Eloy e Jarbas morreram de rir

Os dois primos ficaram a sós no mundo, pois a parentela foi morrendo, morrendo, morrendo... Sobraram só os dois filhos de duas irmãs: Honorina e Zélia. Ambas também eram unidas e montaram um ateliê de costuras. Faziam barra de saias e de calças, consertavam roupas apertadas, colocam zíper, enfim não eram capazes de deixar o freguês ir embora sem aceitar a encomenda.
Como morassem na mesma casa, Jarbas e Eloy eram como irmãos e se davam muito bem. Jarbas era bom de matemática; Eloy de português. Na hora de fazer os deveres de escola, trocam informações. Sequer brigavam, pois eram unidos mesmos. Ai de quem falasse mal de um deles, aí saía fogo para todo lado. O pessoal já sabia e procurava não mexer com os dois.
A primeira a falecer foi dona Honorina, vítima do coice de uma vaca brava. Quebrou os braços, as pernas e ficou em falar com a pancada na cabeça Ficou no hospital uma semana, mas não suportou e morreu na noite de segunda-feira e foi enterrada na terça, às 4 horas, no Cemitério Cidade dos Anjos.
Acredito que Zélia sentiu tamanha falta da irmã que, mais um ano se passou, e sofreu um infarto que a matou na hora. Também foi sepultada no jazigo da família Ferreira Duarte, que seus pais lhes deixaram de herança. Era todo de mármore de carrara.
Jarbas e Eloy foram envelhecendo e nem perceberam. Os dois se queriam muito e compartilhavam de todos os trabalhos de sapataria. Eram sapateiros caprichosos e os mais afamados da cidade. Um sempre ao lado do outro, na feira, no supermercado, na igreja, nas cerimônias cristãs, nas missas e até nos enterros dos amigos. Jarbas completou 76 e Eloy 73, o que quer dizer que a diferença de idade entre eles era de apenas três anos.
Viviam tranqüilos e uma vez por semana, aos sábados, Jussara fazia a faxina no casarão. Chegava as 7 e saía às 19 horas, tais os muitos trabalhos a serem feitos. Na saída, Jarbas pagava, e ela ainda dizia: “Deus lhe pague!”
A casa ficava cheirosa e ela colocava no meio da mesa um bouquet de rosas que Eloy plantou no jardim. Havia rosas vermelhas, brancas, amarelas e outras. Jussara escolhia as brancas para que houvesse paz naquela casa.
Sem interesses, sem rancores, sem fofocas, os dois estavam na Terceira Idade, inventada de uns anos para cá. Se um fritava os ovos, o outro fazia o arroz, e assim vivam de comum acordo.
Nem um, nem outro quis casar, porque achavam muito problemático esse negócio de unir-se a uma mulher diferente deles. Qual seria seu temperamento? O que gostaria de ter? Afinal das contas, como eram homens, sempre nos domingos eram visitados pelas amiguinhas Miçanga e Laura, moradoras do Despraiado, e que conheciam desde a época em que suas mães eram vivas. Miçanga ficava com Jarbas; Laura, com Eloy. Mas cada casal se trancava em seu quarto e era um silêncio enorme. Ninguém gemia ou dava gritinhos de ai...ai...ai... Mas após umas três horas, cada casal deixa o quarto, bem vestidos e cheirosos, para tomar o chá das cinco. Em geral, havia bolo de passas, torradas, bolo-de-arroz e bolo-de-queijo, além de um pote de patê de galinha, especialidade do Jarbas, de quando serviu o exército e trabalhava na cozinha.
Sem filhos, jamais reclamaram a alguém de não deixar descendência, porém foram ao Cartório e doaram o casarão para o Abrigo dos Velhos, que era deficitário.
Com o dinheiro ganho na sapataria dava para ir levando a vida e, plácidos e em paz, de vez por outra presenteavam as moças com cortes de vestidos, que a mãe delas cozia. Os dois tinham três pares de roupas, meia dúzia de cuecas, camisas de algodão, meias de algodão e dois pijamas. Para o inverno, bastava um casaco preto do Eloy, e um cinza do Jarbas. Os pijamas, enquanto usavam um deles, as moças lavavam o outro e passava com amor e carinho.
Um dia, Miçanga perguntou a Jarbas:
- Por que você não casa comigo e eu venho cuidar de vocês?
- Sabe, Miçanga, fiz uma promessa a São Benedito de jamais casar e tenho que cumprir. Não tá bom assim, a gente se encontra aos domingos e faz amor com capricho? Quem me pariu não era besta! E ela me aconselhava a nunca me casar.
- É. Tem noite que perco o sono com desejo de estar nos seus braços para namorar... Só aos domingos é pouco.
- Que nada! Já estamos assim há tanto tempo! Não invente história de casório, sim? Ou então serei obrigado a terminar o namoro com você, pelo amor de São Benedito!
- Tá bem, mas tem um caboclo aí de nome Durval que já me falou em casamento e ele está sabendo do nosso caso.
- Ora, se você preferir o Durval, eu vou ficar abatido mas aceito, se for melhor para você.
- Nada! Vou ser sua sempre aos domingos! Que o Durval vá procurar outra, porque já conheço palmo a palmo do seu corpo e sei o quanto é gostoso ser sua e você ser meu!
Tempo passando e a velhice enrugando cada vez mais a pele dos primos.
Além dos domingos com as moças, uma de 50 e a outra de 56 anos, viviam no vazio e se moviam lentamente como as cobras. Um e outro, com o tempo, foi ficando igual ao outro, como irmãos gêmeos. Ninguém identificava quando era Jarbas ou Eloy. Talvez até eles já não o soubessem.
Porém, como em tudo há um porém, numa manhã de ventania furiosa, um jornal entrou pela janela do quarto de Eloy, que começou a ler as notícias linha por linha.
- Escuta aqui, Jarbas, uma menina de menos de 20 anos matou seus pais com a ajuda dos namorados. Viu que loucura? Na política, aqui diz que o presidente, apesar de ser corrupto, vai ser reeleito com quase 50%. De repente leu algo que o fez cair no riso e o primo, mesmo sem ter lido, começou a gargalhar.
Era a história do professor, pedófilo, pacato professor de crianças, que amava e matou sua aluna de apenas seis anos. Esse homem era doido?
- O que é pedófilo, Jarbas?
- Acho que é homem que dorme com crianças e faz amor com elas. Pobrezinhas!
- Quá...quá...quá...Quá... E os primos desataram a rir daquela história ridícula, para eles, porque jamais iam imaginar que um homem feito pegasse uma menininha para fazer besteira. Será que tá chegando o fim do mundo anunciado no Apocalipse, Eloy?
- Figa! Vamos ler sobre o futebol. Um tal de Cafu vai ser o treinador da nova seleção. Cafu? Que nome sem vergonha, não acha? Depois, passaram ao cotidiano da cidade e, então leram que duas mulheres moravam juntas há mais de 30 anos e que faziam besteira todas as noites. Já imaginou? Qual delas tem priquito?
- Quá...quá...quá...quá... E os dois requebravam, guinchavam como porcos, gemiam e repetiam a uma só voz:
- Estranho mundo! Não é possível!!!
O mais sério era o Jarbas, que escondia o riso com as duas mãos, mas não conseguia, e repentinamente, soltava silvos. Eloy fazia barulhos indecorosos e imitava a mulher com a outra, abraçando uma coluna da casa. Numa hora os dois passaram a rolar pela sala e davam tranco nos poucos móveis que tinham. “É impossível, é impossível!”
A alegria demorou por mais de uma hora e, quando Miçanga e Laura tiveram um pressentimento, pois as duas eram sensitivas, bateram, bateram e bateram à porta da casa dos seus queridos. Depois decidiram abri-la à força. E, chorando, se abraçaram aos seus homens, que já começavam a endurecer.
Pois é, os velhinhos morreram de rir!...




