Um livro que marcou minha vida

Narrado com acontecimentos quase banais com jovem que nada tem de extraordinário, vai-se transformando na mais ousada crônica da juventude deste século. Talvez não o seja para o século XXI.
Sei que tive a felicidade de ao completar 28 anos, ganhar este belo livro que narra acontecimentos normais, acontecidos com um adolescente que não tem nada de extraordinário, porém se transforma na mais acurada e sensível crônica da juventude do século XX. Só os privilegiados o chegaram a ler este livro, que é do norte-americano J. D. Salinger, e tem muitas palavras fortes, que o autor diz com a maior naturalidade, como merda, bosta, porra, droga e outros.
Neste ano – 2006 – a obra completa cinqüenta e cinco anos, pois nasceu em 1951, quando a grande parte dos pais deste século ainda era bebê de fraldas e mamadeiras.
Acho este livro uma obra que me marcou p’ra caramba não só a minha vida, mas a de milhares de jovens. Foi mesmo um marco no longo caminho que os jovens trilhavam e, certamente muitos deles souberam que também tinham direito a voz e a sua própria visão de mundo próprio. Fosse como fosse, como ele, o autor foi expulso de vários colégios e tirava de cada uma a sua experiência para a vida.
Ao entrevistar, em 1978, o jornalista e publicitário Mauro Cid Nunes da Cunha, para o jornal “Diário de Cuiabá” perguntei se entre os seus inúmeros livros havia um em especial que o houvesse marcado. Sem titubear por um minuto respondeu: Naturalmente, cara Marta, O Apanhador no Campo de Centeio”, que garanto que você também leu.
- Li e gosto imensamente dele. Ganhei do mano Hélio Mário, que sabe escolher os livros que me presenteia, como o de Gabriel Garcia Marques – Viver para Contar – que ainda estou lendo, mas é uma beleza!
Mas voltando à obra de J. D. Salinger oferecida a sua mãe, de nome Phoebe, tornou-se um marco na longa estrada que trilhei para provar que tenho deveres e direitos a uma voz e uma visão de mundo própria. Também pintei e bordei e não acho que nada foi ruim, pelo contrário, acredito que vivi aceleradamente como se tivesse 68 X 2 = 136 anos de vida. Já imaginou que boa idade? Tenho muitas experiências e ralei bastante para chegar ao atual momento de minha longa vida de mais de cem anos.
Amigos internautas, se você ainda não leu J. D. Salinger, ligue as suas antenas com o mundo e a globalidade que nos cerca, e o leia devagar e carinhosamente. O livro virou lenda ao longo desses 55 aos e, sinceramente, fico danada da vida em saber que a juventude de hoje gosta muito pouco de ler. São os games, os filmes para DVD, os joguinhos dos celulares e pouca leitura. Luiz Felipe, filho do meu colega Gilberto Magalhães, diz-me: - Tenho preguiça de ler, tia Marta. Dá sono e acabo dormindo.
A verdade é que este raro livro de 1951 tornou-se um mito ao longo da estrada percorrida e o Jerome Dacis Salinger é um dos grandes mistérios da história da literatura. Foi um revolucionário que sabia viver como lhe apetecia. Aquele que o leu detalhadamente, tenho plena certeza, foi influído em seu comportamento durante a juventude e até agora ecoa, e faz parte da cultura da nossa segunda metade deste século de guerras no Oriente Médio.
Jerome conta sobre um fim de semana na vida de Holden Caulfield, 17 anos, de família abastada de New York, numa escola um tanto sofisticada para rapazes, mas ele volta mais cedo para casa por ter sido reprovado em quase todas as matérias. Como tivesse medo de enfrentar seus pais, a mãe era mais delicada e compreensiva, mas leva esporro dela, que até coloca um travesseiro no rosto para não vê-lo e, pouco a pouco, faz uma grande reflexão sobre o que viveu e repassa sua especial visão de mundo e busca ver alguma diretriz para o amanhã. Na eminência de dar com a cara com seus pais, procura alguns amigos da família, pessoas importantes e sérias para sua opinião e tenta lhes explicar a parafernália que passa pela sua cabeça rebelde
É o adolescente que volta para casa ou como na Bíblia Sagrada é a volta do filho pródigo, desobediente e bom vivant, para o qual o pai prepara um banquete com as mais finas louças, toalhas bordadas em linho e as melhores iguarias para saudá-lo por sua volta.
No fim, ele é entregue aos cuidados de um psicanalista que lhe pergunta seguidamente se ele se esforçará para voltar à escola em setembro. Pergunta que ele considera imbecil, pois, segundo diz: “Como é que a gente pode saber o que vai fazer, ate a hora em que faz o troço. A resposta é: não sei. Acho que vou, mas como me que eu posso saber? Juro que é uma pergunta cretina”.
Foi carinhoso e sensitivo ao revelar que sentia saudade de todo mundo que entrou na história de sua vida. (...) Sinto falta até do filha da mãe do Maurice. É engraçado. A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal começa a contar, a gente começa a sentir falta de todo mundo.
Sabe de uma que me acontece, às vezes, sinto saudades do único marido que tive, Marinato, do qual me separei em 1962, quando tinha vinte e dois anos. Pode? Mas são nossos os três filhos que tivemos. O casal que têm filhos fica eternamente unido pelo vínculo dos filhos, é verdade verdadeira. Senti bastante sua morte e até chorei. Era um bom homem, trabalhador, engenheiro agrônomo dedicado à Secretaria de Agricultura e, com Madalena viveram felizes cerca de trinta anos e pouco. Que Deus o tenha!

