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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Quarta-feira, Setembro 13, 2006

Festa do Divino, a principal de Vila Bela da Santíssima Trindade.


A principal festa de Vila Bela da Santíssima Trindade é a Festa do Divino Espírito Santo, quando chegam turistas de todo o país para assisti-la e também festejá-la com o povo alegre do município.

Curioso, há palavras que criam coisas, objetos mágicos, veículos da mídia tradicional, gotas de histórias que recriam memórias e contam sobre as sagas dos pioneiros. Na hora dos rituais, adensam-se seus sentidos. O vilabelense se concentra e reza. Ou seja, a Festa do Divino é um mito, história, ciência e religião. Não foi ausência de habilidade a oralidade passada de mãe para os filhos. Hoje, cada qual encara a realidade do Terceiro Milênio dentro de nuances modernas, mas sem esquecer as velhas tradições.

É a festa de maior significado dentro da cidade de Vila Bela, e compreende duas seqüências rituais: preparativos para as folias, levantamento do mastro, alvorada dançante e as rezas; segundo, os rituais propriamente efetivos que são a reza solene, a missa em que todos vão com roupas novas e elegantes, o sorteio dos novos festeiros do ano seguinte e os banquetes (almoço e jantar).

É uma festa simples que começa com a peregrinação a começar pela zona rural e, em seguida, chega-se ao centro da cidade, onde o povo canta suavemente e por longas horas. São canções com acordes seguros, as quais imprimem em cada coisa o ritmo da festa. Sons, batuques, sanfoneiros a tocar, e as bandeiras da Festa do Divino: pobre e rica.

A bandeira pobre é levada pelo Alferes, que entra em quase todas as casas, excluindo os evangélicos. As estradas são de chão batido.

A bandeira rica é carregada pelo Capitão do Mastro que carrega o cortejo pelo espaço urbano, entra de casa em casa, e cada proprietário pendura na bandeira um donativo ou uma prenda para a festança.

A música é entoada pelos que ficam na porta da casa, a espocar rojões. Os anfitriões servem cafezinho, licor de pequi, doces e bolos de queijo. Se for a hora do almoço, todos recebem um prato com variados quitutes. Assim segue a Festança, onde em alguns lares é encontrado o chão cheio de pétalas de rosas e folhas cheirosas.

O giro folião oferece muita alegria e o ícone mais forte é na hora em que a bandeira avança, com seus hinos pelo vale. Há bandeiras e flâmulas, tecidos e chamas, e uma pequena pomba é desenhada na bandeira que oscila de um lado para o outro. O sol escaldante oscila nas encostas da Serra Ricardo Franco e, depois do encontro das duas bandeiras (pobre e rica), os foliões seguem rumo à igreja.

As duas bandeiras estão a postos: a pobre, na mão do Alferes; a rica, na mão do Capitão do Mastro e, unidas, são levadas pelo cortejo até o altar principal da Igreja da Matriz, quando os fiéis cantarolam músicas antigas.

Chega o negrume da noite! E ocorre o levantamento dos mastros, que são carregados e levados para o centro da praça, onde dois grandes troncos esperam para serem ocupados pelas bandeiras.

A música mais entoada e cantada pelos presentes é a seguinte:

“Ô campo verde serenado,

Ô campo verde é Vila bela.

Vou embora da cidade,

Da Santíssima Trindade.

Se eu soubesse que tu vinhas,

Fazia um dia maior,

Dava um nó na fita verde,

Outro no raio do Sol.

A folha da bananeira,

De tão verde amarelou;

O beijo de tua boca,

De tão doce açucarou.

Correntinha de ouro fino,

Ribeirão de água corrente,

Meu coração não é cadeia,

Mas prende muita gente.

Ô campo verde é serenado,

Ô campo verde é Vila bela.”

No domingo a Festa do Divino é celebrada na Igreja Matriz, às 7 horas da manhã, sob os cantos e execução do Coral da Consciência Negra, com uma participação cheia de ânimo e paixão. A maioria dos habitantes da cidade é constituída de negros.

Ao ser anunciado os próximos festeiros – Alferes e Capitão – todos cantam:

A pombinha vem voando

Por cima da laranjeira,

Vem dizendo Viva, Viva,

Viva o Alferes da Bandeira!

No caso do nome do Capitão ser anunciado, cantam:

A pombinha vem voando

Por cima da bela matriz,

Vem dizendo Viva, Via,

Viva nossa Imperatriz

Após o anúncio dos novos festeiros, eles se juntam aos antigos e são levados em procissão pelas ruas da cidade, para que o vilabelense conheça os responsáveis pela nova festa do Senhor Divino.

A intenção da Festa do Senhor Divino é de proteger todo o Vale do Guaporé, abençoando-o, permitindo que a prosperidade seja maior do que do ano anterior e que todos gozem das graças do Santo.

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