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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Domingo, Setembro 10, 2006

Dança do Chorado - V. B. da S. Trindade




O jantar preparado pelo o Carlinhos reuniu mais de trinta pessoas na sua casa, mas mesmo assim ele pediu licença para o pessoal e, particularmente, contou-me sobre a Dança do Chorado.

- Conte, rápido, amigo!

- A Dança do Chorado, como tudo em Vila Bela da Santíssima Trindade, é de cores como as do arco-íris, exuberantes, onde o povo dança com gingados, piscadelas sensuais, requebros e mimos

- E as músicas?

- São de conteúdo picantes, onde um grupo de mulheres trajadas de longos vestidos, hiper coloridos, vibrantes, toma o centro do espetáculo. Tem compassos apropriados, ao ritmo de antigas canções, as quais são dançadas sob os atentos olhares dos presentes, que se apinham para vê-las. Não há quem não leve cotoveladas. Começa a Dança do Chorado.

- Começa como?

- Elas desfilam com gestos de muita sensualidade, languidez, com os rostos cheios de desafios. A roda aumenta. As integrantes diminuem os passos, equilibram garrafas na cabeça que não lhes impedem os belos gingados. Os vestidos dançam, levados pelas mãos ágeis das vilabelenses, com belíssimos colares em seus pescoços e pulseirs nos braços.

- Como age a platéia?

- Ah! Só você vendo. Há uma vibração que a gente sente no fundo da alma. Aos rodopios elas não param, mesclam nas danças, no canto, no equilíbrio da garrafas nas cabeças. Então dão começo ao canto:

Morena, quem te contou

que nesta noite serenô,

eu deitado no seu colo

serenô, não me molhô, morena!

Era tudo o que eu queria

eu, deitado no seu colo, morena

tinha toda garantia.

Mas que vim, que vim

que vim, que vão,

mas que vim, que vim,

que vim, que vão!

- Tem muita sedução, não é?

- Ora, é um puro jogo de sedução com uma mágoa profunda, escondida nos seus corações. Sua origem estaria na tradição que se consolidou através da dança. As escravas, ao verem seus entes queridos castigados pelos feitores, usavam a dança para persuadir seus senhores a lhes amenizar a pena. A sedução que, ainda hoje, é marca fundamental do Chorado, teria sido um, modo de persuasão, um pedido de perdão.

- Uma senhora me contou que há várias origens dessa dança.

- Sim, uma se sobrepõe à outras. Há quem afirme que a dança se originou nas cozinhas, quando as mulheres estariam descansando de sua pesada labuta.

- O recinto era aberto ou fechado?

- A dança, inicialmente, era executada em recinto fechado, até poucos anos atrás, com as portas semi-cerradas por onde saía o som de um tambor a chamar a atenção dos curiosos que por ali passavam. Se alguém quisesse entrar era trazido, por meio de um lenço branco até o meioo da roda das mulheres e incitado a pagar uma bebida,

- Como era feito tal pedido?

- O pedido era e é feito por intermédio de versos:

Este irmão vai pagar!"

Eram pedidos, piscadelas e convites sensuais que eram repetidos. E após ele pagar a bebida, as moças cantavam:

Este irmão já pagou!"

-Como eram as letras das músicas?

- Referiam-se a namoros, conquistas, paixões fortuitas e, assim o carinho aflua a todo instante Faziam uma enorme roda colorida em que todos se beijam e abraçam.No final, dava-se o amor entre alguns casais,

- Que lindo?

- É um signo de beleza, memória e espontaneidade. É a Dança do Chorado.


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