Dois velhinhos gargalham
Marta de Arruda (
Oátomo e Omar são velhos irmão, aos quais o pai procurou registrar com nomes diferentes, ou seja, átomo (elemento material, indivisível, homogênico e invisível), e mar (massa de águas salgadas dos oceanos).
Cresceram na prosperidade de um lar e batalhadores, ambos alcançaram grande sucesso e ganharam muito dinheiro para manter razoavelmente bem suas famílias de mais de oito filhos.
Cada um em sua casa, no entanto se viam quase que diariamente, sentados na Praça Alencastro, para onde também vinham outros contemporâneos, principalmente para discutir a política do Município, Estadual e Federal.
Ambos compartilham de idéias idênticas e votaram no Lula, sem nenhum rancor do Geraldo Alkmin. Quando um tossia, outro espirrava.
Os filhos de ambos foram crescendo, estudando e conquistaram bons lugares nos patamares econômicos e financeiros. Oátomo viu formar em Medicina dois filhos, as moças são professoras universitárias, um dos rapazes é químico industrial, o caçula é engenheiro civil e está crescendo seu patrimônio a olhos visto. Os de Omar, um deles é professor de História (com doutorado na França), o outro é dono de agência de viagens e possui um montão de amigos, as moças são todas formadas e bem empregadas. Uma das netas reside na Dinamarca e, segundo sua mãe, é realizada e feliz.
São dois velhos simpáticos e que sabem rir como ninguém.
Gostam de ler todos os jornais de Cuiabá e, em seguida, jocosamente comentam os assuntos. Aposentados, não se pode afirmar que sejam ticos, mas comem um pacu assado por semana comprado no Mercado do Porto.
Plácidos, cheios de paz e amor, sequer sabem o que significa a angústia.
Sábios? Nem tanto, mas já conseguiram ler todos os livros de Gabriel Garcia Marquez, do qual são fiéis leitores.
São velhinhos e já não pagam ônibus, portanto, vão e vem até Várzea Grande, a olhar o progresso da terra do finado Licínio Monteiro, político matreiro e criador de gado, que misturava água no leite, mas quem ia ligar para aquela safadeza do velho? O leite era forte.
Olham, abrem a boca e continuam calados.
- Que saudades de Sarita Baracat! Ela ainda vive?
- Naturalmente, nem chegou aos oitenta; quem faleceu foi o marido dela.
De repente, os dois parecem sentir um vazio e, neste vazio, se movem como peixes dentro do aquário. Um é igualzinho ao outro, até nas mastigadas das dentaduras. Os novatos já não distinguem quem é um ou outro.
Na Várzea Grande, ao olhar para a casa do Fiote e dona Amália, comentam:
- Tanto o Júlio como o Jaime são duas raposas! Chegaram onde puderam porque tem massa cinzenta boa na cabeça. Dona Amália e Fiote souberam educar os filhos, não acha?
- E como!
Da política pulavam para os esportes e aos acontecimentos do mundo e do País. Excitaram-se ao pensar na vitória estrondosa de Lula, um operário que soube ser bom Presidente do Brasil. Como ajudou os pobres, né, Oátomo? Excitados, ao máximo, jogaram uma bolinha de papel amassado na cara do outro.
- Impossível! – gemeu um, ao comentar que o Apocalipse diz que vivemos os últimos dias na terra. Ambos soltaram silvos, guinchos, requebros, gemidos e exclamações. Omar soltou um pum. E de tanto darem risada, acabaram por rolar sobre a calçada, e repetiram: - É impossível!
A cena demorou alguns minutos, nem se sabe se era de extrema alegria ou de extremo horror, mas como eram velhinhos todos que passaram por ali tampouco ligaram para a cena dantesca.
Como já expliquei, são apenas dois velhinhos que gargalham da vida.


