Adamastor só pensa na ucia.

Adamastor vivia na uciêza e grande parte de guris e gurias fogem de sua companhia, pois só repete besteiras. Naquela noite, no Jardim Ipiranga falava em voz alta, contando os dedos: minguinho, seu vizinho, pai de todos, prova bolo e mata piolhos, com a mão estendida para quem passasse e quisesse ver.
Netinho, filho do farmacêutico, aproximou-se dele e lhe perguntou o porquê de estar dizendo os nome dos seus dedos:
- Então, com qual deles eu tiro a meleca do nariz?
- Sei lá! Você que deve saber, pois o nariz é seu.
- Com o prova bolo, seu tolo, pois a meleca é salgadinha. Você já provou?
- Está me achando com cara de grocotchó? Sou moço sadio que tenho mais o que fazer do que isso aí.
Li outro dia no Almanaque do Pensamento que Isaac Newton falou que a existência do dedão era prova suficiente de que Deus existe. O Pai de Todos é aquele que se opõe aos outros dedos.. Na hora em que Lisandro juntou a ponta do dedão ao indicador, delicadamente, para segurar um besouro ou mesmo matar um piolho, o homem das cavernas passou a integrar a ordem superior dos mamíferos. Daí aprendeu a usar as patas para deixar as mãos livres.
- Por que você está com idéia nos dedos e as mãos? – indagou Netinho.
- Sabe, andei lendo “Civilização e Cultura” do nordestino Luiz da Câmara Cascudo, porque mamãe me pôs de castigo para ler esse livro e, em certa hora, li sobre a mão.
São palavras dele: “A mão terá significado inumerável. Beijar a mão é obediência. Os reis costumavam dar beija-mão. Apertá-la, agitá-la no ar, é saudar. Tê-la por mis tempo cerrada é pacto, compromisso, aliança. Tocar na mão é assistência, demanda de apoio. Pela imposição das mãos consagra-se a hóstia na missa e o diácono ordena-se presbítero do culto cristão. Mão é soberania, poder, autoridade. Mão da Lei. Mão do Rei. Mão da Justiça. Pedir a mão em casamento...”
- Você não falava sobre os dedos?
- Ora, deixe pra lá os dedos, que vou te contar algo que você não sabia. Garanto!
- Fale...
- A primeira medida que teve no mundo foi o pé e ainda hoje continua calculando as alturas do firmamento e os abismos do mar. Com a deslocação do andar, o homem ficou tão impressionado com seu corpo. Foi surpreendente a revelação, ao identificar o movimento dos dedos das mãos e dos pés.
- Onde está aquele Adamastor que vivia falando besteiras?
- Mudei, ora bolas, só porque mamãe me obrigou a ler este livro de Câmara Cascudo, que descobriu que “o corpo humano mede o mundo”.
- E os dedos, alem de você tirar meleca do nariz?
- Dedos ou “digitus’ foi medida romana. Por isso que antigamente, nos armazéns, o comprador pedia “quero cinco dedos de arroz”. Segundo Cascudo, o foi o primeiro instrumento de escrita no mundo. O polegar, o primeiro alisador e modelador cerâmico. As impressões digitais e as unhas foram as primeiras decorações nos vasos do período neolítico.
- Porque tanto papo sobre dedos e mãos, Adamastor? Onde você quer chegar?
- É que “uma mão lava a outra” e eu te peço para me dar a mão e pedir à mamãe que me tire deste castigo. Não agüento mais!!!
- O que tenho que fazer?
- Vá lá em casa e diga para a mamãe que estou ficando erudito de tanto ler Câmara Cascudo e, que se continuar com esta leitura, vou acabar no Pinel. Preciso sair daqui e, no jardim, levantar as saias das meninas para ver a cor das calcinhas. Tem até uma empregada lá de casa, a Vicência, que me carrega para sua cama de noite e, fico zaranzado, porque a moça faz de tudo. De madrugadinha, ela me põe novamente em minha cama, mas amanheço amarelo, e mamãe cismou que estou com vermes. Cruzes! Quer me dar óleo de rícino, já pensou que amargura? Vou pedir à Vicência para me carregar para a sua cama só uma vez por semana. Que a mulher é fogosa demás. Contou que aprendeu fazer besteira na casa de um antigo patrão, de onde fugiu e veio parar aqui em casa. Gosta de beijar o troço e me ensina cada coisa de outro mundo. Pega o dedo pai de todos e táca na minha bunda. A molher é louca de pedra. Já estou ficando fraco e nem agüento mais estudar. Eita, Vicência que vive na ucia!!! Ela me contou que nasceu no Gatinho, onde os garimpeiros arrancam diamante e outras pedras preciosas. Aos 13 anos, a tia dela, dona de um puteiro, a vendeu ela para um bruto de homem, mas carregado de diamantes, e a pobrezinha quase morreu. A pedra que Varejão, o homem nojento, deu para sua tia, ela nunca vi. Foi assim que perdeu a virgindade. Mas a mãe dela ficou sabendo e deu uma surra na irmã, e a mandou morar em Cuiabá. De que valeu? O seu Pedrinho vinha dormir com ela na rede, toda noite. Ele até lhe deu uns presentes: vestido, calcinha, soutien, saia, calça comprida, blusinhas e até um perfume.. Mas também tacou uma doença feia na pobrezinha, que mamãe disse se chamar gonorréia. Que nome mais feio! Depois que vovó a levou a um médico, nosso parente, e ela tomava umas injeções doídas para caramba, foi ficando boa. No último exame, não deu nenhuma cruzinha.Então, passou a me usar...
- Sai dessa! Você precisa estudar, e aquele que não aprende nada não tem futuro. Seu pai é dono de armazém, mas sabe lá se você vai ter vontade de ser comerciante?
- Acho que é urucubada, porque a minha cabeça está cheia de besteira e não posso ver uma mulher, nem que não seja tão bonita, que imagino estar com ela na minha cama. Xia só, não tenho culpa, mas outro dia em que fui levar umas compra na casa de dona Zezé, a mulher me agarrou com força e me pôs na sua cama. Deus que me livre! Eita.uciêza! Acho que ela pensa que sou quarta-feira, porque depois me deu um prato de cangica com coco e amendoim e, me avisou que nas sextas-feiras o seu Josias vai para fazenda e só volta domingo à noite. Até me prometeu dar um dinheiro bom, se eu voltasse lá novamente.
- Tá louco! De repente o marido volta, de chupetão, e te mata. Olha, eu conheço bem seu Josias e ele não é mole! Não vai querer ser corno! Ele é variado como a mulher, que fez um enfeite de um chumaço do pêlo do marido pregado num pedaço de ouro, que é como e fosse uma medalha que usa no pescoço. Disse que dá sorte.
- Voltando àquele assunto de que uma mão lava a outra, dá um volteio na praça e dispois chega lá no “Armazém Aquarela do Brasil”, e pegue a velha de jeito, que ela tem grande admiração e respeito por você, Netinho! Tenho certeza que deste castigo vai me tirar! Cru\ credo! Daí, eu vou ver se a Vicência esta fazendo uma comida bem gostosa. Eita, Vicência! É zarolha, mas uma gata não geme tanto como ela. Vai depressa! Voe para lá, Netinho!
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Chupetão = supetão, de repente.
Dedo pai de todos e táca = o dedo maior e enfia.
Demás = demais, muito.
“Digitus” = digitação.
Dispois = depois.
Encasquetado = pensar em uma única coisa.
Grotchó = pessoa mole, doente, desnimada.
Indicador = é o dedo maior, o pai de todos.
Minguinho, seu vizinho, pai de todos, prova bolo e mata-piolhos = brincadeiras com os dedos das mãos: minguinho (o menor) seu vizinho ( aquele que o segue), pai de todos (o maior de todos), prova bolo (o anterior ao mata-piolho) e mata-piolho (o mais gordinho de todos) Molher = mulher
Quarta-feira = maluquinho, sem juízo perfeito..
Tacou = transmitiu, passou.
Ucia = tara por sexo.
Uciêsa – vontade de fazer sexo.
Urucubada = macumba forte.
“Uma mão lava a outra” = um faz favor ao outro e vice-versa.
Pinel = hospital de malucos.
Quarta-feira: Um idiota.
Variado: Agitado, aloucado, nervoso, alterado
Viciada: Fêmea que está no cio.
Voe para lá: Vai rápido para lá.
Voltear: Passear.
Xia só! – Espia só!
Zaranzado = tonto, desesperado.
Zarolha = vesga.

