Contos de Marta Arruda
Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.
Quem sou eu
Domingo, Outubro 29, 2006
No sótão tem babau

Linda é seu nome. Branca como leite de cabra, da qual se amamentou nos seus dois primeiros anos de vida, aos treze anos já passa a demonstrar o pendor pelo exotismo, do yoga ao domínio das cartas do tarô. Seus pais acham graça da filha precoce que sobre o chão de tijolos crus, em posição de lótus, fica horas a espiar a paisagem, com o livro sobre a vida de Buda caído ao lado, perto dos óculos escuros. Diga-se, a luz solar inunda o lugar em que escolheu para meditar, sob os sete sóis de Mato Grosso, o qual derrete os miolos de qualquer pessoa. Quase meio-dia! O gemado do céu anula as cores e todos os contornos, além de estreitar a visão de tudo. Só resta o etéreo.
Que primavera mais louca esta? Se fosse verão... Nossa! Mas ele (verão) está por romper nos céus. Será insuportável! Estremeceu dos pés à cabeça ao recordar as palavras da avó polaca, Ana Lapichinski, que a proibia de subir ao sótão porque lá se escondia o babau. Que medo! Não consegue esquecer as proibições loucas da avó e as ameaças do babau (bicho papão), a quem teme até hoje.
Sobre o chão, não só respira o cheiro das plantas que a cercam (comigo ninguém pode, espada de S. Jorge, arruda, guiné, jasmim e alecrim), como ouve o gorjeio de uma variedade infinda de pássaros. Curioso, descem do pantanal garças brancas que pousam no alto das mangueiras. É assim que Linda reflete sobre as suas muitas vidas. Põe os óculos para se proteger do excesso de luz. Interrompe a meditação.
Na infância era a voz rouca da avó, corrida dos campos da guerra na Polônia, e que num navio onde viajou com ucranianos, russos, alemães, italianos da Calábria (a maioria) veio em busca da paz e amor do Brasil e quem sabe pelo pavor sofrido durante a Segunda Guerra Mundial apreciava apavorar os netos com a história do babau, bicho papão de crianças teimosas, gastadeiras e mentirosas.
Segundo vovó Ana, o sótão era assombrado e mesmo em pleno meio-dia lá viviam em conluio as almas penadas que não puderam entrar no reino de Deus. Cuidado, Linda, não vá lá, porque o babau vai te comer!
Às vezes dá risada ao recordar o azul celeste dos olhos da avó e a boca de poucos dentes que sequer falava o português corretamente e misturava o polonês ao português, e deixava escapar a palavra pinhonse, ou seja, dinheiro, que era poupado até na hora da comida quente sobre a mesa redonda. Precisamos guardar o pinhonse! Sem pinhonse ninguém é ninguém e tampouco o babau nos quer!
Como podia o sótão ser assombrado se deixa o mundo sem sombras? Era coisa de vovó Ana, a qual em vinte anos na cidade de Curitiba encheu seu pé-de-meia de dinheiro, muito pinhonse, que empregou na bolsa e devagar se tornou uma rica mulher de negócios imobiliários.
Comprou uma casa, depois outra e enfim dezenas e até um belo chalé na Praia da Solidão, em Santa Catarina, para onde mandava a família quando queria ficar a sós para contabilizar seu monte de pinhonse.
Ao recordar da avó morta há muitos anos, deixou a posição de lótus. Tirou os óculos escuros e se sentiu uma estranha na terra, porque nunca mais conseguiu se livrar da idéia do babau.
Piscou inúmeras vezes para suportar o feixe de luzes impiedoso. Que sensação terrível! Que arrepio pelo corpo! Que medo!
Uma certeza, no entanto, a deixa feliz, a de saber que viveu muitas e muitas vidas e, numa delas a avó Ana também esteve presente. Foi sóror Maria das Dores, que por mais incrível que possa parecer, era gorda, rosto cheio de verrugas e metia medo nas meninas do internato com as histórias horripilantes de assombração.
Em sua cabeça, tranqüila e ponderada, ficou apenas uma verdade: os homens terráqueos ao se defrontarem com o desconhecido – algo se parte dentro deles – e pode haver vários babaus no sótão, no porão ou no quarto vazio, quando instantaneamente a relação com o mundo, ao seu redor, se transforma. Aconteceu com Linda naquela hora dos sete sóis de Cuiabá, uma das cidades mais quentes do Brasil ou, crê, do próprio mundo.
- Oh meu! Que medo do babau! – foi invadida em questão de segundos pela certeza de que do seu lado direito estava o bicho de dentes ponte agudos, olhos arregalados e remelentos, patas recobertas de pêlos negros tanto quanto seu corpo de Chipanzé, andar descompassado pelo peso do enorme corpo. Era a assombração do tempo da infância e os medos dados na infância ficam na cabeça iguais as marcas a ferro ganhas pelos animais do campo. Sim, como o gado que trazia gravado a ferro e fogo a letra L, da família Lapichinski.
Olhou para o lado direito, esquerdo, para trás e para frente e sentiu vontade de gritar e pedir socorro, mesmo com a luz difusa e o suor escorrendo pelo rosto e pelo corpo.
Diante daquele solzão cuiabano ou mato-grossense imaginou a cara do bicho presente nas histórias da avó, que morreu aos cento e cinco anos, no apartamento confortável de Várzea Grande, para onde viera em busca de mais pinhonse. Pinhonse não agüenta desaforo e se você pinchar fora, ele some e nunca mais volta! – repetia aos filhos, netos e amigos.
Naquele momento especial, em busca do inatingível, Buda, Deus, Alá, Gandhy, Krisna, Tupã, seus cabelos se eriçaram, trincou os maxilares, e repetiu várias vezes OOOOOMMMMMMM!
- Oh meu, sinto-me forte! Cada diz mais forte! Saiu dali e foi meditar no porão escuro onde era só acender a luz, sem nenhum babau.
Linda abriu o mais belo sorriso. Pensou alto, quase berrou para o mundo escutar: o pior terror vem das bocas dos adultos nos dias serenos da nossa infância!
No velório de Gonça
Vou ao enterro de Gonçalo Borba e Antunes. Olho o rosto tranqüilo de quem se foi para jamais voltar.
Tão jovem senhor morto e a viúva diz que já era tempo de ir desta para uma melhor. Coitado, como sofreu o Gonça! Quem sabe esteja a sorrir ao chegar a um novo patamar onde já se encontram seus pais e a primeira mulher: Doninha. Todos da cidade sabem o quanto você sofreu antes de cerrar os olhos e como alcançou os derradeiros dias com dignidade. E se hoje digo estar na hora de partir sem o condenar à eterna sobrevivência numa terra de tanta corrupção e maracutaias, das quais você nunca tomou parte, é porque só eu sei o quanto odiavas esta corja que aí está a nos representar no município, no estado e em Brasília. Pouco a pouco, como você reclamava, era cada vez menor seu número de amigos do peito; conhecidos sobraram números mínimos que tampouco tiveram tempo de vir ao seu velório. Fugiram à francesa de sua sombra amarela. Para que fingir, se agora ele está bem melhor que eu?!...
Escrevo-lhe do Bosque, bairro antigo de Cuiabá, o qual hoje sequer é lembrado porque o Bosque da Saúde tomou seu lugar.
Amigo, você sonhou tanto que um dia seria o chefe da Tesouraria. O tesoureiro, no entanto, acha-se à cabeceira do seu caixão e lamenta com pesar sua partida. Que funcionário exemplar nós perdemos! Até esperava me aposentar para o indicar para meu lugar, mas você se foi mais depressa do que imaginava!
Seu sogro lamuria a questão de a casa onde você e Vera morava ainda ser alocada, apesar dos nove filhos (cinco mulheres e quatro homens), e só o Júnior receber diploma de doutor, mas estar desempregado. Que coisa! Sequer teve tempo de financiar uma moradia junto à Caixa Econômica! Também com essa burocracia, não é?
É, meu genro, as coisas indicam que mentem as aparências, porque conforme me disse ainda agora o presidente da repartição, você foi sorteado com uma casa no CPA IV. Por que o Visnel não lhe deu a notícia antes? Sei, talvez queira ser meu próximo genro, já que é viúvo há quatro anos. Ioseilá!
Escuta! Se não ficaram moucos seus ouvidos: o Presidente da República será reeleito e como você depreciava aquela barba e aquela fala popular! Só espero que Vera, apaixonada, não tome tantas biritas e fique bêbada de dor e saudades, pois ainda dá bom caldo!
Desculpa lhe peço em seu velório, mas as pernas de minha filha e sua mulher são grossas e belas. Você tinha toda razão ao faltar todas as segundas e chegar na terça com os olhos a revelar cansaço e olheiras roxas. “Sofri mais uma terrível dor-de-cabeça!” Era a desculpa de sempre.
Você foi embora muito cedo, no entanto, a vida aqui na terra segue igual ou pior que antes. Nada desculpável, sequer a vergonha imperdoável das ambulâncias, nas quais figura gente que proclama ter as mãos limpas. Que receio me passa pela cachola: será que tais mãos secarão como a figueira que não deu frutos? Está na Bíblia Sagrada, e nela eu ainda acredito.
Certo, certíssimo, a questão foi a globalização da terra e da TV, que deformou a cabeça honesta do nosso povo. Lamento.
Cuiabá vive dias novíssimos e inventam palestras, shows e exposições onde comparecem mixtenses, dombosquinos e a turma do Operário de Várzea Grande. Viu? O Jaime é senador da República e promete trazer grana para o Estado. Tomara! Seu Fiote e dona Amália nem podem sequer ir à missa das 6 na Catedral, pois o pessoal não só pede a benção como traz bilhetes com pedidos de empregos para os seus parentes e amigos íntimos. Coitados! Agora vão à missa de São Benedito, às 5 da manhã, porque muita gente é dorminhoca e não aparece por lá. Os irmãos gêmeos Fortunato sentam-se à frente e nem olham para trás, pois se compenetram nas palavras do sermão do padre. Como se dedicam ao nosso milagroso São Benedito! Até pediram pela sua saúde na lista dos que necessitam de ajuda espiritual e física. Mas estava na hora! Ninguém impede a ida de alguém se não for a sua hora exata.
Quanto ao País, pobre de nós, vivos, porque tudo anda desarranjado. Um horror! Além da incompetência, roubo e o descaramento de quase todos, ainda há promessas bailando no ar quente de todos os Estados, do Oiapoque ao Chuí, claro, sem deixar de passar por Mato Grosso e, em especial, por Cuiabá. Dá vergonha de ser gente. Quisera ser um cachorro vira-lata!
Fui à feira da Boa Morte, na quinta, e uma senhora gorda e de óculos de fundo de garrafa, professora da UNIC, teve a audácia de me dizer: “E ah! Feio é não saber roubar! Quem rouba e tem peito de carregar é um nobre! Torço por essa gente!”.
Tudo decai. A nossa neta já dorme com o namorado há mais de cinco anos, se bem que começou o namoro aos 14 e ele com 18. Confessam que se amam e, depois de formados vão casar na Igreja Mãe dos Homens.
Olha aqui, Gonça, de sua geração estão indo todos, até o Arari do Olavo e da Aída já foi. Pobrezinho! Refugiava-se na branquinha para suportar as esquisitices do Terceiro Milênio. Deixou uma viúva ainda nova e aproveitável. É evangélica e, paciência, diz que se dedicará à família.
O papa é alemão e, duro como uma rocha, não passa a mão na cabeça de seu ninguém. É fervoroso e tem pulso forte para mudar algumas coisas erradas, como a Guerra Santa, que o Bush não manda parar. Para que? E o lucro que dá uma guerra? Só ele (Bush) sabe. Aguardo para breve a publicação de sua Encíclica.
Espia lá, Gonça, começou a cair uma chuva forte como canivete! Como vai sair o féretro? Não quero que desbote minha camisa de crepe verde clara, mas de jeito algum vou deixar de segurar numa das quatro alças do seu caixão, juro!
Adeus, genro querido! Se tiver ocasião, peça humildemente a São Pedro que mande benções especiais para a nossa família! E que Verinha não entre outra canoa furada!
