Marta, porque os supermercados daqui cobram quase o dobro do que os de Cuiabá. A gente tem que comer e não pode negar uma oferta dessas, pois da próxima vinda a Chapada, quero fazer um furrundu. A senhora gosta?

- Ora, Vanessa, até já sinto o gosto desse furrundu que vem por aí. Também vou-lhe dar um botijão de gás, certo? Sei que o gás some quando a gente cozinha e faz doces, como você.

- Faço biscoitos e bolo para que meus filhos levem merenda para a escola, porque se forem comprar na cantina, o dinheirinho que tenho some igual à poeira da estrada. Fico cabreira com dona Nilza, a cantineira, porque faz umas empadinhas, até de bom tamanho, mas custam R$2,00 reais. Ora, canhar merenda para os quatro filhos, nunquinha! Também preparo uma cajuada que coloco na garrafa térmica, geladinha, e dá para todos. O mais enjoado é o Frederico, rapa de taxo, sabe como é, é o mais paparicado e cochicha ao meu ouvido para os três não escutarem: quero um sanduíche de carne assada e, ora, meu Deus, de que haveria de lhe negar o que ele me pede? Leva o sanduíche e procura comer distante dos três para não criar problema para mim. É inteligente o guri, além de ser o mais bonitinho dos quatro. São: Angélica, Ângela e Maria Isabel que sequer estão ligando para isso, porque estão na idade de querer ter um manequim de 36 a 38, para competir com as demais meninas. Quando organizam desfiles no clube, logo vem a dona Abigail para me pedir que elas participem do evento. Deixo e dou força, porque mulher tem que ser vaidosa, não acha dona Marta?

- Se acho? Ora, as meninas têm que se embonecar e arrumar um namoradinho que valha a pena para divertir-se no cinema, no barzinho, nas festas da igreja e outros locais, como nas quermesses.

Numa certa hora, o Gervásio a chamou e, correndo me disse tchau e foi atender o marido, que é sargento da Polícia. Ele manda e não pede, mas ela já se acostumou e nunca me reclamou dele. São elogios & elogios e, reservadamente, disse-me que na cama é um gigante. Eu gosto, porque acordo geralmente bem contente e pronta para trabalhar e cantar na manhã seguinte. Ligo meu radinho e vou acompanhando as letras e, súbito aprendo a cantar igualzinho a Elza Soares, que tem a voz rouca que nem eu. Um dia vou cantar e a senhora mesmo vai dizer se estou dizendo a verdade. O Gervásio é disciplinado em casa como no quartel e bate o ponto comigo, na entrada, lá pela meia-noite e, de novo, quando começa a clarear, quando as crianças ainda dormem e o galo Pimpão começa a cantar. Desde o primeiro dia de casada foi assim e nunca mudou. Acho que me é fiel! Mas me cuido e até estou fazendo tratamento dos cabelos no Salão Vermelho, o melhor daqui, porque não gosto do meu cabelo muito cacheado. Pintei de chocolate brilhante e ele me elogia muito. Dona Marta, para resumir, Gervásio é o homem que Deus me mandou e me deu quatro filhos lindos, inteligentes e obedientes. Ai de um deles se me responder, que a vara de goiabeira está prontinha atrás da porta. Eles nem gostam de olhar para lá.

Lá foi ela, às pressas, e Natália, talvez com uma pontinha de inveja, já que estava sem namorado, gozou das palavras dela e não concordou que o marido lhe desse duas por noite. Ora de que! Não acredito mesmo, pois comigo isso nunca aconteceu. Será que é apertadinha? Vai ver que é. Disfarçou sua insatisfação, limpando a geladeira. Olha, a senhora vai ter que fazer umas comprinhas, que já estou anotando aqui tudo que falta.

- Certo, Natália, mas quero andar um pouco, pois preciso emagrecer uns quatro quilos, conforme me aconselhou a Dra. Nádia.

Vou caminhar e depois, e as dez faremos as compras juntas, ok? Ela comia uma lasca de cacau (antigo bolo cuiabano, com rapadura, gordura e bicarbonato). O Jalo, vendedor de bolo nas portas das casas, antigamente vendia cacau, bolo de arroz e bolo de queijo. Nem sei como, os bolos dele ainda nos chegavam quentinhos e apetitosos. O chá já estava pronto e a gente comia com gosto. Ah! Cuiabá, como esquecer as boas coisas que tive na infância?!...

Abri a cancela e saí a caminhar por uma estrada por onde nunca havia passado e vendo os diversos matizes de verde, as casinhas pequenas e os chalés mais sofisticados, até que vi um riacho de águas claras. Desci até ele e tirando os tênis e as meias, molhei meus pés e até as pernas. A água estava gelada, mas o choque térmico faz bem. Sentei-me à beira do riacho e fiz a meditação do dia, quando apareceram alguns bois que passaram rente a mim, mas sem qualquer ameaça. Depois veio o vaqueiro e me perguntou se a Negrinha, nome de uma das vacas, não tinha tentado me chifrar, porque era muito brava e não gostava de gente no seu caminho.

- Não, meu senhor, elas passaram como se estivem em plena paz e tampouco me viram.

- Nossa Senhora dos Animais Bravios, que bom que a senhora deve ser uma boa mulher, já que a Negrinha já chifrou um par de gente. Salve Maria, Mãe de Misericórdia, pois estou vendo nos seus olhos que a senhora tem alguma coisa diferente das outras mulheres. Vai ver que é benzedeira ou recebe algum espírito do bem, só pode ser, dona-menina! A Negrinha é uma vaca que lá no sítio ninguém se aproxima dela. Que bom! Deus te salve! Desculpe, mas quero lhe pedir a benção. Nosso sítio é o “Ventania”, a uma légua daqui.

- Deus te abençoe, guie e guarde em seus caminhos. Como é seu nome?

- Edgard dos Ramos e Silva, filho de Brasil da Silva e Selma dos Ramos e Silva, nascidos aqui mesmo no Sítio Ventania, porque quando venta parece que lá a ventania é maior que em outros lugares. Quer ir lá?

- Agora não estou com tempo, porque prometi a minha secretária que íamos ao supermercado fazer umas comprinhas e são vinte p’ras dez. Natália é pontual e dez horas tem que ser dez horas, caso contrário reclama.

- Sabe, dona menina, há um ditado que aprendi com meu avó, o vô Estáquio, que é este: “Na sombra de cachorro, galinha bebe água”. Na certa, ao fazer as compras, a senhora sempre compra umas coisinhas pra ela, não é mesmo? Daí ela ficar com esse faniquito de ir ao supermercado com a senhora. Não custa ajudar aos pobrezinhos, né? Seu nome é...

- Marta de Arruda, jornalista do “Diário de Cuiabá”.

- Intonce a senhora é nhá Marta, que gosta de escrever histórias? Sou assinante do DC e não passa um dia que não leio suas crônicas. Seus escritos saem na chincha, com precisão e seriedade. Mas a senhora é povo de quem?

- Filha de dona Iza Lima de Arruda e Nilo Ponce de Arruda.

- Não, fala dona menina, que estudei na Escola Agrícola de São Vicente, e seu pai era inspetor dos alunos. Numa noite em que fomos roubar abacaxi, mas que frutas mais doces que nem calda, e nos aparece seu Nilo com a ordem de nós passarmos, um a um, com as mãos na cabeça. Queria verificar se algum de nós trazia abacaxi. A gente combinou de amarrar com uns cipós dois abacaxis cada um nos pés e vínhamos arrastando-os cuidadosamente. Daí que pudemos colocar as mãos nas cabeças. Éramos sete. Na manhã seguinte, seu pai sempre acordava cedinho e ia dar uma olhada na plantação, e deu por falta doa vários abacaxis.. Então nos reuniu e saiu com essa, que não posso esquecer, Ora, de que! Vocês carregam as frutas no cu? Porque não vi nenhum abacaxi nas mãos de vocês, só pode ser no cu. Vou dar parte ao Dr. Aurelino dessa audácia. Ah, dona menina como era engraçado seu pai, mas para contar histórias ligadas ao sexo era bom e a gente morria de rir. Então, nada a ver da senhora com ele!!! Tem o nariz parecido com o dele, mas os olhos devem ser como os de dona Iza, que conheci na livraria, lá de Cuiabá. Eita, mulher formosa e bondosa!

- Tenho que ir, faltam apenas cinco minutos e vou ter que apertar os passos. Outro dia a gente conversa mais.

- Na batida, dona Marta, pode chegar no meu rancho no “Ventania” que, pelo menos um cuscuz a senhora há de comer com minha Nina e os seis filhos, todos ainda pequenos. É do segundo casamento, porque a primeira me fez de corno e com meu melhor amigo. Com ela, Benedita Augusta, ficaram três meninas, todas com mais de dezoito.

- Estou indo, seu Edgard, que as horas correm...

- Tô feliz de conhecer a senhora. Sei que na vida “é lê com lê e crê com crê”. Mas não esqueça de dar um pulo no meu ranchinho. Até que é bonito e cercada de roseiras. Fica cheiroso na manhãs, então a Nina corta algumas e enfeita a sala de visita onde estão os retratos da família e os diplomas que tirei em vários curso. A senhora vai ver...

- Tchau... Deixa o baguá (boi selvagem do Pantanal) preso, tá? Tenho medo de chifrada de boi; quero ver se domingo vou conhecer a batuta (boas qualidades) da dona Nina e, se ela me der, de bom grado quero ganhar uma rosas, tá bom?

- Ótimo. Agora fiquei borocochô (tristonho) de dar com as mãos pra senhora. Inté domingo, né, dona Marta?

- Inté. Me mandei a passos largos e já encontrei a Natália de bermuda e camiseta floreada, de tênis, esperando-me na porta com duas sacolas. Liguei o carro e fomos às compras.

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