A origem do bloco Seu cu que Brilha.

Conversava ontem com o poeta Wlademir Dias Pino, amigão de longos trechos, oportunidade em que ouvi de sua boca a mais interessante história sobre a provável origem do bloco Seu cu que Brilha, de Santo Antonio de Leverger.
“Num tempo nem tão distante, quando o rio ainda era nosso único caminho, nossa única estrada, o “Porto dos Lampiões” da cidade de Santo Antonio de Leverger era, das redondezas, o porto seguro para atracar as lanchas e navios de pequeno porte. Eles subiam o rio Paraguai, via Corumbá, e lá se aportavam. Eram verdadeiros armazéns flutuantes que traziam em suas prateleiras os mais finos tecidos para senhoritas, rapazes, senhoras e senhores. Vendia-se calça de flanela, camisa de seda japonesa, seda, lese, linho e tricoline (tecido de algodão sedoso e leve, de trama bem fechada), além de remédios, cimento, trigo... estiva em geral. Em contrapartida, carregam óleo de peixe, açúcar, aguardente, rapadura, artesanato, charque, madeira, couro de boi e muito mais.
“Os camarotes, coloridos, lotados de ruidosos passageiros, davam o ar de graça a uma longa viagem fluvial. A cidade, em determinado período do ano, funcionava como verdadeiro entreposto comercial do Estado de Mato Grosso. As mercadorias descarregadas no “Porto dos Lampiões” vinham de caminhão e até de carroças para Cuiabá.
“Em meados da década de 50, aportou naquelas cercanias reluzentes “Buicks” e luxuosos “Cadilacs”, contrabandeados à plena luz do dia. A cidade cobria-se de uma nuvem avermelhada. Mas... o “Porto dos Lampiões” estava com os dias praticamente contados. Diga-se, de passagem, foi o rio que transportou sua própria morte.
“Foi um tempo de fartura, de gostosas guloseimas, de biscoitos importados e grandes bolachas de água e sal que, à sombra de arvoredos, lá pelas cinco da tarde, pais e filhos saboreavam quentinhas da silva, pois saíam dos fornos daqueles armazéns flutuantes de secos e molhados. Dia seguinte, à mesa da manhã do chá com bolo, as crianças os amaciavam com mate queimado na mais pura brasa de angico.
“Bem, logo depois o rio foi paulatinamente substituído pelas rodovias forradas de pedras britadas e encapadas com piche. Por outro lado, tornou-se pachorrentamente mais piscoso e intelectualmente mais maduro e passou a escrever a história de seu próprio tempo, toda arquivada na “Biblioteca Silva Freire”, da Volta Grande.
“O peixe nosso de cada dia bamburrava (inesperadamente se faziam fartas) nas redes de Pedro Faustino e João da Cruz, rio acima, e de Manoel “Redeiro”, rio abaixo. A mesa do caboclo ribeirinho tornou-se mais rica de piraputangas e desovadas pacupevas pós mês de abril. Do antigo “Porto dos Lampiões”, de fato, pouco restou, a não ser pequenos cacaréus, feito ilhotas desordenadamente pequenas, menores que os planetas visitados pelo “Pequeno Príncipe” de Saint Exupéry. Foi descaracterizado, não tanto pela erosão, mas sobremodo, pelo descaso das autoridades administrativas. Isso ainda acontece hoje com nosso patrimônio histórico...
“A bem da verdade, aquelas ilhotas passaram a servir para a gurizada no ponto do equilíbrio matarem bem-te-vis a socos e pedradas, devido ao cio da puberdade que lhes sacolejava os cocorutos (cabeças). Acrobaticamente, a gurizada saltava no rio de ponta-cabeça. Restou do antigo porto o último lance do degrau de pedras cangas, transformado no primeiro por força da erosão. A rapaziada aproveitava para se banhar no fim de tarde, momento em que faziam confidências e conquistas amorosas, da mais excitante libido, ensaboando seus corpos com sabonete “Lifeboy”, que passava de mão em mão. Nos intervalos, os cavalos relinchavam à beira d’água e excitavam cardumes de pacus que ziguezagueavam nas águas mornas do rio Cuiabá nas “calientes” tardes de agosto.
“Um daqueles membros da instigante “Sociedade dos Poetas Mortos”, reunidos em assembléia geral para enforcarem bem-te-vis e sabiás ou soquearem um a um, porque na outra semana era dia de brincar de “Sambô”, espécie de pegador aquático, em que sorrateiramente uma turma de “Negrinhos d”Água” se infiltravam entre eles naquela pândega lúdica de moleques ribeirinhos. Os que não haviam sido convidados, só para sacanear, também iam, inclusive o Zé Raul, exagero de brancura, que aparecia com Marília Gabriela, grandes representantes do mundo subaquático.
“No começo, ao mergulhar, Zéca duvidou ter dado cara-a-cara com o Ezequiel ou Pirula, primos e irmãos do próprio, não tivesse um deles colocado para fora um palmo de língua totalmente enlambuzada da mais pura cor vermelha de picolé de groselha, repetindo que a receita era de dona Olívia de seu Chico Freire.
“Foi um Deus nos acuda dos diabos. Meninos subindo barranco acima, na tentativa de enfiar numa só perna de calça as duas pernas, à moda Saci Pererê. Afoitos e arrebatados, os “Negrinhos d’Água” coreografavam seus mergulhos, enfiando as cabeças para dentro d’água, enquanto deixavam de fora as pernas e os bumbuns reluzentes. Atônitos, barranca acima, ouvia-se a cadência ritmada de bater de dentes e corpos molhados numa sincronia de um verdadeiro bloco carnavalesco.
“Talvez, diz Wlademir, venha daí a origem do bloco carnavalesco “Seu cu que Brilha”. Se é verdade? Sei lá! Perguntem ao Hugo Padilha, Léo Ribeiro, João Afonso, Jonas e Celcita Pinheiro, César Padilha, Sebastião Rubens Aluísio Gálio, Luiz Carlos e Alcina Ribeiro, Péricles, Rui-não Barbosa, Jerônimo “Caxara”, o “Rei Momo do Seu cu que brilha”..


