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Contos de Marta Arruda

Marta é descendente da tribo Guaná, já extinta, mas tem no seu íntimo sente um forte elo com os índios e as classes excluídas. Escreve desde menina, 12 ou 13 anos, e já foi premiada com um conto no colégio. O título: "Coró". Amo gente que é gente e quero melhorar mais a cada dia, para que nossa vida sejá mais feliz e autêntica.

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Nome: Marta Arruda Dias de Paiva
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

Terça-feira, Outubro 31, 2006

O pai era apenas um retrato


O garoto era mais ou menos forte na estrutura corporal mas verdadeira “manteiga derretida” se um de seus amigos tocassem no problema da ausência de seu pai. Dona Nanita, mãe amantíssima, com a delicadeza e a premonição que a caracterizava, leu o pensamento de seu pequeno caçula e depressa, para torná-lo mais feliz, colocou na parede da sala de visita uma foto grande do “velho”, homem bonito e vestido de terno de linho branco. Um orgulho não só para Edson, porém para os outros seis irmãos.

- A senhora reparou mãe, que o meu pai tem um ar de Clark Gable? No filme que vi recentemente no “Cine Teatro Cuiabá”, ora mãe, meu pai se parecesse demais com o ator!

- É mesmo, filho meu, só eu não havia reparado tamanha semelhança e como seu pai era bom! (Horrorizada, pensou no dia em que o marido prometeu matá-la com um revólver calibre 44, pelo motivo de estar de namoro com Lalita, moiçola de 14 anos, e esta lhe prometeu casar-se com ele no caso de ficar viúvo. Você tem que morrer! Contudo, tive coragem e joguei no fundo do rio Cuiabá, próximo a um redemoinho a arma, e mandei que fosse dar um mergulho para apanhá-la. Dali não sairia vivo, pois havia um poço profundo por perto. A esbravejar, encerrou a cantilena me xingando de bandida. Também lhe veio ao pensamento o dia em que fez a travessia na Baía de Seá Mariana, com a família toda e a mosquitada a cair sobre os corpos de sua filharada, igual à farinha de trigo. Após todo aquele sacrifício, ao chegar em terra firme, implorou ao marido que fossem para a fazenda de seu Hildebrando, a uns cinco quilômetros dali, com a finalidade de descansar, mas o desconjurado bradou: “Escala? Só em Cuiabá!” Novamente fui obrigada a tomar uma atitude enérgica para me proteger e muito mais aos meus filhos, então montei a cavalo e carreguei três filhos menores comigo, seguindo rumo à fazenda “Rio Azul”. Desapontado, seguiu-me em outro cavalo com os quatro, dois à frente e dois na garupa. Lá, dona Raquel, esposa de seu Hildebrando, pessoa muito católica e bondosa, mandou que Chica esquentasse uma panela grande de água com sal grosso para lavar os meus pés, os quais pareciam dois bolos crescidos com bom fermento. Não, Como esquecer tanto sofrimento?!!! Oh! filhinho, a separação foi inevitável!”

- Puxa vida, você está triste, mãe? Há algumas gotinhas de água que lhe caem dos olhos... O que foi que meu pai lhe aprontou, mãezinha?

- Nada, filho querido, é que sinto saudades daquele tempo!

- Saudade faz a gente chorar e ficar com os olhos tão melancólicos?

- E como, filhinho! Está na hora de tomar sua vitamina e ir para a escola, desconversou, senão vai se atrasar na entrada e a diretora já reclamou dessa demora. Toma! Quero que seja sempre forte e bonito! O mais belo da escola!

No colégio, Edson não sofria nenhuma agressão verbal como a de seus “amiguinhos” da vizinhança que, a qualquer pretexto lhe jogavam na cara:

- Cadê seu pai, Edson! Aqui na rua da Esperança só vocês, filhos de dona Nanita, não têm pai! Ele fugiu com outra mulher, é verdade? Deixou os filhos lambendo os beiços? Ora, Edson, vá buscar seu pai onde estiver!

Pior era quando chegava a noite e a mãe fechava a loja para sentar-se na cadeira de balanço, na calçada, enquanto a gurizada brincava. Juntamente com outras mães, comentava-se de tudo, desde a falta d’água à falta de luz; preços caros do comércio alimentício, atitudes de alguns políticos e por aí ia.

Como se sabe, à noite crescem os medos. Apavorava-se se um deles tocasse no nome do pai. O pavor tomava forma e consistência. Um dia Arthur, filho do dentista vizinho lhe pediu que, pelo menos uma vez, mostrasse a cara do pai.

- Venha cá, guri chato e impertinente. Olha lá, está vendo aquele homem bonito, cara do Clark Gable? Aquele é meu pai! – inflou o peito e esperou a reação do colega..

- Mas seu pai não sai desse retrato? Quero conhecê-lo, apertar sua mão e conversar demoradamente com ele. Anda, Edson, vá busca seu pai onde se esconder!

Nessa noite a brincadeira acabou e desculpou-se de estar morto de sono. No pequeno quarto de cama e guarda-roupa, sozinho, enquanto a mãe conversava amenidades com as vizinhas e os outros irmãos brincavam lá fora, de olhos abertos na penumbra da noite, entrava pela janela as luzes da pequena cidade. Por que seu pai lhe era desconhecido e apenas o enxergava naquele retrato? Na verdade.não podia tirar da cabeça as palavras de Arthur, o Tuca. Seu pai não sai desse retrato?

Acabou dormindo e, o mais admirável sonho lhe chegou em cores à lembrança. Viu entrar em casa o pai (Clark Gable), e nada lhe trazia nas mãos, mas era o pai que tanto amava e queria que estivesse presente como nas demais casas. Pai, você chegou? Dá aqui um abraço e um beijo! Como lhe quero bem, meu pai!

Acordou e a angústia se fez maior. Aparvalhado correu para a cama da mãe, mulher muito bonita e carinhosa que lhe perguntou se havia tido um pesadelo.

- Não, mãe, sonhei que papai voltou para nossa casa, mas foi tudo mentira!

Até que num dia comum da semana aconteceu o que esperava tanto, o pai chegou e vestia um terno azul-marinho, mas foi uma decepção enorme, pois o velho ameaçou matar sua mãe. Era bem o estilo dele, porém Edson são sabia.

Naquela noite, ao adormecer, sentiu medo de que o pai realmente voltasse e matasse sua linda e adorável mãe. Ficou em estado de vigília, medroso de que o pai retornasse ali enquanto dormia. Sentiu pavor daquele homem insensível e orgulhoso, então novamente correu para a cama da mãe e, cochichou em seu ouvido:

- Mãe, tira da parede o retrato do pai da parede da sala de visita, sim? Não, minha mãe, pai de retrato não quero mais! Sei que tenho só mãe e você me basta! Crispou as mãos no lençol branco e estremeceu. Naquela noite ouviu estrondos, correria de cavalos e bois selvagens, uivos de cachorros, cascalhar de cobras, gritos e gemidos. O chão do quarto parecia tremer. Estava pronto, a partir de então que ninguém lhe cobrasse a presença do pai, pois daria um murro na cara do sujeito. Fosse Arthur, Cesino, Manoelito ou Oziel. Fosse lá quem fosse! Ora, eu não nasci filho de macaco e quem tem direito de exigir aqui em casa a presença do meu pai sou eu e ninguém mais? Não!

Na manhã seguinte levantou-se, tomou um bom e farto banho frio, enxugou-se com a toalha azul e vestiu o uniforme da escola.

- Meu filho, acordou tão cedo? Já está pronto para ir à escola? Que pressa é essa?

- Nada não, mas acredito que vou conversar com meus “amiguinhos” e findar uma humilhação de anos quanto à ausência do meu pai em nossa casa. Ora, se vou!

- Nada disso, meu filho, deixe que seus colegas falem, porque você vale muito mais que todos eles! Sabe por que eles tanto mexem com você? É inveja de seu rosto corado e bonito, da sua inteligência, do seu comportamento feito a homenzinho. Nada lhes façam, pelo amor de Deus! Deixe o tempo passar e, quando você for um doutor, apenas olhe no fundo dos olhos deles, se por acaso encontrá-los numa rua, numa praça ou numa reunião de negócios qualquer.

De fato, Edson passou a se calar, ficar absorto com os problemas da vida dos homens e da marginalidade do país, e hoje é professor de Direito numa Universidade Federal, Juiz do Trabalho aposentado, casado com uma bela mulher, pai de quatro filhos maravilhosos (um deles faleceu na infância), as meninas são meigas e belas, mas não consegue se esquecer do tempo em que seu pai era penas um retrato na sala de visita.

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