Ninguém modifica ninguém

Lauristela é uma amiga de longos anos. José Carlos, seu filho, belo garoto, teve minha ajuda na recuperação da sua saúde. Preparei remédios caseiros, por exemplo, de abacaxi com mel cozido por uma hora, para reabilitar quem teve pneumonia. Ficou tão contente que me convidou para ser madrinha do menino, mas não cheguei a batizá-lo, no entanto me chama de comadre. É jornalista e trabalha com competência e talento na TV.
Houve um dia em que salvou um rapaz de mais ou menos trinta anos, que ia se jogar do alto de um prédio. Conseguiu chegar até ele e conversar bastante para convencê-lo de que a morte não é saída para nada. Viver é melhor! Finalmente, ele lhe deu a mão e desistiu da bobagem que ia fazer.
Na conversa com o quase-suicida, Pio de Lorena, mineiro, residente em Cuiabá há mais de vinte anos, este revelou a razão de não querer mais viver, porque se decepcionara com a esposa, que é muito vaidosa e mensalmente gasta mais do que ele recebe na empresa onde trabalha.
- Você a namorou por longo tempo?
- Sim, foram dois anos, mas eu pensava que com o tempo poderia modificar-lhe o pensamento. Quanta ilusão! Nada de a Adelaide mudar!
- Ora, Pio, me desculpe intrometer na sua vida, mas é difícil mudar uma pessoa. Não espere que a Adelaide mude, pois não mudará até o fim de sua vida! Enquanto mantiver a expectativa de esperar que ela modifique seu jeito de ser, é bem provável que ela também pense que com o tempo o mudará. Bobagem, porque nem ela e tampouco você modificarão sua idéias.
- Pois é, cansei de lutar para que ela se tornasse sensata. Mas, que nada! Tem uma coleção de sapatos só de griffe. Por mais que lhe demonstre que ganho apenas R$4.500,00 e ela está gastando, mensalmente, mais que isso, nem está aí para o problema. O pior é que não quer trabalhar. Nós não temos filhos e como sabe falar inglês fluentemente, é bem apessoada e culta, não teria dificuldade de arrumar um emprego. Não quer. Estou cansado!
– Que tal se você deixar de se preocupar com o consumismo dela? A excessiva preocupação para que ela mude, pode reverter-se numa dependência. Mas se você deixar que a conta fique no vermelho e que o banco mande uma carta de advertência sobre os excessivos gastos, talvez ela passe a pensar mais e elaborar outro modo de vida. Vai se tornar mais responsável, aprenderá a viver com seus próprios pensamentos, vai achar soluções para os problemas que criou.
- Sei não! São cinco anos de casado e tenho poucas esperanças quanto a isso. Adelaide é teimosa, orgulhosa, vaidosa e por aí vai. Creio que é o fim do nosso casamento. O pior é que gosto dela e nem sei se saberei viver sem ela. Por isso quis morrer!
- Nada disso, pois se a Adelaide não tiver jeito, com o tempo você arrumará outra mulher e analisará bem como ela é. Reveja seu antigo relacionamento e não case se não tiver certeza de que ela é sensata como você.
- Eu amo a Adelaide! É tão bonitinha, cintura fina, peitos fartos, olhos grandes e azuis, boca de lábios finos, andar de gazela, sei lá, acho que sem ela a vida não terá nenhuma graça. O pior é que não vejo alguma forma dela se transformar na mulher que sempre sonhei.
- Ponha na sua cabeça, rapaz, sua mulher não vai mudar! Se você acha que sem ela a vida é triste e dolorosa, então porque não se modifica?
- De que jeito? Os empregos estão difíceis e não vou largar o certo pelo duvidoso. Bem que ela gostaria que eu arranjasse uma outra função numa nova empresa e passasse a ganhar de dez a quinze mil reais. Ora, sou economista e sequer fiz pós-graduação. Admito ser um profissional razoável, não um gênio!
- Que tal colocar seu curriculum na Internet e também mandar várias cópias para grandes empresas? De repente você tem sorte e se arruma melhor na vida, para atender as inquietudes de sua mulher, se é que não quer separar-se dela.
- Não, não tem jeito. Descobri que Adelaide está de namoro com um empresário, que é da Coca-Cola. Ganha uma baba. É mais jovem que eu... Quem sabe seja até mais inteligente. Sei só que minha irmã foi ao Roxy ver “Zuzu Angel” e viu os dois agarradinhos, aos beijos e abraços. Foi nessa hora, quando me contou, que me desesperei... Quis morrer mesmo, mas agora vai ser diferente!
- O que imagina modificar?
- Lá na empresa tem uma secretária de nome Olga, que vive flertando comigo. Pois bem, vou-me divorciar e começar a dar atenção a ela, uma catarinense econômica que até já comprou um apartamento no Leblon. Loira, olhos castanhos, boca pequena, nariz arrebitado, seios fartos (disso não abro mão) e um traseiro interessante. Vou mudar para melhor!
- Parabéns! Assim que se fala, porque você é um homem e, naturalmente, como há mais mulheres que homens no mundo, você encontrará aquela que o fará feliz. Pode ser a Olga ou a Ana Maria? Quero dizer, poderá haver várias opções e deixe a Adelaide pra lá!
- Engraçado, nunca traí minha mulher, mas de agora em diante quero ter um triângulo amoroso como no passado viveu D. Pedro I. Li, recentemente, que ele era de amargar. Casado com dona Leopoldina, manteve um caso escandaloso com a Marquesa de Santos, que foi uma história marcante durante o Império. A austríaca, diz o artigo, era quentona. Ah! Pudesse eu me dar bem com uma mulher como a Domitila de Castro Canto e Melo. Ela morava perto do Palácio, de onde D. Pedro com um monóculo seguia seus passos. Pobre da dona Leopoldina! Caiu num isolamento e foi muito humilhada, principalmente depois que o imperador reconheceu a filha dele com a Marquesa, e deu uma suntuosa festa na casa da Domitila. A mulher não suportou e logo morreu, o que ocasionou uma revolta popular. O povo apedrejou a casa da Marquesa, que nem estava aí para nada. Que mulher!
- Não vá com muita sede ao pote! Você deve arrumar uma mulher que o satisfaça e tornar-se senhor de si. Esse pensamento de ser como D. Pedro I está fora da realidade. Primeiro, você não é imperador; segundo, como ter duas mulheres com o salário que você ganha; terceiro, você não pretende ser feliz? Se já pensa em ter duas mulheres, na verdade nada conseguirá. Quem tudo quer, tudo perde!
- É verdade, apenas estava delirando, o que não é pecado. Mas que vou casar novamente e procurar ser feliz, vou!
- Convide-me para seu novo casamento, ok? O ato de ser amado é muito sublime. É possível separar-se bem. A compreensão consiste em saber que a decisão da vida do outro cabe somente a ele. Tenho certeza de que você saberá seguir o caminho certo.
- Ora! Você vai ver!
- Você é um ser de amor, portanto tem o direito de amar e ser amado. Seja sincero com ela.
Pio seguiu seu caminho e Lauristela foi lá em casa tomar um café comigo, quando me relatou esse caso em que foi a conselheira de um rapaz desesperado. Sentia-se vitoriosa e contente com o resultado.

