A calma gerada pelo sol escaldante.
Fico a observar a calma do cuiabano, talvez motivada pelo sol escaldante que parece fritar sua massa encefálica.
Dona Gilda morra no bairro de nome Tijucal. É pobre, negra e preguiçosa. Se um filho cai, ao invés dela correr e levantar o guri, grita:
- Manoela, por favor, acode aí meu menino... E continua a fazer o seu crochê com a maior tranqüilidade do mundo.
É cuiabana, filha de mineiros que vieram para Cuiabá nos anos 60, quando o ex-Presidente JK transferiu a capital do Brasil para Brasília e, dessa forma deu grande impulso ao Centro-Oeste. Atraiu para Mato Grosso povos de todos os nossos brasis.
Comodidade é com esse povo de Cuiabá. Se os Correios têm que abrir às 9 horas, pode esperar que as portas se abrem às 9h15m. Os funcionários ainda estão batendo papo entre si, sem nenhuma preocupação com os clientes.
- Rapaz, estou aqui há dez minutos e você só está discutindo quem vai ser eleito o presidente do País? Então já não sabe que vai ser o Lula?
- Pois eu não penso como a senhora e digo que vai ser o Dr. Geraldo Alkimin. Pelo menos, eu e minha família de dezessete pessoas vamos votar nele. Chega de Lula, dona! Não viu como o operário é corrupto? Vôte, dona-menina!
- Bem, quero colocar duas cartas no correio e preciso ser atendida, por gentileza!
O moço calmamente pesou as cartas, deu o preço e ainda demorou cerca de cinco minutos para encontrar troco.
Uma senhora que se chama Natália, velha amiga, mora no Jardim Cuiabá. Fica sentada numa cadeira de balanço à espera do carrinho de verduras e legumes passar para fazer suas compras para o almoço. Tem bons supermercados na cidade, mas ela prefere comprar nos carrinhos que vão de casa em casa.
- Adoro comer maxixe com carne picadinha! E a senhora? – pergunta-me.
- Prefiro comer peixe, principalmente pacu, arroz com pequi e carne com mandioca bem sequinha.
- É, mas o pacu é pra gente rica, porque custa muito caro. Foi-se o tempo em que pobre comia pacu, agora só come lambari ou bagre. Ainda bem que meu marido, o Ditão Pinta Preta é pescador e, aos sábados vai para o rio pescar alguns peixinhos para nós. Pacu, nunca veio no seu anzol... Quando muito dá um pintado.
- Natália, você compra tudo aqui na sua porta? – pergunto.
- Craro, desde pão, leite de cabra que seu Corsino manda vender de seu sítio Estrela Azul, carne que vem lá de Várzea Grande do pai do Fernando Ferreira, dono do Açougue Empapuçado e outras coisas mais como os produtos Avon.
- Quer dizer que você sequer precisa sair de casa para comprar o que deseja, não é?
- Craro! Até roupas a dona Gissa vem vender com as suas sacolas pesadas e, após vender para mim e as demais vizinhas, dou um copo de guaraná ralado para ela. Ela tem uma caderneta onde anota as compras e vem receber todo dia 10 de cada mês. Ela é uma mulher muito legal, porque confia na gente.
- Quer dizer que a senhora é igual os antigos cuiabanos que compravam na caderneta e pagava no dia do pagamento?
- Craro! Quer melhor que isso? Fico aqui me balançando na cadeira de balanço e faço tapete para banheiro, de encomenda. Quer comprar um? Faço para a senhora pagar em duas vezes.
Fico besta de pensar que já se passaram tantos anos e o cuiabano ficou na mesma mania, ou seja, prefere se refestelar na porta a conversar sobre as futilidades do dia a dia, a ir fazer uma boa compra no Shopping ou no Supermercado, onde os produtos são mais baratos.
Volto à casa da Natália para saber se quer fazer uma faxina para mim, porém ela me olha de cima a baixo e, responde com desdém:
- Vai me pagar quanto? Se for R$50,00 (cinqüenta reais) pode guardar a sua nota na carteira, porque eu quero é rosetar... Tenho um marido de calibre 14 e tamanho 17, que não me deixa uma noite sem bater o ponto. É mecânico e o dinheiro que ganha é o suficiente para nossa comidinha diária. Daí que não quero nada com o tal do serviço. Ali adiante tem a Safira, filha da dona Cota, que faz faxina, mas cobra R$70,00, fora o dinheiro das passagens (ida e volta).
Desenxabida, vou caminhando pelo Córrego Mané Pinto, a pensar o que essas mulheres devem ter na cachola, que massa encefálica não deve ser.
Na missa de São Benedito, às 5 horas da manhã, encontro a Natália com o marido, um negão forte e troncudo, e os oito filhos de 21 a 5 anos de idade. Sorri, ao me encontrar na igreja, querendo me mostrar o produto/homem que ela tem em suas mãos.
Vejo-a rezar e parece estar muito feliz, com uma cara que passou bem demais a noite passada. O marido sorri e lhe falta na parte de cima os dois dentes da frente. Os filhos estão arrumadinhos e cheirando a perfume Avon.

