Travestis sagrados

Florescem as mangueiras e uma leve bruma na boca da madrugada dá à natureza um aspecto evocativo do passado. O casal – Guy e Armando – que juntos vivem momentos iguais, fáceis ou difíceis, tomam o chá c’o bolo, tão tradicional na quente Cuiabá. Quem gosta de fazer o bolo de queijo é Guy, mais chegado às panelas, à cozinha e ao forno.
- Você pôs um pouco a mais de sal, não acha? Cuidado, Guy, pois nós sofremos de pressão alta!
- É, já havia percebido, mas uma única vez não altera. Perdão! Da próxima, acertarei o tempero.
- Querido – perguntou – você leu a matéria sobre os travestis sagrados de Sulawesi?
- Não. Fale-me, amor, porque você sabe que sou de pouca leitura. Resuma-o para mim.
- É o seguinte, na cultura dos bugis, que vivem no sul de Sulawesi (Indonésia), não há dicotomia sexual, mas há algo além dos gêneros masculino e feminino. Eles consideram quatro gêneros: os oroane (homens), as makunrai (mulheres), as calabais (mulheres masculinas) e os calabai (homens femininos).
- Que sociedade adiantada! Nós deveríamos ter vivido lá, porque já sofremos tantas discriminações por aqui!... Nossa! Você lembra daquela senhora gorda, olhos empapuçados, pernas e braços roliços, que nos botou na rua no aniversário de Augusto? Olha que o Guto nos convidara, mas a fera não estava nem aí e armou aquele barraco, que até hoje me dá vergonha. Outro dia a vi na feira... Sua bruxa!
- Bem, vamos arquivar essa história, que quero lhe falar sobre os bugis, que ainda criaram um quinto “paragênero” ou identidade, os bissu, sacerdotes com características masculinas e femininas. Lá, há uma convivência harmônica em que cada qual exerce seu papel na sociedade, sem nenhum tipo de segregação. Calabai, para eles, quer dizer falso homem e falsa mulher.As calabais podem ser ferreiros, pedreiros, marceneiros, mecânicos, eletricistas e por aí vai. Elas se vestem como homem, andam a sós durante a noite, hábitos que não são indicados para as mulheres ou oroane. No entanto, acham-se mulheres e não querem ser vistas como homens, apenas são as calabai.
- Legal, Armando. Quer dizer que se vivêssemos lá, seríamos os calabai, que são homens mas com certa feminilidade, não?
- Exato, gosto de você porque entende as coisas depressa. Tem raciocínio rápido.
- Obrigado, meu querido, mas devo muito do que sei a você. Reconheço isso.
- Tampouco esses calabai buscam fazer plásticas para colocar peitos ou bundas, porém possuem algumas normas dentro da sociedade. Numa união como a nossa, que já vivemos juntos a mais de vinte anos, na festa do casamento um de nós seria responsável pela organização da festividade, desde a decoração até a comida, arrumação do local e a maquiagem de todos os presentes.
- Pô, esta seria a minha parte, pois você sabe que gosto de cozinhar, decorar, ajeitar os móveis e, que beleza, ia maquiar a todos nossos convidados! Eita sociedade bacana!
- Li na revista Planeta, de março de 2005, sob o título “Os Travestis Sagrados de Sulawesi”, e para explicar mais detalhadamente, os bugis narram uma história em que os bissu desempenham o principal papel: lá nos céus, os deuses resolveram dar vida a nosso solitário planeta e mandaram para cá uma de suas mais promissoras divindades, o Batara Guru, que criaram a linguagem, os costumes e tudo mais que o mundo precisa para começar a crescer.
- Ai, meu amor, que vontade me dá de ser um calabai, pois detesto quando me chamam de boiola, mariquinha, veado, bicha. Gay, até nem ligo.
- Também não gosto de ser discriminado. Ah! Eles têm permissão para entrar em qualquer lugar. Podem usar na cintura, digamos, um revólver calibre 38 e usar flores no cabelo, como faria uma mulher. São pessoas especiais que combinam elementos humanos e espirituais. Fundamentalmente, têm bons contatos com o mundo dos espíritos, pois podem falar com os deuses.
- Viva! Que beleza! Você percebeu que tudo é mais ou menos como nós somos? Também tenho poderes sobrenaturais e enxergo coisas que ninguém vê. Tem sujeitinho aí que duvida de mim, mas quando um de seus parentes fica doente vem me buscar para dar passes. Viu o caso da Rosa? Teve um treco e ficou toda torta, mas eu fui lá e toquei nela, enquanto conversava com os espíritos de luzes. Ela não voltou ao normal? Eles (os espíritos) me mandaram esticá-la, aos poucos, até que não sobrou nem um pouquinho da anomalia. Voltou a ser a Rosa catita, que é uma mulher bonita, não acha?
- Anomalia? Estou gostando, Guy, porque além de ser boa dona de casa, ótima cozinheira, excelente estilista, maquiadora e cabeleireira, seu português está cada vez mais perfeito. Parabéns!
- Que tal, vamos dar uma descansada? Noite passada dormi muito mal... Vem, benzinho, quero fazer uma massagem na sua coluna. Voltou a dor? Acredito que não, senão você reclamaria. Quem sabe a gente termine por fazer amor... Deu-me uma vontade louca de apertá-lo em meus braços. Você tem uma pele acetinada... A boca é doce.
- Tudo só por causa dessa história dos travestis sagrados, não?
- Creio que sim, mas quem me puxa e mexe com os neurônios é você. Venha! Dê-me as mãos. Vem, amor!


