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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Quinta-feira, Setembro 21, 2006

Mato Grosso: paraíso dos sulistas!


Em 1952, meu irmão Hélio Mario e eu chegávamos a Curitiba, com aquele feito de todo interiorano que vem do fim do mundo do País, pois naquela época Mato Grosso ainda não era o paraíso dos sulistas como é hoje. Mamãe não recebeu o telegrama de que os dois filhos chegariam pelas asas da Panair, então com desenvoltura tomamos um táxi e mandamos seguir para a rua Visconde de Nacár, ao que o motorista corrigiu de pronto: Visconde de Nácar!

- Obrigada, senhor, porque a gente sequer sabe quem foi esse senhor que deu nome à rua, quando mais pronunciar o seu nome.

- Nem eu sei que foi esse cara, mas sei pronunciar o nome corretamente.

Em questão de minutos estávamos na rua Visconde de Nácar, 507, onde a vida se desenrolaria para nós e os demais irmãos: João Pedro, Nilo, Dely, Ibsen e Edmundo, pois a mamãe já havia perdido três filhas.

O curioso era a perplexidade que víamos nos rostos dos nossos vizinhos, após saberem que acabávamos de vir de Cuiabá, capital de Mato Grosso.

Miltinho, filho do delegado José Carlos, era um garoto gordinho e muito engraçado. Para mexer conosco, ao invés de Cuiabá, dizia Goiabá. Não nos importávamos com aquela brincadeira infantil. Todavia, a mãe dele, dona Lia, lhe contara que na nossa terra corria onça pelo meio do povo, cobras passavam tranquilamente, como lebres, macacos, antas e lagartos.

- É verdade? – perguntou Miltinho.

- É – reforçamos – mas você esqueceu da passarada que gorjeia e, às vezes bica nosso rosto. Tem de tudo. Os periquitos e os papagaios cantam sambas e cantigas de roda. Nossa tia tem um papagaio muito bonito de nome Xucrute, que só falta falar o nome do Presidente do Brasil, porque o resto ele sabe. Quando ela e o marido deitam na rede bordada pelas artistas de Várzea Grande, Xucrute grita “Já vai fofá? Já vai fofá?”

Recentemente, encontrei-me com o Miltinho, que tem comércio de madeira em Sinop e, todo contente lembrou de mim, e veio me dizer que mora naquela cidade há quase vinte anos. Casou-se com uma mineira e tem dois filhos: Fernando Henrique e Juliana, respectivamente, de 20 e 18 anos. Estão na faculdade. O primeiro faz Direito na UFMT – Universidade Federal de Mato Grosso, e Juliana prestará vestibular para o curso de Nutrição, da UNIC – Universidade de Cuiabá, de um paulista.

- E agora, Miltinho, o que você pensa sobre Mato Grosso?

- Estou com os outros meus conterrâneos paranaenses que costumam dizer “No cu do mundo existe um morro e logo atrás dele tem um buraco fundo. Cuiabá fica dentro desse buraco, onde sua gente convive com jacarés, cobras e macacos”. Dá uma boa gargalhada e corrige: “Não existe no mundo terra melhor que esta e, cá entre nós, além da minha mulher, Lenira, que mora em Sinop, tenho em Cuiabá uma morena, tipo índia, a Juracy, que é um colosso, e tira todo meu sossego. Vai ter um filho! – diz com orgulho. Já sabemos que será homem e terá o nome de Cândido Mariano, em homenagem ao grande mato-grossense da cidade de Mimoso, Candido Mariano da Silva Rondon.

- Viva! Então você aprendeu a gostar de Mato Grosso, seu curitibano da Visconde de Nácar?

- E como! Nunca me esqueço do seu irmão Helio e da dona Iza, que dava pedaços de bolos para nós comermos. Que bolos gostosos. Juro, em minha vida nunca comi bolos mais deliciosos que os de dona Iza. Soube que ela faleceu, como também li no jornal sobre a sua chegada. A famosa Marta Arruda.

- Que famosa que nada! Sou apenas alguém que gosta de escrever.

Miltinho e eu conversamos mais de três horas e fomos almoçar no Choppão. Como está feliz e realizado o curitibano que veio se enriquecer na cidade de Sinop, cuja maioria é de paranaenses, gaúchos, catarinenses, paulistas e um bocado de nordestinos.

- Você não se arrepende de vir morar no cu do mundo? – indaguei.

- Marta, isto aqui é um paraíso! Para mim e todas as minhas famílias. Mato Grosso é o início de uma vida nova do Terceiro Milênio. Você vai voltar a morar aqui, não é? Pois lhe digo, com todo o meu amor, Cuiabá não é um buraco, mas um caldeirão caloroso, quente e apimentado, que está dando de comer a todos que aqui chegam e querem trabalhar e vencer!

- Obrigada, Miltinho! Seus pais não vêm para cá?

- Ah! Marta, eles já faleceram há alguns anos, lá mesmo.

- E do que você mais gosta das coisas cuiabanas?

- Do pacu,ora bolas! Existe peixe mais saboroso? Esta terra é um maná!

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