Juno e suas amigas de praia

Lá vai ela com seu chapeuzinho branco, vestido próprio para praia e a cadeirinha, para se reunir com as amigas de mais de 30 anos. Todas têm, mais de 60 e a conversa gira em torno dos preços especiais de tal mercado, a peça a ser vista no sábado, o último filme e o problema do condomínio cada vez mais alto. “De Copacabana não mudo – diz Juno – porque moro no mesmo bairro e no mesmo apartamento há 45 anos. A síndica que vai ter que dar o fora, porque nunca vi uma mulher tão incompetente!”
Na manhã ensolarada de inverno-verão, o sol bate nos corpos como uma carícia vinda dos céus, e uma das amigas de Juno pede para fazer uma prece ao SOL. Mesmo sentada, elas fecham os olhos e estendem as mãos em direção ao sol.
Num pequeno espaço de tempo surge uma bela mulher, junto da babá, e três filhos. Um de 15, outro de 13 e a pequenina de 2 anos, foi o que presumi. Traz na bolsa brinquedos para o caçula, uma bola de futebol para os dois maiores que, imediatamente, passam a chutar sem prestar atenção nos demais banhistas.
Juno, como não tem papas na língua, diz: - Ei, garotos, vocês vão acabar por chutar as nossas cabeças. Olha lá, tem um espaço onde poderão jogar futebol. Já são uns oito e mais vocês dois formará quase um time. Não se incomodem, porque daqui a pouco chegarão outros com vontade de jogar futebol.
A mãe, que deve ter uns 38 anos, olha com cara enfezada para Juno e responde:
- Não exagere, porque eles nem têm tamanha força para chutar nas suas cabeças. Tá bem que há um lugar apropriado para isso. Mas que você está se metendo onde não é chamada e quer criar um barraco, não há dúvida.
- Então não vê que aqui só tem senhoras da Melhor Idade?
- Pois acho que deveriam ficar em casa fazendo tricô ou crochê, ou contando historinhas para os netos.
- Veja só, a outra quer dar lição para senhoras da Terceira Idade. Você não tem mãe, minha filha? Pense bem antes de jogar as palavras ao ar.
- Tenho mãe com 64 anos, mas seu divertimento é jogar baralho com as amigas, na sala de jantar. Vez ou outra vai ao Cassino e pede ou ganha, mas não gosta de praia. Sabe por quê? Acha que praia é lugar de pessoas novas e da garotada.
- Quer dizer que sua mãezinha é daquelas velhinhas que gastam todo o salário nas mesas do Cassino? Pobrezinha! Se viesse à praia não perderia tanta grana, além de tomar esse sol bem-aventurado que nos ajuda nos problemas de osteoporose. Não vai dizer que sua mãe não tem osteoporose, por acaso?
- Claro que tem. Até toma uma medicação que tem que andar uma hora, mas prefere fazer caminhada daqui do Posto 5 ao Leme. É enxuta! Viúva, tem até um coronel da Aeronáutica que vive a convidando para jantar fora e ir às peças teatrais. Ela sabe viver e não arma barraco com quem quer que seja.
- Desculpe-me! Vamos fazer as pazes. Como é seu nome?
- Regina Lúcia, advogada, promotora, e meu esposo é industrial do ramo de móveis. É proprietário de uma das casas que estão localizadas na subida de Teresópolis. São móveis de primeira linha e vocês até poderiam ar uma olhada, porque vou dar meu cartão a vocês, pois ele faz um bom desconto para meus conhecidos.
- Dá certo promotora e industrial?
- Nada a ver, por quê? Vocês acham que o casal sendo da mesma profissão dá mais certo? Ledo engano, pois tenho uma vizinha em que os dois são médicos e, às vezes, dá para ouvir os berros dos dois. Pelo menos, a Marcela e o Onofre, sei não, desconfio que não vão ficar casados por muito tempo. Diga-se, que sem querer, no shopping Rio Sul o encontrei de beijos e abraços com uma mulata bem bonita e jovem.
- É casamento de hoje em dia é difícil durar. Minha neta já casou três vezes, aliás, juntam-se e dizem-se casados. A Leda não é fácil! – diz Juno. Fico sem graça, porque tem um filho de cada pai e o interessante é que se dão muito bem. Nos fins de semana, cada uma sai com seu pai e some por aí. Não acho bom tal prática, mas vá dizer a ela que esse negócio está errado para ver a resposta. Não...não...não... Ela mora no Recreio e eu em Copacabana. Nas datas comemorativas sempre aparece com um pacote de bombom suíço. Que delícia! Sou chocólatra, e sei que me faz mal. Mas amo chocolate!
- Taí, empatamos, porque é o que mais o Dácio reclama, quando me vê a deliciar-me com chocolates e as crianças entram no mesmo embalo. Fico um mês fazendo regime, mas de repente passo por uma das lojas de chocolate e não resisto, entro e compro pelo menos uma caixa de “língua de gato”.
- Venha para cá, pois as crianças já se enturmaram com os garotos do futebol, o pequeno monta seus castelos com a areia e os brinquedos. Venha! – repetiu Juno!
- Regina Lúcia pegou sua bolsa de praia, a cadeirinha e uniu-a a elas. Ninguém observava ninguém, mas o papo estava bom.
- Sabe, Regina – posso chamá-la assim? Sou velha mais também tenho um companheiro de mais de trinta anos. O Aderbal foi médico ginecologista, mas hoje está aposentado. Assim que enviuvou, no começo andava tristonho e macambúzio. Foi na farmácia, onde comprava meus remédios que o encontrei, fazendo a mesma coisa que eu. Comprou vitamina C e me recomendou para tomar diariamente, porque ajuda a não pegar resfriado. Aceitei o palpite. Não é que já toma Cewin a mais de 20 anos e é difícil uma gripe me pegar? Mas a tal da vacina que o governo dá nos velhinhos, eu hein? Não tomo de forma alguma.
- Por quê? – perguntou Regina.
- Ora, Lula tem prevenção com os inativos e ia dar injeção para prolongar nossa vida? Du-vi-d-o-dó! Quer é matar os velhos que agora tem vida mais longa. Prefiro pagar para uma firma particular que vende vacinas. Ah! Minha filha se for acreditar nesse verdugo com cara de bode, os brasileiros vão todos para o cemitério. Se nem que já comprei direito a ser cremada, porque não admito que os vermes comam a minha carne. Não há nada melhor que um dia após o outro, porque o Lula da Silva vai ficar velho, se não morrer. Aí que eu quero ver como vai se portar, na Terceira Idade, tanto ele como a Marisa, que é de dupla cidadania. Vai ver vão morar na Europa?!...
- Você, Juno, já pensou em quem vai votar?
- Sim. É na Heloísa Helena, porque o chuchu de São Paulo não tem jeito de Presidente. È devagar! Próprio para as classes A e B, porque não tem achego com a pobreza. A Eloísa fala o que vem na cabeça e pronto! Já imaginou se o Brasil tiver uma Presidenta? Legal pra caramba. Eu vou até dançar na Estudantina para comemorar, claro, com o meu Aderbar de Lemos. O velhinho gosta de dançar e bem!
- Pois eu vou votar no Alckmin, porque o acho um homem sério, de palavras justas e coesas. Não o acho pacato, mas bem-educado. Lá em casa, tanto eu como meu marido vamos dar o voto pra ele.
- E aqui no Rio?
- Ah! Estou com a juíza que teve coragem de enfrentar os bicheiros. Mulher corajosa, não acham? O Crivella é aquele evangélico chato que aposta suas fichas, se eleito, no metrô de superfície. Diz mesmo que vai deixar concluído o metrô para Niterói. Evangélico, sei lá, mas não acredito neles. Os outros, nem me interessa analisar. São todos uns imbecis!
- Nem tanto! Como voto é secreto, fico na minha.
- Que tal falar sobe o problema do Líbano e a Palestina? Leio diariamente as crônicas do Fausto Wolf, que ataca Israel. A bem da verdade, ele nos chama atenção para o perigo chamado cultura, no JB de hoje, sábado. Alerta-nos sobre a interrupção cultural ao ser interrompida pelo poder, e o povo é impedido de se impor culturalmente, ao aprisionarem seu espírito, então o homem se transforma num macaco de imitação, da classe dominante, que o mantém longe das boas escolas, museus, universidades. Aqueles de estômago vazio passam a assimilar porcarias estrangeiras (funk, rap e outras mais) e cantarolam letras de músicas que não sabem o que significa. É o espírito que no difere dos animais. É de cultura que o brasileiro necessita! “O neoliberalismo odeia a cultura porque a cultura formas cidadãos e os cidadãos indagam.” Quanto pior as notícias dos jornais, melhor! Fausto está cansado de clamar pela cultura em todos os ministérios. Pois ela é que molda o caráter do homem e o faz trabalhar em conjunto por um país melhor, já que com ela, ele entende o homem e a sociedade. Veja, vocês, inicialmente a conversa entre nós não foi legal, mas como somos cultas, agora estamos unidas a trocar idéia. È cinema. É teatro. É show! Os ingressos para os de mais de 65 anos custam e metade. Quem de vocês viu “Descoberta das Américas” com o Júlio Adrião. Que monólogo inteligente e que fazia a platéia ficar silenciosa o tempo todo. Esse ator vai longe! Foi até considerado a revelação do ano 2005. Quero ver esse jovem nas grimpas, porque é talentoso!
- Eu vi – disse Juno – e saí de lá arrepiada, pelo talento do jovem ator. Coitado, dizem que em cada peça perde de um a dois quilos. Olha que ele já é magro! Tomara que saiba se alimentar bem! Ainda quero ouvir falar sobre ele em outras peças teatrais. Vai ver a Globo já fez convite para ele entrar nas novelinhas globais. Tomara que não aceite, porque a Globo faz lavagem cerebral na sua gente.
- Está vendo? Uma manhã de praia de sol especial, nossa turma se compreendendo e, para terminar, vou ver o filme sobre a Zuzu Angel, no Roxy, com o maridão. Depois a gente janta fora, joga um bocado de conversa fora e.... Segredo!
Estava na hora do almoço e cada um foi-se arrumando para ir embora. A Juno não esqueceu de convidar a Regina para fazer parte do grupo, como a caçulinha. Dá sorte!
Todos sorriram.


