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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

Paisagem inesquecível.


Pudesse eu revê-la todos os dias e seria um presente dos deuses para mim. Foi em Barão de Melgaço, junto com meus familiares: Edmundo, Dely, Desirée, Giselle, Simone e Lucas, num tour de relembranças da mana Dely, que não vinha a Mato Grosso por vários anos. Ela estava deslumbrada em rever sua terra amada, porque mora em Curitiba – PR.

Como sempre meu sono é de quatro horas e acabou! Não gosto de ficar rolando na cama, então saí da bela casa da Terezinha Domingues, que me agraciou a ficar alguns dias hospedada em sua mansão. Desci o morro em direção ao centro da cidade.

As senhoras e moças (garis) varriam as ruas e, ao mesmo tempo cantavam canções de siriri. Que belo som meus ouvidos ouviram e senti desejo de cumprimentá-las. Foi o que fiz e, uma delas de nome Tereza Lúcia, abriu a garrafa térmica e me ofereceu um cafezinho, que estava quentinho e gostoso. Também me ofereceu umas torradas, que disse ser feito pela sua mãe, e provei uma. Um sabor dulcíssimo. Agradeci e já ia seguindo minha caminhada, quando ela me perguntou:

- A senhora é gente de quem?

- Sou da família Ponce de Arruda, que foi dono da Usina das Flechas.

- Virgem Nossa! Meu pai está velhinho, mas foi maquinista das Flechas. Quer ir conhecê-lo amanhã? Moro aqui pertinho. Meu nome é Tereza Lúcia, mas me deram o apelido de Dondoca. Se a senhora disser meu nome ninguém vai saber quem é, mas se falar Dondoca, aí tudo que é povo daqui me conhece. Eles acham que sou muito enjoada e me apelidaram de Dondoca. Nem liguei.

- Está bem, venho aqui em frente deste bar, amanhã, depois das duas da tarde, e a Dondoca me leva à casa do seu pai.

- Isso mesmo, vou esperar a senhora, que não vai me dar bolo!

- Pode ficar sossegada, que quero conhecer o seu pai.

- Vai gostar dele, porque o homem tem histórias e histórias pra contar.

- E como é seu nome, dona?

- Marta Arruda.

- Tá bem, Marta, tenho que continuar a varrer até o final deste quarteirão, mas amanhã fica combinado de a senhora ir tomar um guaranazinho com a gente dos Oliveira e Silva.

- Até logo! Senão vou atrapalhar seu serviço.

Me virei em direção à nascente do Sol e fiquei embasbacada com a beleza daquele céu. Não era só dourado, mas era colorido de tangerina, azul esverdeado e uma faixa cor-de-rosa pink. Não conseguia tirar os olhos daquela paisagem especial. Será que aquele amanhecer foi aberto só para mim? Não. É muita imaginação pensar dessa maneira... As árvores à beira do rio, verdinhas verdinhas, os barcos parados à margem do rio, alguns homens (pescadores) conversavam sobre a possibilidade de jogarem as redes e trazerem uma porção de pacus, pintados, bagres e outros peixes.

- Vai ser um dia de riqueza para nós! Vamos vender lá em Cuiabá!

Novamente olhei para o céu e fiquei sem mexer a cabeça, paralisada com tamanha beleza. Ao lado do rio, algumas árvores floridas se abriam como se dessem salvas ao Rei Sol. Que manhã divina: e pensei em sair a voar, voar, voar... Quisera alcançar aquele céu fenomenal. Se eu fosse uma garça, ah! Se eu fosse uma garça, minhas asas se dirigiriam até perto daquela paisagem que nunca vira antes. Nisso, vi passar no céu diversas garças. Que beleza, Meu Deus!

Barão de Melgaço – devo-lhe esta saudade de uma beleza que ainda não revi. Ah! Se pudesse a congelava e guardava para ver nas horas da solidão. Certamente, a reveria a hora que me desse na telha. Quando alguém me aborrecesse, eu abriria a paisagem e ficaria feliz pelo dia todo.

Vi alguns pés de tarumãs com seu cheiro adocicado e, fui andando para debaixo dele, e comi alguns tarumãs, roxinho e maduro. Deliciei-me com dezenas deles. Desde pequena gostava de comer tarumãs, frutinhas desprezadas pela maioria.

Súbito, Dondoca me aparece a sorrir e com uma bandeja nas mãos.

- O que é isso, Dondoca?

- Mamãe fez bolo-de-arroz e eu disse pra ela que ia trazer para a senhora provar, porque ela é mestra nos bolos da nossa terra. Também fez bolo-de-queijo e estão quentinhos. Fez um chá de erva doce que temperei com mel de jati, porque notei que a senhora tem algo no peito. É asma?

- Como foi que você percebeu?

- Ora, dona, seu peito tá chiando. Tenho uma vizinha que sofre com essa doença, mas a senhora vai ficar boa, porque vou pedir para Nossa Senhora de Barão de Melgaço, que é uma santa milagrosa!

Enchi a caneca de chá e provei dos bolos, primeiro o de arroz. Inacreditável, mas estavam tão gostosos que se diluíam na minha boca. Que gostosura, Dondoca!

- Prova do bolo-de-queijo, que está mais gostoso ainda!

- Provei e senti o sabor divino do queijo do Rio Abaixo. Quem fabrica os queijos?

- Nós mesmos, lá de casa. A gente sabe fazer de um tudo. Sei lá, a senhora tem um jeito de gente boa e quero lhe agradar o melhor que puder.

- Boa e gentil é você, Tereza Lúcia (Dondoca) de Oliveira e Silva. Vou-lhe dar um presente que trouxe na mala, porque não quero ser esquecida por você, que mais parece uma santinha.

À tarde, fui ao encontro marcado, onde já me aguardava vestida de amarelo, cabelos presos e um broche: um violão. Sapato: chinelo-de-dedo. Mas também vim à vontade, de bermuda branca e blusa azul, sapatos: chinelo-de-dedo. Sorriu ao ver que estávamos de chinelos iguais. Vamos que papai é nervoso e já está prontinho para lhe receber.

Era uma casa de porta e três janelas, pintadinha de cal e parecia ser bem limpinha. Na porta, num jardinzinho nasceram umas flores que desconhecia, mas me abaixei e cheirei. Que perfume gostoso!

Entramos. Ela me apresentou ao Sr. Antonio Benedito de Oliveira e Silva, ex-trabalhador das máquinas da usina.

- Então é a senhora é gente dos Ponce de Arruda? Filha de qual deles?

- Nilo, o mais velho.

- Olha dona, conheci de más seu pai. Era bom, mas quando dava uns ‘repentes” virava bicho, e a gente procurava ir pro mato, para ficar bem longe dele.

Ao lado dele estava um senhor de seus quarenta e poucos anos, que me chamava a atenção. Eu conheço esse homem? Será? Não conseguia mesmo tirar os olhos dele. Mas fui entrevistando seu Antonio Benedito, o qual me contou a triste história da escravidão na Usina. O mais perverso, me desculpe à senhora, mas siô Nilo. Deus que perdoe! Sua mãe era uma santa ao lado dele. Era dona Iza, não é?

- Papa era doente, seu Antonio Benedito. Muito doente, mas não foi tratado. Mamãe é dona Iza, muito boa e querida, não acha?

- Era uma santa e acredito que siô Nilo era doente da cabeça.. Vou preparar um guaranazinho ralado na hora pra senhora, tá bom? Gosta de guaraná?

- Sim, tomo todos os dias.

Aproveite a ausência do velhinho e me dirigi ao senhor que estava sentado do seu lado, e indaguei:

- É seu pai?

- Bem dizer, é dona-menina! Foi ele que me criou e me deu escola, e de um tudo. Mas a senhora vai levar um susto, porque sou seu irmão. Meu pai é siô Nilo.

Abraçamo-nos. Dei beijos no seu rosto. Era a cara idêntica a do meu pai.

Ao trazer o guaraná, seu Antonio Benedito, sorriu. Deu-me o guaranazinho, numa bandeja de prata, e depois falou: - Já sei, o Orestes contou que é seu irmão, não foi?

- Sim, e fiquei muito contente de ter mais um irmão, o Orestes, que vou convidar para conhecer minha casa, em Cuiabá. É a cara do papai! Bem que eu olhava para ele e algo me dizia que já o conhecia de algum lugar. Gosto de você Orestes!

- Também eu da senhora!

No dia seguinte, seguimos de lancha para a Usina das Flechas, hoje fazenda de um pessoal muito rico, sírio-libanês, que nos deu licença para rever a ex-Usina. A visita foi curta, mas deu para rever muitas coisas, como a mesa de jantar que foi da vovó Adelina, em madeira de peroba. Velhinha, mas firme enfeitando a sala de jantar.

Que saudades de um tempo que não vivi, mas aquela bela paisagem gravei na máquina da memória e, vez por outra, ela chega devagar e me faz mais feliz. Saudades de Barão de Melgaço! Saudades de Dondoca! Saudades do mano Orestes, com quem nunca mais me encontrei.

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