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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Terça-feira, Agosto 15, 2006

A origem do bloco Seu cu que Brilha.


Conversava ontem com o poeta Wlademir Dias Pino, amigão de longos trechos, oportunidade em que ouvi de sua boca a mais interessante história sobre a provável origem do bloco Seu cu que Brilha, de Santo Antonio de Leverger.

“Num tempo nem tão distante, quando o rio ainda era nosso único caminho, nossa única estrada, o “Porto dos Lampiões” da cidade de Santo Antonio de Leverger era, das redondezas, o porto seguro para atracar as lanchas e navios de pequeno porte. Eles subiam o rio Paraguai, via Corumbá, e lá se aportavam. Eram verdadeiros armazéns flutuantes que traziam em suas prateleiras os mais finos tecidos para senhoritas, rapazes, senhoras e senhores. Vendia-se calça de flanela, camisa de seda japonesa, seda, lese, linho e tricoline (tecido de algodão sedoso e leve, de trama bem fechada), além de remédios, cimento, trigo... estiva em geral. Em contrapartida, carregam óleo de peixe, açúcar, aguardente, rapadura, artesanato, charque, madeira, couro de boi e muito mais.

“Os camarotes, coloridos, lotados de ruidosos passageiros, davam o ar de graça a uma longa viagem fluvial. A cidade, em determinado período do ano, funcionava como verdadeiro entreposto comercial do Estado de Mato Grosso. As mercadorias descarregadas no “Porto dos Lampiões” vinham de caminhão e até de carroças para Cuiabá.

“Em meados da década de 50, aportou naquelas cercanias reluzentes “Buicks” e luxuosos “Cadilacs”, contrabandeados à plena luz do dia. A cidade cobria-se de uma nuvem avermelhada. Mas... o “Porto dos Lampiões” estava com os dias praticamente contados. Diga-se, de passagem, foi o rio que transportou sua própria morte.

“Foi um tempo de fartura, de gostosas guloseimas, de biscoitos importados e grandes bolachas de água e sal que, à sombra de arvoredos, lá pelas cinco da tarde, pais e filhos saboreavam quentinhas da silva, pois saíam dos fornos daqueles armazéns flutuantes de secos e molhados. Dia seguinte, à mesa da manhã do chá com bolo, as crianças os amaciavam com mate queimado na mais pura brasa de angico.

“Bem, logo depois o rio foi paulatinamente substituído pelas rodovias forradas de pedras britadas e encapadas com piche. Por outro lado, tornou-se pachorrentamente mais piscoso e intelectualmente mais maduro e passou a escrever a história de seu próprio tempo, toda arquivada na “Biblioteca Silva Freire”, da Volta Grande.

“O peixe nosso de cada dia bamburrava (inesperadamente se faziam fartas) nas redes de Pedro Faustino e João da Cruz, rio acima, e de Manoel “Redeiro”, rio abaixo. A mesa do caboclo ribeirinho tornou-se mais rica de piraputangas e desovadas pacupevas pós mês de abril. Do antigo “Porto dos Lampiões”, de fato, pouco restou, a não ser pequenos cacaréus, feito ilhotas desordenadamente pequenas, menores que os planetas visitados pelo “Pequeno Príncipe” de Saint Exupéry. Foi descaracterizado, não tanto pela erosão, mas sobremodo, pelo descaso das autoridades administrativas. Isso ainda acontece hoje com nosso patrimônio histórico...

“A bem da verdade, aquelas ilhotas passaram a servir para a gurizada no ponto do equilíbrio matarem bem-te-vis a socos e pedradas, devido ao cio da puberdade que lhes sacolejava os cocorutos (cabeças). Acrobaticamente, a gurizada saltava no rio de ponta-cabeça. Restou do antigo porto o último lance do degrau de pedras cangas, transformado no primeiro por força da erosão. A rapaziada aproveitava para se banhar no fim de tarde, momento em que faziam confidências e conquistas amorosas, da mais excitante libido, ensaboando seus corpos com sabonete “Lifeboy”, que passava de mão em mão. Nos intervalos, os cavalos relinchavam à beira d’água e excitavam cardumes de pacus que ziguezagueavam nas águas mornas do rio Cuiabá nas “calientes” tardes de agosto.

“Um daqueles membros da instigante “Sociedade dos Poetas Mortos”, reunidos em assembléia geral para enforcarem bem-te-vis e sabiás ou soquearem um a um, porque na outra semana era dia de brincar de “Sambô”, espécie de pegador aquático, em que sorrateiramente uma turma de “Negrinhos d”Água” se infiltravam entre eles naquela pândega lúdica de moleques ribeirinhos. Os que não haviam sido convidados, só para sacanear, também iam, inclusive o Zé Raul, exagero de brancura, que aparecia com Marília Gabriela, grandes representantes do mundo subaquático.

“No começo, ao mergulhar, Zéca duvidou ter dado cara-a-cara com o Ezequiel ou Pirula, primos e irmãos do próprio, não tivesse um deles colocado para fora um palmo de língua totalmente enlambuzada da mais pura cor vermelha de picolé de groselha, repetindo que a receita era de dona Olívia de seu Chico Freire.

“Foi um Deus nos acuda dos diabos. Meninos subindo barranco acima, na tentativa de enfiar numa só perna de calça as duas pernas, à moda Saci Pererê. Afoitos e arrebatados, os “Negrinhos d’Água” coreografavam seus mergulhos, enfiando as cabeças para dentro d’água, enquanto deixavam de fora as pernas e os bumbuns reluzentes. Atônitos, barranca acima, ouvia-se a cadência ritmada de bater de dentes e corpos molhados numa sincronia de um verdadeiro bloco carnavalesco.

“Talvez, diz Wlademir, venha daí a origem do bloco carnavalesco “Seu cu que Brilha”. Se é verdade? Sei lá! Perguntem ao Hugo Padilha, Léo Ribeiro, João Afonso, Jonas e Celcita Pinheiro, César Padilha, Sebastião Rubens Aluísio Gálio, Luiz Carlos e Alcina Ribeiro, Péricles, Rui-não Barbosa, Jerônimo “Caxara”, o “Rei Momo do Seu cu que brilha”..

Retorno a Cuiabá


Aquele bafo quente sobe pelo seu corpo e sei que já cheguei a terra onde nasci. O vestido de organdi suíço, como uma vidraça, exibe as minhas pernas da Melhor Idade. Dou um suspiro profundo e digo de mim para mim: ”não estou nem aí para quem não gosta de mim, porque o que me importa é ver meus amigos do coração, tipo Carlinhos, Jejé, Fernando Baracat, a comadre do afilhado que inda não batizei, filho da colega Lauristela, Adyr, João Sebastião, Gervane, Nilson Pimenta, Branca, Maria, Maria do Carmo, Terezinha Arruda e uma porção de gente boa que sabe gostar de mim com todos os meus defeitos e qualidades.”

Distante, vi que o meu irmão – Nilo Ponce Filho – estava no aeroporto só para me receber no aeroporto Marechal Rondon, e ao seu lado o João Pedro, irmão querido e bondoso que teve seus tempos de glória quando era repórter de uma coluna dedicada à juventude cuiabana. Diga-se a bem da verdade, foi o primeiro colunista que se dedicou aos jovens cuiabanos e, numa de suas festas, no Tênis, vi com estes olhos que um dia a terra vai comer, que a fila de carros começava na Avenida Fernando Corrêa até chegar ao clube. Bons tempos que meu irmão viveu e não pode reclamar. Tudo passa. Hoje. O mano Joãozinho (assim nós, irmãos, o chamamos) encontra-se doente e esquecido, mas está vivo e isso é o que importa. Gritou: “É a Marta, aquela sapeca, levada da breca!”

Tão amigo meu sempre foi o Joãozinho que, certa vez uma colunista me pôs na lista das mulheres mais cafonas de Cuiabá. Sinceramente, nem aí, porque ia às festas para escrever as notícias e não para exibir roupas. O João Pedro ficou irritado com aquela nota. Dias depois, na casa do deputado Ubiratan Spinelli e Bia, deu-se um jantar para os colunistas e, naturalmente que todos lá estiveram. As festas da mansão da Bia sempre foram afamadas e bastante comentadas.

Bem, ele chegou conversou com uns e outros e, ao dar de cara com a colunista, disse altivamente:

- Qual a sua petulância de colocar o nome da minha irmã entre as cafonas de Cuiabá? Você não tem moral sequer para falar no nome dela!

Súbito, deu-lhe dois tapas, um de cada lado do rosto, que a moça caiu. Foi um fuá. E todos vieram apartar a briga.

Passados uns dias, a moça escreveu em sua coluna o seguinte: “O tapa que certo colunista me deu, por causa da santinha da sua irmã, foi ótimo para minha saúde, porque fiquei boa da labirintite. Negócio combinado, nunca mais escreverei o nome dela na minha coluna.”

Sei que a moça, na mansão dos Spinelli, ficara estendida no chão e os empregados da casa a carregaram para a rede imperial da Bia, que fica na sala, perto da televisão.

No Natal, sei lá por que, recebi um cartão lindíssimo em que me pedia desculpas. Respondi-lhe: “Você não chegou a me atingir, pois tem razão: sou mesmo cafona, porque não me importo com roupas bonitas mas em melhorar minha vida interna e estar em paz comigo, com Deus e com a humanidade. Não se importe e peço desculpas pelo gesto impensado do meu irmão. Feliz Natal! Marta”

Ao João Pedro enviou outro cartão, no qual se desculpava por ter me colocado na lista de cafonas, pois realmente como jornalista “não era obrigada a estar chique e sim escrever a notícia.” – justificou. Me perdoe, João Pedro! E que você tenha um Feliz Natal e um próspero Ano Novo!

Sei que em quase todas as festas de Cuiabá, me acompanhava o mano João Pedro, crítico por natureza e que muito me fazia rir. Conhecíamos quase todo mundo e dávamos uma volta pelo salão cumprimentando um a um.

Uma mulher de cabelos vermelhos, dessas que vem dos estados que já não tem mais mercado de trabalho, disse-me jocosamente:

- Então, você é a Marta? Realmente seu mau gosto está na cara. Por que não se veste com maior sofisticação. Tenho uma boutique onde te posso botar nos trinques. Toma meu cartão, que ninguém vai mais amolar você. É a boutique “Paraná em Mato Grosso”

- Peguei o cartão e o rasguei em quatro e deixei sobre a sua mesa. “Saiba, além de cafona, também sou sangue quente de cuiabana e não levo desaforo para casa. Você pensa que esse cabelo vermelho combina com a sua idade? Negatofi! Calculo que esteja na faixa dos 60 anos e deveria ser mais recatada e usar uma cor adequada com a sua idade. Não mexa, comigo, viu? A outra é colunista e filha da terra, e você de onde veio?”

- Sou do norte do Paraná, de uma cidade chamada Uraí, onde tem muitas plantações de café e bastante japoneses. Só vim para cá, porque me casei com um filho de Rondonópolis, que foi fazer negócios na minha cidade. Ele é fazendeiro e como não tivemos filhos, abri a boutique. Perdoe-me por mexer com os seus brios!

- Segui em frente, mas com raiva daquela galega de cabelos vermelhos.

Mais adiante, um cuiabano que a tudo ouviu, fez-me sentar em sua mesa, contando-me interessante história: “Marta, vou-lhe contar isto, mas que fique entre nós (ele, a esposa, João Pedro e eu). Dei uma festa para comemorar os 21 anos da minha filha e mandei convite aos amigos. Você recebeu, não? De fato, recebi, mas estava com crise de asma, e não pude comparecer. Pois é, essa senhora branca de cabelos vermelhos, que não sei a origem e nem quem é, compareceu toda chique e sentou-se numa das mesas. Nós havíamos colocado os nomes nas mesas e, em seguida, chegou o casal de amigos dono daquele lugar. Educadamente nos procurou e disse que na mesa dele estava sentada uma gringa.”

“Pois bem, subiu uma quentura na minha cabeça, então me encaminhei para ela e perguntei-lhe: “Como é seu nome, de onde veio e porque está aqui, onde não foi convidada?”

De branca a mulher ficou roxa e gaguejando me disse que o Gama, meu compadre, a havia convidado.

O Gama estava lá, então o chamei reservadamente e perguntei se tinha qualquer conhecimento com aquela senhora de cabelos cor de fogo.Olhou demoradamente para ela, então me disse: - Só se for de outra encarnação! Não vi e nem quero ver essa biscatona. Deve achar que os cuiabanos são banana e se enfeitou toda e veio à festa de sua filha. Chia aqui, por que não a manda embora?

- É o que farei através dos garçons.

Alcides, o mais desembaraçado, tomou a missão e veio até sua mesa. Disse delicadamente:

- Por favor, a senhora não foi convidada e deve se retirar de imediato. Não aceitamos pessoas estranhas na festa, pois se trata de uma familiar e de amigos conterrâneos. Além disso, o Gama revelou que nunca a viu mais gorda e sequer com esse cabelo cor de fogo. Por gentileza, ofereceu-lhe o braço e a levou até o portão.!

- Que horror! É uma mulher perigosa, hein? Como foi fazer isso?

- Morreu o assunto. Página virada. Mas quando dona Iza vai chegar? Soube pela coluna do Carlinhos que vai comemorar a festa de aniversário na casa do Nilo. Estarei lá, seja convidado ou não, porque somos quase parentes. Não liga, Marta, porque esse pessoal morre de inveja de quem faz alguma coisa, pois eles fazem absolutamente nada a não ser jogar pedradas nos outros.

Fiquei sentida, não há dúvida, mas passou logo, ao me encontrar com Jejé, a contar as suas histórias mirabolantes. Revi Dr. Eduardo de Lamônica e uma porção de médicos do grupo UNIMED, como a Ivana (tão bela) e o marido Kamil Fares, casal do qual gosto demais. É gente muito especial, de quem gosto. Eita, doutores excelentes, educados e humanos! Reencontrei o Vicente Vuolo que me chama de quase ex-cunhada, porque na mocidade namorou minha irmã Dely. Leide, sua esposa chegou a me dizer, longe do marido: “Dely foi a mulher que o Vicente mais amou!” Até me admirei daquela confissão. Por o fez? Eu sei lá!

O jantar do buffet da Elza Biancardini tinha o gosto da comidas dos deuses e as sobremesas eram todas cuiabanas: furrundu, doce de figo e de laranja e um manjar branco com ameixas.

O problema é que só podia ficar em Cuiabá durante 15 dias, pois foi na época em que trabalhava na Petrobrás e o salário era bom demais. Trabalhei quatro anos ali e meu chefe era Dr. Maurício Latgé. Que engenheiro educado e honesto! Fez a refinaria de Campinas, para onde me mandou uma vez para conhecer.

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