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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Sábado, Setembro 02, 2006

Falo de padres


Li hoje que é possível encontrar de tudo um pouco na Internet. Isso inclui até o aluguel de padres. Nos EUA, o serviço está disponível no site “rentapriest” (alugue um padre) – que atualmente também oferece o serviço em mais cinco países (África do Sul, Alemanha, Canadá, Índia e Malta).

Só no ano passado foram realizados três mil matrimônios. Divorciados e homossexuais desejosos de uma cerimônia religiosa e espiritual são os principais clientes. Mas não é só isso. É que a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA estima que 37% das paróquias do país estejam sem padre.

Para oferecer seus préstimos via Internet, os padres tiveram que renunciar ao sacerdócio – em geral por terem rompido o voto de castidade. Eles continuam, entretanto, a celebrar casamentos (mediante uma remuneração) e outros sacramentos, como batismos e enterros (gratuitos, conforme a prática oficial).

O detalhe é que a relação que lista 2.500 padres é classificada como “as páginas amarelas de Deus”.

Este assunto me leva a outro. Quando freqüentava a Igreja Presbiteriana de Copacabana, na rua Barata Ribeiro, cujo pastor era o Reverendo Nehemias Marien, filho do pastor Alfredo Marien, acompanhei a briga de seus novos conceitos de igreja contrários aos antigos. Houve muitas brigas e discussões acaloradas. Acabou ele por fundar sua própria igreja, onde tem feito casamentos de gays e lésbicas. Alega que vivemos uma nova época e é preciso que as igrejas se modernizem, caso contrário vão para o espaço e perderão seus adeptos.

Seu pai, Alfredo Marien, que conheci em Cuiabá, contou que foi fugitivo da Justiça, depois de uma encrenca qualquer, e num dia em que conheceu o pastor Phillipe Landes, norte-americano, seu coração passou a bater mais forte e emocionado pediu ao Reverendo para fazer-lhe uma confissão. Contou a história de seu passado de erros e o pastor o aconselhou a voltar ao local onde praticou seus delitos para resolvê-los com a Justiça e, então, após isso poderia resolver o que desejava fazer na vida. “Reverendo, quero ser pastor como o senhor!” Na verdade, foi um grande exemplo de homem e fazia pregações maravilhosas, como esta em que contou sua vida. Era menina, de onze anos e, sinceramente, nunca esqueci a sua personalidade forte. O filho tem personalidade fortíssima, mas pegou outro atalho do caminho religioso e reúne centenas de fiéis que estão de acordo com ele.

Sei lá! Atualmente pouco vou à igreja, mas mantenho comigo o hábito de ler a Bíblia Sagrada, meditar sobre aquilo que li e orar sem cessar para que não peque, pois os pecados estão por aí e a gente é fraca e pode cair. Todavia, conservo um mandamento que Cristo ensinou: “um novo mandamento vou dou, que ameis uns aos outros assim como eu vos amei”. Procuro compreender as pessoas por mais confusas que sejam, por que quem é perfeito? Sei que sou uma pessoa difícil, conforme me disse Isabel Campos: “Tenho até medo de me confrontar com você!” Se bem que nunca brigamos, mas me dizia que tenho pavio curto. Deve ter razão.

Velha amiga que já foi para o andar de cima, certo dia me contou a seguinte história: “Mamãe sempre foi católica, carola, e acreditava nos padres como ninguém. Contratou o pároco de Várzea Grande, MT, para me dar aulas de latim, pois estava atrasada nessa matéria. O padre chegou e mamãe foi à rua fazer compras e, antes de sair disse: “Minha filha está com um padre e está com Deus!.”Exatamente nesse dia, disse-me ela, foi a primeira vez que vi um pênis. O padre, sem vergonha na cara, ejaculou na minha perna. Nada contei à mamãe, porque ela era de dar escândalo, mas lhe pedi para dispensar aquelas aulas, pois já estava compreendendo melhor a matéria.

Um colega meu de Cuiabá, gay assumido, revelou-me que um padre sempre lhe dava balas e barras de chocolate. Uma vez, numa das dependências da igreja, o padre o atacou violentamente. Era pedófilo. Antes, porém, colocou uma toalha no rosto dos santos, como se fosse esconder seu pecado. Segundo ele, conseguiu se desvencilhar do monstrengo que, com o passar do tempo foi descoberto pelo pai de um garoto que também fora molestado por ele. Foi um escândalo, Mas ele não foi expulso da igreja, mas transferido para uma paróquia do interior. Pobres guris dessa cidade!

É comum, hoje em dia, as revelações de padres pedófilos no mundo todo. E a gente fica desiludida com essa gente hipócrita e com sérios problemas sexuais.

Que fazer? Nada. Porque, com a globalização foi que começou a ser divulgado um caso aqui e outro ali. Nem sei o que pensar sobre eles, mas sei que em Cuiabá houve um padre que deixou vasta família, hoje homens de bem, entre os quais um deles foi desembargador. O povo sabia e fingia não saber de nada, como atualmente se faz. Ninguém vê, ouve e fala, como os três macaquinhos, um com os dedos nos ouvidos, o segundo com as mãos na boca e o terceiro com as mãos nos olhos.

É a vida! Dá para entender?!... Cito Fausto Wolf, que em sua crônica no “Jornal do Brasil”, de 2 de setembro, sob o título “Manifesto para ver contente a mãe gentil” destaca: (...) que em nossa sociedade estejam incluídos os fracos, os pobres, os desprotegidos, que todos os homens sejam responsáveis por todas as crianças...” São as crianças, os principais alvos dessa gente desajustada, louca e cruel.

Confissões sobre o amor


Margareth, arquiteta bem colocada na Petrobrás, coleciona colares e já ultrapassou a quantia de cento e dezoito, conforme me disse, a correr os dedos em um colar de pérolas, sentindo a textura acetinada e fria das esferas rosadas. “Foi presente de um grande amor vivido em mais de doze anos... Repentinamente me deixou pela secretária. Que poderia fazer? Sou pelos direitos humanos e não seria neste caso particular que tentaria prendê-lo. Nunca. Ele foi embora, eu sofri, naturalmente, mas sobrevivi e até vim a amar de novo. Soube que os dois se transferiram para Miami e são pais de um casal de filhos. Ótimo. Queria que ele fosse feliz fosse lá com quem fosse.”

Prestava atenção na expressão de minha colega, às vezes tristonha, outras, a esboçar um sombrio sorriso. Margareth conta: “No momento sou amada por um cara muito dedicado e querido, porém, ao usar este colar, confessa-me: Me vem à lembrança a figura do meu velho amor”.

O escritor Rubem Braga, em uma de suas crônicas, contou ter perdido o amor da bela atriz Tônia Carrero, ao atravessar uma rua de Paris. Motivo: antagonismos de idéias. Nunca mais conseguiu reconquistá-la. Ela se hospedou em novo hotel e ele ficou a fumar um cigarro após outro e a pensar que acabara de perder o amor de uma mulher espetacular.

Curioso pensar que todo o dia morre um amor. A gente nem percebe, mas diariamente assim como morre uma pessoa a cada segundo, também morrem os amores. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina.
Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas escandalosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Os últimos suspiros podem ser dados em uma cama de motel, numa cadeira de praia diante do mar azul espetacular ou simplesmente em frente à televisão, num belo domingo de céu azul.

Há amores que morrem sem um beijo, sem deixar saudades, sem olhares compreensivos, porém com um gosto salgado de lágrimas na boca. Depois de telefonemas espaçados, esvai-se gradativamente mais um amor, de forma terrível e letal inanição.

Os românticos não querem sequer pensar na morte do amor. Relutam em aceitar, porque o amor existe.

Sheila, estilista de uma confecção, me disse que seu amor morreu como uma explosão, acompanhada de um profundo suspiro, e que ainda lhe dói a dor da perda do amado. “Puxa, Marta, me senti fracassada ao saber que ele decidiu ir embora. Não quis tampouco levar os discos, os livros, os pijamas e as cuecas de cetim. Guardei tudo por longo tempo. Também não sou de ferro, e conheci o Lauro, que me fez renascer para o amor. Dei tudo que foi dele para a minha faxineira.”

Wânia, colega de Sheila, nem gosta de lembrar do Vasquinho, seu espanhol de Madri, com quem conviveu por seis anos. “O que você não acredita é como aprendi com ele coisas boas e ruins. O pior mesmo foi o dia em que me contou, com a cara mais limpa que se apaixonara por uma maranhense, quando estava a serviço da empresa em São Luis. Mudou-se para lá e fiquei a ver navios. Como aprendi! A vida sempre nos ensina alguma coisa e, tão logo viajou, ainda chocada, percebi que qualquer amor pode agonizar até morrer. Claro, também morri um pouco... Hoje, passados três anos, Roberto teima em querer que volte a crer no amor. Sei lá, fica mais difícil, não é? Enfim, estou tentando amá-lo.”

Fernanda, a louraça de olhos azuis, secretária de Dr. Joaquim, meu oftalmologista, sem saber a razão, baixinho me revelou, no consultório, que seu amor morreu por ela. Que susto, jamais imaginaria que alguém fosse se matar por amor. Hoje, com cinqüenta e quatro anos, suspira e diz:. “Marta, fui jovem e bonita. Aos 25 anos, fui uma mulher atraente bela e paparicada por muitos homens. Cícero me devotou tamanho carinho e amor, mas era ciumento demais e que Deus me perdoe, cansei-me dele e encerrei tudo, depois de assistir um filme em Ipanema. O homem endoidou! Foi uma barra pesada... Súbito cortou os pulsos e morreu esvaindo-se em sangue e repetindo meu nome. É um peso que trago comigo. Às vezes, tenho pesadelos horríveis... Afinal, toda morte brutal deixa suas evidências, mas não quis que tivesse esse final tão trágico. Que Deus me perdoe!”

Aninha, jornalista do jornal “O Dia”, nega que trabalhe demais só para esquecer um ex-amor. É orgulhosa para admitir que Leandro a trocasse por uma mulher mais velha que ele, dez anos. Num dia chuvoso, de repente ela confidenciou a um grupo de amigas de trabalho, no Amarelinho, que precisava espairecer, tirar aquela imagem dos porões da memória. Entre chopinhos gelados e petiscos, despejou tudo. “Tenho consciência de que nunca fui uma grande mulher de cama. A outra, como ele me disse, era tudo que queria encontrar na vida, apesar de ser mais idosa que ele. Conforme me contou Evandro, primo da velhota, são felizes e saem de mãos dadas e trocando idéias, entre abraços e beijinhos”.

Nilza, caixa de um supermercado, nega veementemente que tenha sido a principal causadora de Ricardo tornar-se pastor da Igreja Universal, depois que ela o chutou. “Nunca vou ter remorsos por algo que aconteceu e não fui culpada. Ele sempre foi ligado à religiosidade e até me constrangia com seus preconceitos. Sabe que nunca o vi sem roupa? Apagava a luz e tudo entre nós era feito no escuro. Que coisa mais desagradável! Cansei!”

Bené, juíza, recém togada, procura um amor verdadeiro, raríssimo, e não duvida que ele exista. “Quero um amor belo e puro, de um homem que goste de mim como o príncipe que despertou a princesa com um beijo, como na história que ouvia quando era criança de Branca de Neve e os 7 Anões ou A Bela Adormecida no Bosque. Vou achar, duvida? Já até estou imaginando como será: moreno, alto, olhos castanhos, inteligente (qualidade imprescindível), amigo, compreensivo, festeiro como eu que gosto de dançar no Estudantina.”

Ontem, no supermercado, dei de cara com Bené, ao lado de um careca, magro e de olhos faiscantes, azuis. Ela, bem maquiada e alegre, nem precisou me falar. Ao chegar em casa, o telefone tocou. Era Bené, que me contou já não suportar o sujeito, porque é ela quem paga as contas e está saindo muito caro. “Sabe de uma? Vou dar um pontapé na bunda dele. Não é esse o perfil de homem que desejo!”

O amor existe ou é um fantasma que persegue o imaginário da gente?!...

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