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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Terça-feira, Agosto 29, 2006

Travestis sagrados


Florescem as mangueiras e uma leve bruma na boca da madrugada dá à natureza um aspecto evocativo do passado. O casal – Guy e Armando – que juntos vivem momentos iguais, fáceis ou difíceis, tomam o chá c’o bolo, tão tradicional na quente Cuiabá. Quem gosta de fazer o bolo de queijo é Guy, mais chegado às panelas, à cozinha e ao forno.

- Você pôs um pouco a mais de sal, não acha? Cuidado, Guy, pois nós sofremos de pressão alta!

- É, já havia percebido, mas uma única vez não altera. Perdão! Da próxima, acertarei o tempero.

- Querido – perguntou – você leu a matéria sobre os travestis sagrados de Sulawesi?

- Não. Fale-me, amor, porque você sabe que sou de pouca leitura. Resuma-o para mim.

- É o seguinte, na cultura dos bugis, que vivem no sul de Sulawesi (Indonésia), não há dicotomia sexual, mas há algo além dos gêneros masculino e feminino. Eles consideram quatro gêneros: os oroane (homens), as makunrai (mulheres), as calabais (mulheres masculinas) e os calabai (homens femininos).

- Que sociedade adiantada! Nós deveríamos ter vivido lá, porque já sofremos tantas discriminações por aqui!... Nossa! Você lembra daquela senhora gorda, olhos empapuçados, pernas e braços roliços, que nos botou na rua no aniversário de Augusto? Olha que o Guto nos convidara, mas a fera não estava nem aí e armou aquele barraco, que até hoje me dá vergonha. Outro dia a vi na feira... Sua bruxa!

- Bem, vamos arquivar essa história, que quero lhe falar sobre os bugis, que ainda criaram um quinto “paragênero” ou identidade, os bissu, sacerdotes com características masculinas e femininas. Lá, há uma convivência harmônica em que cada qual exerce seu papel na sociedade, sem nenhum tipo de segregação. Calabai, para eles, quer dizer falso homem e falsa mulher.As calabais podem ser ferreiros, pedreiros, marceneiros, mecânicos, eletricistas e por aí vai. Elas se vestem como homem, andam a sós durante a noite, hábitos que não são indicados para as mulheres ou oroane. No entanto, acham-se mulheres e não querem ser vistas como homens, apenas são as calabai.

- Legal, Armando. Quer dizer que se vivêssemos lá, seríamos os calabai, que são homens mas com certa feminilidade, não?

- Exato, gosto de você porque entende as coisas depressa. Tem raciocínio rápido.

- Obrigado, meu querido, mas devo muito do que sei a você. Reconheço isso.

- Tampouco esses calabai buscam fazer plásticas para colocar peitos ou bundas, porém possuem algumas normas dentro da sociedade. Numa união como a nossa, que já vivemos juntos a mais de vinte anos, na festa do casamento um de nós seria responsável pela organização da festividade, desde a decoração até a comida, arrumação do local e a maquiagem de todos os presentes.

- Pô, esta seria a minha parte, pois você sabe que gosto de cozinhar, decorar, ajeitar os móveis e, que beleza, ia maquiar a todos nossos convidados! Eita sociedade bacana!

- Li na revista Planeta, de março de 2005, sob o título “Os Travestis Sagrados de Sulawesi”, e para explicar mais detalhadamente, os bugis narram uma história em que os bissu desempenham o principal papel: lá nos céus, os deuses resolveram dar vida a nosso solitário planeta e mandaram para cá uma de suas mais promissoras divindades, o Batara Guru, que criaram a linguagem, os costumes e tudo mais que o mundo precisa para começar a crescer.

- Ai, meu amor, que vontade me dá de ser um calabai, pois detesto quando me chamam de boiola, mariquinha, veado, bicha. Gay, até nem ligo.

- Também não gosto de ser discriminado. Ah! Eles têm permissão para entrar em qualquer lugar. Podem usar na cintura, digamos, um revólver calibre 38 e usar flores no cabelo, como faria uma mulher. São pessoas especiais que combinam elementos humanos e espirituais. Fundamentalmente, têm bons contatos com o mundo dos espíritos, pois podem falar com os deuses.

- Viva! Que beleza! Você percebeu que tudo é mais ou menos como nós somos? Também tenho poderes sobrenaturais e enxergo coisas que ninguém vê. Tem sujeitinho aí que duvida de mim, mas quando um de seus parentes fica doente vem me buscar para dar passes. Viu o caso da Rosa? Teve um treco e ficou toda torta, mas eu fui lá e toquei nela, enquanto conversava com os espíritos de luzes. Ela não voltou ao normal? Eles (os espíritos) me mandaram esticá-la, aos poucos, até que não sobrou nem um pouquinho da anomalia. Voltou a ser a Rosa catita, que é uma mulher bonita, não acha?

- Anomalia? Estou gostando, Guy, porque além de ser boa dona de casa, ótima cozinheira, excelente estilista, maquiadora e cabeleireira, seu português está cada vez mais perfeito. Parabéns!

- Que tal, vamos dar uma descansada? Noite passada dormi muito mal... Vem, benzinho, quero fazer uma massagem na sua coluna. Voltou a dor? Acredito que não, senão você reclamaria. Quem sabe a gente termine por fazer amor... Deu-me uma vontade louca de apertá-lo em meus braços. Você tem uma pele acetinada... A boca é doce.

- Tudo só por causa dessa história dos travestis sagrados, não?

- Creio que sim, mas quem me puxa e mexe com os neurônios é você. Venha! Dê-me as mãos. Vem, amor!

Uma mulher inocente

Na fila de banco sempre há alguém que, por nos desconhecer, despeja toda sua angústia sobre nossos ombros. Foi o caso de uma senhora de seus 36 anos, fisionomia de religiosa, fechada, vestida com blusa de manga comprida e saia preta, sapatos pretos, que se sentou do meu lado.

Primeiro, perguntou-me: - Como é seu nome?

- Marta. E o seu?

- Perdão, mas não vou dizer-lhe meu nome. Sou ministra da Assembléia de Deus.. Você tem alguma religião?

- Não, sou agnóstica.

- Por favor, você tem que crer em Deus!

- Deixe isso pra lá, pois cada um de nós tem liberdade para ser isto ou aquilo. Você não está feliz como ministra da Assembléia? Então...

- Olha, vou-lhe contar algo que me martiriza e vai acabar comigo, Importa-se em me ouvir? (E foi continuando...) Casei muito tarde, aos 29 anos e meu marido é um estilista famoso. Morávamos em Ipanema, onde ele tem ateliê. Nos primeiros anos de casados, tudo corria mais ou menos, mas ele é um homem frio... Procurava-me uma vez por semana. Engravidei e, após os exames, comuniquei-lhe que ia ser pai. Ah! Dona Marta, o homem virou bicho e quis a todo custo que eu abortasse. Bati pé e me neguei a cometer esse pecado. Bem, nossa filha nasceu, mas o Igor pouco ligava para ela. Tampouco lhe deu um beijo desde seu nascimento. Era-lhe totalmente indiferente a presença daquela linda criança em nosso lar.

- Com o passar do tempo começou a implicar com o choro do bebê e, como temos uma casa em Maricá, decidiu que nós duas tínhamos que mudar para lá, enquanto ele ficaria no apartamento, devido aos trabalhos do ateliê. Igor tem na sua agenda uns cem nomes de gente da alta sociedade, que são seus clientes.

- Tudo bem! Adoro Maricá. Acontece que o Igor raramente aparecia por lá, se bem que tínhamos conta conjunta e nunca nos faltou nada, a mim e sequer a Natacha, nossa filha.. Também recebia meu dinheiro de Tocantins, onde residem meus pais e têm duas fazendas de gado e plantações.

- Certo fim de semana, Igor veio nos visitar, acompanhado de Natalino, amigo dele do Ceará, que também gosta de costuras.. Trouxe-me uma trouxa de roupa suja para eu lavar. Como gosto de dar uma esfregada antes de colocar na máquina, notei que suas cuecas estavam sujas de espermatozóide no traseiro. Fiquei pensativa... E mais tarde perguntei-lhe o significado daquilo, ao que me respondeu:

- Ah! Estou com um problema sério... Ao invés de gozar pelo pênis, agora meu esperma sai pelo traseiro.

- Que horror! E você não vai se tratar com um bom urologista?

- Vou sim, mas vou esperar mais um pouco... Posso melhorar!

Assim que Igor e o amigo foram embora, chegou meu padrinho, pastor Jeremias, com quem tenho toda intimidade para contar o que se passa lá em casa. Foi, então, que lhe contei que o Igor estava doente e gozando pela bunda.

- Há... há..há... Gargalhou meu padrinho! E me disse: “Jandira – você é uma pessoa muito pura e inocente -, mas tenho que lhe falar uma coisa muito séria. Seu marido é homossexual!”

- Pelo amor de Deus, não fale isso do Igor! (nesse momento, desmaiei), e o pastor me levou para o hospital, onde fiquei acamada uns vinte dias, em tratamento do sistema nervoso. Fiquei estressada e desiludida. A mulher de meu padrinho, nesse período, cuidou da Natacha, nossa filha.

- Estou-me separando do Igor, depois que fui ao seu ateliê, de supetão, e lá o encontrei em grande orgia com outros gays. Beijavam-se, abraçavam-se e faziam tudo que é preciso fazer, na maior algazarra. Tampouco a minha presença foi motivo para que parassem. Logo dei entrada nos papéis para nos divorciarmos. A senhora quer saber? Amo o Igor, seja ele homossexual ou não. Estou sofrendo como uma condenada à morte...

- Não será melhor para você passar a dedicar-se à religião e a sua filhinha? Deixe o Igor pra lá! Foi um erro esse casamento. Talvez ele imaginasse que você fosse muito rica.

- Sou. Meu pai é fazendeiro em Tocantins. É católico fervoroso e não aceita que tenha me convertido à igreja da Assembléia. O dinheiro, porém, é meu e de Leonel, meu irmão, que cuida do gado e me remete os lucros de seis em seis meses. Quanto ao lado econômico, nada a reclamar. Mas queria que o Igor se tornasse homem e estou pedindo um milagre a Deus. Será que gay vira homem?

- Larga de bobagem! Gay já nasce feito e não há o que fazer para ele se tornar um homem. Sua sina é ser evangelizadora e que o seja com muita dedicação e sucesso! Procure esquecer o Igor!

- Olha, dona, contei-lhe tudo isso porque a senhora mal me conhece, porém, se um dia me ver em qualquer lugar faça como nunca me tenha visto, porque não quero relembrar que lhe confessei meu grande segredo, martírio e desilusão, Eu amo o Igor! – nada me fará tirá-lo da cabeça, nem meu padrinho Jeremias e nem a senhora, que tampouco sei de onde veio e nem para onde vai. Apenas quis desabafar, pois meu coração quase explode ao pensar nesse caso.

Terminei meus negócios no banco e dei-lhe “até logo”, e a senhora mal me respondeu. Seus olhos estavam marejados e sua fisionomia era de grande tristeza e decepção.

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